As palavras encantatórias

Não é uma exceção que os discursos que respondem às datas festivas, como se pratica com o dia de Ano Novo, todos correspondam à autenticidade. Nenhuma palavra nesse domínio impede que a realidade de Hong Kong corresponda a um fim de ano, e ao começo do novo ano, evitando que a realidade que implica a intervenção de Xi Jinping se traduza num desafiante fim do ano.

O movimento grevista em França é mais claro, longo e, sobretudo, marcado pela falta de liderança conhecida dos Gilets Jaunes [coletes amarelos], do que declarações festivas e esperançosas de fim de ano.

O presidente dos EUA marca a mudança do ano com o que parece chamar um castigo ao Irão, o estilo de imprudência que abre caminho à violação da paz.

Na América Latina os desastres tendem para tornar as alegrias fictícias ou impossíveis, enquanto a Europa recebe milhares de refugiados vindos de países afastados sem papéis de identificação, e o presidente Erdogan anuncia um projeto de lei que lhe permita o envio de tropas para Tripoli.

Este desencontro entre as palavras que são corolários da memória dos festejos históricos, mas não correspondem à realidade que esquece a história, leva a recordar as "palavras encantatórias" que não alteram o passado histórico, nem definem um futuro fictício, mas com simplicidade procuram assumir o movimento real e apelam com pureza às responsabilidades. É talvez uma das notáveis intervenções de Churchill, já tendo perdido a posse de primeiro-ministro, sem ter conseguido ser quem assinava a paz a que conduzira. Foi discursando em Fulton, no Westminster College, em Dissaur, no dia 5 de março de 1996, que proferiu um discurso que intitulara "O sustentamento da paz", mas que ficou conhecido como "O discurso da Cortina de Ferro", expressão que foi também usada por outros. Declarou que "os Estados Unidos ocupam neste momento o pináculo do poder mundial". Mas finalmente acrescentou: "Uma cortina de ferro se abateu sobre o continente. Atrás dessa linha situam-se todas as capitais dos antigos Estados da Europa Central e de Leste: Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia, todas essas cidades famosas e as populações em seu redor jazem naquilo a que devo chamar a esfera soviética, em todas elas estão sujeitas de uma forma ou de outra, não apenas a influência soviética, mas a uma muito intensa, e em numerosos casos, crescente medida de controlo por Moscovo...

Os partidos comunistas, que eram muito pequenos em todos esses Estados orientais da Europa, foram elevados a uma proeminência e a um poder que em muito ultrapassou os seus números, e em todo o lado procuram obter o controlo totalitário... E insistia, portanto, em que Estados Unidos e Grã-Bretanha necessitavam, pelo contrário, de se unirem em "fraternal associação" para defender a liberdade "não apenas por isso, mas para todos, não apenas para o novo século, mas para os séculos vindouros". As críticas não impediam que esta voz credível, e julgo que chorosa, levasse ao nascimento de duas meias Europas, duas meias Alemanhas, duas cidades de Berlim, até à queda do Muro, quando as democracias cristãs da França, da Itália e da meia Alemanha tinham iniciado o processo global da União Europeia. Algumas palavras finais de Eisenhower, antigo comandante da libertação da Europa, presidente dos EUA, disseram algures, em fim de mandato, que não conseguira orientar o complexo militar-industrial.

São muitas as palavras encantatórias, quer vindas das instituições civis quer com experiência prévia de governo que guarda o carácter encantatório das vozes que respeitam a autenticidade e evitam que o tédio faça crescer a dimensão da ausência das votações. Os tempos lembram o aviso de Bismark no sentido de que uma simples leviandade implica facilmente um desastre: as duas guerras mundiais comprovaram a importância do aviso.

O Conselho de Segurança, se não tomar sentido das intervenções atentas do secretário-geral da ONU, não cumpre a responsabilidade que possui, continuando a não analisar e julgar as imprudências ou leviandades que se multiplicam.

Numa entrevista, o Papa Francisco, ainda bispo de Buenos Aires, contou que uma mãe o procurou com uma criança ao colo, pedia ajuda porque o filho estava a morrer de fome. Ele respondeu-lhe que era sábado, mas que na segunda-feira lhe daria ajuda. Aquela mãe respondeu-lhe que o filho estava a morrer de fome no sábado, não na segunda-feira. Ele, bispo, resolveu imediatamente o problema, assumindo que em nenhum sábado se pode ficar "à espera de segunda-feira".

A ameaça à paz começa pelas leviandades do presidente americano, exige as palavras exigentes, com autenticidade, de sábado, sem esperar por uma segunda-feira. Não se trata apenas de uma possível guerra geral, mas das intervenções terroristas em qualquer país onde estejam interesses americanos. As palavras de mobilização exigem autenticidade de sábado, não de segunda-feira. Foi o que lembrou o Papa Francisco na atual intervenção.

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