A Ásia Central afirma-se no tabuleiro geopolítico

Nada é mais enganador do que ver a Ásia Central como um grande vazio, apesar da vastidão da estepe e da fraca densidade populacional. Ao longo da história, partiram dali invasões capazes de abalar o mundo, a mais famosa delas a mongol, na realidade uma coligação de tribos mongóis e túrquicas sob a liderança de Gengis Khan. Mas não é sequer preciso remontar ao século XIII para se perceber a importância geopolítica da região, pois no século XIX russos e britânicos disputavam aí esferas de influência (o Grande Jogo) e ainda em 2001, quando o apoio à Al-Qaeda fez cair o regime talibã (hoje de volta) foi evidente como as potências se aproveitaram do pretexto do Afeganistão para ganhar posição no país e vizinhos. Os EUA, que instalaram um governo amigo em Cabul, chegaram até a ter bases no Tajiquistão e no Uzbequistão, duas ex-repúblicas soviéticas.

A invasão russa da Ucrânia em fevereiro deste ano veio dar novo protagonismo aos países da Ásia Central, que apesar das abstenções nas Nações Unidas na hora de condenar Moscovo, claramente estão pouco interessados em ficar demasiado na órbita de uma potência hostilizada pelo Ocidente e ainda por cima desrespeitadora das fronteiras herdadas da antiga União Soviética. Dois países destacam-se pelo seu relevo geopolítico: o Cazaquistão, por ser o maior em território e o que partilha uma extensa fronteira com a Rússia, e o Uzbequistão, o mais populoso e o único que tem fronteiras com os outros quatro parceiros regionais (além do Cazaquistão, o Turcomenistão, o Quirguistão e o Tajiquistão).

Dois sucessores de antigos homens fortes lideram hoje o Cazaquistão e o Uzbequistão. No primeiro caso, trata-se de Kassym-Jomart Tokayev, que há dias se relegitimou ao vencer as presidenciais com vasta maioria, transformando a reação aos motins de janeiro (de início sociais, depois políticos, depois criminais) num triunfo pessoal, ao marcar distância de Nursultan Nazarbayev, o pai da independência cazaque. No segundo caso, o nome a seguir é Chavkat Mirzioiev, que em 2016 sucedeu a Islam Karimov e tem vindo a liberalizar o regime.
Mirzioiev, que acaba de visitar Paris, expressou-se, sem mencionar a Ucrânia, a favor da resolução dos conflitos entre países pela via do diálogo e no respeito do direito internacional.

Também Tokayev, que na próxima semana irá igualmente a Paris, falou agora da necessidade de negociar para se chegar à paz, mas referindo russos e ucranianos sem hesitação, durante uma cimeira em Ierevan de um conjunto de países em teoria na esfera russa. Além disso, tem defendido sempre a inviolabilidade das fronteiras acordadas aquando da desagregação da União Soviética em 1991. Com três milhões de cidadãos de origem russa e 300 mil de origem ucraniana, o multiétnico Cazaquistão pretende manter a estratégia tradicional de ter boas relações com vários polos de poder, não hostilizando Moscovo, mas procurando boas relações com a vizinha China, a América e a Europa (veja-se as recentes visitas a Astana de Charles Michel e de Josep Borrell, duas altas figuras da UE, estando Ursula von der Leyen na calha depois de Tokayev a ter convidado durante uma ida a Bruxelas em setembro).

A atual fragilidade russa, cujas tropas recuam na Ucrânia e vê a economia sofrer com as sanções, abre uma oportunidade para os países da Ásia Central, sobretudo os maiores, com certos trunfos, reforçarem alianças várias. O interessante é perceber que neste novo Grande Jogo, além de participar obviamente uma China (primeira visita pós-pandemia de Xi Jinping foi a Astana) que é parte da Ásia Central por via do Xinjiang (povoado tradicionalmente por povos túrquicos como os uigures), entra também um país como a França. No caso, em falando de interesses estratégicos, pense-se na Ásia Central não como grande exportador de petróleo (que o é) mas como produtor de urânio (Cazaquistão número um mundial, Uzbequistão número cinco), o que interessa e muito a uma França que apostou ainda no tempo de Charles de Gaulle em ser uma potência nuclear, tanto militar como civil. Emmanuel Macron inspira-se seriamente no seu antecessor na presidência na procura da grandeza de França.

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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