A menina que angariava livros para crianças pobres e se tornou a primeira dama de ferro

Nascida no Império Russo, criada na América e fundadora do moderno Estado de Israel, Golda Meir é explicada neste artigo pelo seu biógrafo.

"Goldie Mabowehz (Golda Meir), da Biblioteca Pública de Milwaukee a primeira-ministra de Israel" é o título da minibiografia que o site da própria biblioteca americana dedica à ilustre judia nascida no Império Russo em 1898, educada nos Estados Unidos a partir dos 8 anos e fundadora do moderno Estado de Israel em 1948. Mas se o site reivindica a jovem Golda lá ter sido bibliotecária, já o mesmo não diz o seu biógrafo Meron Medzini, mesmo que garanta a absoluta paixão dela pelos livros e desde criança.

"A minha mãe era a sua melhor amiga desde que se conheceram pela primeira vez na escola primária em Milwaukee, em 1906, ambas as famílias acabadas de chegar da Europa Oriental e não sabiam uma palavra de inglês. Depressa aprenderam a língua e Golda tornou-se uma leitora voraz. Quando criança, na Rússia, não frequentava a escola, não havia livros em casa; portanto, quando ela veio para a América e estudou, aprendeu a ler e logo começou a tirar muitos livros da biblioteca local. Leu os clássicos - Tolstoi, Balzac, Hugo -, também os escritores americanos, e absorveu as histórias muito rapidamente. Aos 12 anos, organizou uma angariação de fundos para obter livros didáticos para meninas da idade dela que não tinham dinheiro para comprar livros. Ela era uma aluna de excelência e estava no topo da sua turma",conta, em conversa telefónica, a partir de Israel, o professor Medzini.

"O seu mundo foi ampliado quando conheceu Morris Myerson, o homem com quem se casaria. Ele abriu-lhe o mundo dos livros, da música, da arte e do teatro, todas essas coisas que ela não tinha em casa. É claro que ela lia já muito quando estudou no ensino secundário e depois num curso de professor. Um dos seus primeiros empregos foi ensinar Inglês no que era conhecido como Folkschule para crianças imigrantes", acrescenta o autor de Golda - A Political Biography.

Entre 1906 e 1921, Goldie foi uma jovem judia americana, seduzida pelo cosmopolitismo das grandes cidades como Chicago, onde chegou a viver algum tempo. Mas a sua adesão ao movimento sionista levou-a em 1921 a partir para a chamada Terra Santa, indo viver para um kibutz. Foi uma das signatárias da Declaração de Independência de Israel, depois de os países árabes terem recusado o plano de partilha da ONU que criava também um Estado palestiniano, logo se seguindo uma terrível guerra, a primeira das várias guerras israelo-árabes . E antes de ser chefe do governo em 1969 foi embaixadora na União Soviética e várias vezes ministra, incluindo dos Negócios Estrangeiros.

"A memória de Golda Meir em Israel hoje é mista. Ainda é elogiada pela sua legislação social, leis do trabalho, habitação e emprego para novos imigrantes. Também é lembrada por abrir laços entre Israel e as novas nações emergentes da África e como a arquiteta das relações israelo-americanas quando conheceu John F. Kennedy em 1962 e ele lhe disse que as relações da América com Israel são como as que mantém com a Grã-Bretanha - laços especiais. Também é lembrada por iniciar o processo que levou à imigração de um milhão e meio de judeus russos para Israel. Mas, por outro lado, ficou para sempre ligada à Guerra do Yom Kippur quando Israel foi apanhado desprevenido e sofreu muitas baixas antes de o seu exército conseguir repelir os sírios e egípcios. Ela era primeira-ministra na altura e muitos ainda pensam que não era flexível o suficiente e talvez pudesse ter feito algum acordo com o Egito, evitando a guerra", explica o académico que além de amigo pessoal de Golda Meir foi também seu porta-voz oficial.

Conta o professor Medzini que quando deixou a América em 1921 Golda fez uma escala nos Açores e andou umas horas por Ponta Delgada em busca de judeus portugueses. Mas quando a base das Lajes foi essencial na Guerra do Yom Kippur, em 1973, "ela não teve envolvimento nas negociações entre os Estados Unidos e Portugal para o uso dos Açores no transporte aéreo americano para Israel. Isso foi feito por Kissinger e pela Força Aérea dos Estados Unidos. Mas Israel não esquece que Portugal foi o único país europeu que permitiu que os aviões americanos reabastecessem a caminho de Israel naqueles dias sombrios".

Golda Meir (só hebraizou o nome Myerson depois da morte do marido) morreu em 1978. Foi a terceira mulher eleita primeira-ministra no mundo, mas a primeira que não pertencia a uma dinastia política. Também foi a primeira a merecer o epíteto de "dama de ferro".

A última vez que esteve em Milwaukee foi em 1969, numa visita diplomática aos Estados Unidos, e passou pela biblioteca pública. A cidade não se esquece dela até hoje. Mesmo que nunca tenha chegado a ser bibliotecária de profissão, o ramo de Milwaukee da Universidade do Wisconsin tem a Biblioteca Golda Meir, homenagem à menina que angariava livros para os pobres e se tornou uma estadista.

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