PAN. Quando vão acabar as demissões?

Mais uma demissão no PAN, agora de uma deputada à AR, que passa a não inscrita, como Joacine Katar Moreira. Será que a onda vai engrossar?

E vão seis. Este é para já o número de destacados militantes do PAN que nos últimos dias pediram a demissão do partido. Esta quinta-feira foi a vez da deputada à AR Cristina Rodrigues, que assim se tornará, depois de Joacine Katar Moreira, na segunda deputada não inscrita desta legislatura.

À demissão de ontem a direção do partido respondeu relativizando: são só "dores de crescimento". Ao mesmo tempo criticou duramente os dissidentes.

O nome de Cristina Rodrigues soma-se ao do eurodeputado Francisco Guerreiro, o qual, demitindo-se do partido (mas mantendo-se eurodeputado), deixou o partido sem representação no Parlamento Europeu.

"Coração extremamente apertado"

Também já se tinha demitido Sandra Marques, deputada municipal em Cascais, membro da comissão política nacional do PAN e mulher de Francisco Guerreiro. E ainda João Freitas, Ana Mendonça e Isabel Braz, os três da direção do PAN na Madeira.

Num longo texto no Facebook, Cristina Rodrigues explica, com o "coração extremamente apertado", as razões da demissão.

Por um lado, porque "há há algum tempo que a estratégia definida pela direção tem primado por um afastamento face a princípios estruturais do PAN".

Ou seja, "passou-se de um discurso construtivo, positivo, imbuído da vontade de fazer pontes e de dialogar, para um discurso agressivo que chega a colocar em causa pessoas e não ideias, algo que contraria os Estatutos do partido". E deu-se também uma "tendência" para uma "uma clara centralização do poder". Enfim, "deixou de haver tolerância para com a diferença e qualquer opinião divergente é rotulada de desleal".

"Fui sentindo cada vez mais a minha voz silenciada e a minha capacidade de trabalho condicionada, o que culminou com o meu recente afastamento da Comissão Política Permanente do PAN, feito à minha revelia e sem aviso prévio."

No seu entender, tornou-se "flagrante o distanciamento face a medidas estruturais do PAN, como o Rendimento Básico Incondicional (RBI), que, apesar de constar nos programas do partido desde 2014, sempre viu a sua discussão bloqueada", algo que se tornou "ainda mais evidente durante a primeira fase da pandemia, em que vários países avançaram com propostas nesse sentido, abrindo uma janela de oportunidade que foi desaproveitada".

E sucedeu o mesmo com a "causa animal" que, "embora continue a ser abordada, é-o de forma residual", ou a aprovação de uma Lei do Clima, que passou de "bandeiras de campanha" do PAN para prioridade arquivada.

No texto, a agora deputada não inscrita queixa-se também de ter sido mal tratada enquanto parlamentar: "Fui sentindo cada vez mais a minha voz silenciada e a minha capacidade de trabalho condicionada, o que culminou com o meu recente afastamento da Comissão Política Permanente do PAN, feito à minha revelia e sem aviso prévio."

Em conferência de imprensa, o deputado e líder do partido, André Silva, respondeu com dureza à demissão de Cristina Rodrigues.

Segundo disse, "a saída de Cristina Rodrigues hoje, mais não é do que a antecipação de um inevitável processo de retirada de confiança política do partido".

"A deputada sempre demonstrou falta de empenho e de interesse, algo por demais evidente ao nível do trabalho político que não desenvolveu nas comissões parlamentares que acompanhava."

Para André Silva, a agora deputada não inscrita "mostra, desde há algum tempo, que não convive bem com a democracia" e "exemplo disso é o facto de dizer que foi afastada da Comissão Política Permanente, à sua revelia, quando houve um processo eleitoral interno, ao qual optou não só por não se candidatar, como também por nele não participar".

Além do mais, "no seio do grupo parlamentar, foram várias as vezes em que não participou em reuniões ou que se ausentou das mesmas, mostrando uma total falta de envolvimento no debate político interno". A deputada "sempre demonstrou falta de empenho e de interesse", algo "por demais evidente ao nível do trabalho político que não desenvolveu nas comissões parlamentares que acompanhava".

"Na política, o ganhar escala traz dores de crescimento e mostra, por vezes, o melhor e o pior de algumas pessoas. E infelizmente o PAN, como outros partidos ao longo da história da democracia portuguesa, não esteve imune a estes fenómenos."

E, além disso, "uma conduta de constante falta de solidariedade institucional, que a mesma assumiu recentemente ao afirmar que não devia lealdade ao grupo parlamentar. Falta de interesse e de empenho que foi por demais evidente ao nível do trabalho político que não desenvolveu nas Comissões que acompanhava".

André Silva explicou as demissões recentes como consequência direta do crescimento eleitoral do partido (que passou de um para quatro deputados nas últimas legislativas): "Na política, o ganhar escala traz dores de crescimento e mostra, por vezes, o melhor e o pior de algumas pessoas. E infelizmente o PAN, como outros partidos ao longo da história da democracia portuguesa, não esteve imune a estes fenómenos."

Insistiu ainda numa outra linha de ataque a Cristina Rodrigues e a Francisco Guerreiro: "Não deixa de ser curioso que [...] não abandonaram os seus cargos políticos remunerados, nenhum abdicou, continuando a prosseguir deste modo os seus interesses próprios e a sua agenda pessoal".

Dito de outra forma: "As pessoas que agora saíram do partido fazem-no a arrepio do debate interno, fazem-no não obstante ocuparem cargos e lugares onde podiam, querendo, combater o que diziam estar errado. E fizeram-no, não sejamos ingénuos, porque estão mais preocupados consigo e com os seus interesses pessoais do que com as causas que nos motivam. Fizeram-no porque não estão comprometidos com o partido."

A caixa de comentários da página de Cristina Rodrigues no Facebook encheu-se de comentários a favor e contra a sua demissão.

Muitos desses comentadores criticaram-lhe a decisão de não fazer acompanhar a demissão do partido de uma renuncia ao mandato de deputada (eleita por Setúbal, no caso). Mas outros, vários, partilharam com a deputada um diagnóstico muito crítico face a um alegado desvio autoritário e centralista da direção do partido.

Já os dirigentes do PAN na Madeira explicaram as respetivas demissões "em virtude de um excesso de autoridade crescente imposto por um núcleo duro na direção do partido, fechado sobre si próprio, que aos poucos vai assumindo o controlo total do PAN" e que "toma as decisões de forma unilateral, e não é minimamente tolerante com quem apresenta ideias diferentes ou que põe em causa o atual estado das coisas".

O que resta agora saber é se a direção do partido de André Silva consegue estancar a hemorragia ou não. Os próximos dias o dirão.

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