"Se Rio mantiver o trilho, duvido que o PSD ganhe as eleições"

Em entrevista ao DN e TSF, o presidente da Câmara de Cascais diz que o caminho traçado pelo atual líder do PSD é errado. Fala da geringonça, a que chama caranguejola, e do futuro com dois blocos, um à esquerda e outro à direita.

Há três anos António Costa assumia a liderança do país, até de forma inesperada. Ou não?
Enfim, é fácil dar o prognóstico depois do fim do jogo, mas eu acreditei que era uma possibilidade ainda antes de as próprias eleições se terem realizado. Na altura ninguém acreditava que era possível à coligação PSD-CDS vencer as eleições e venceu, mas tinha para mim que já seria difícil haver uma maioria absoluta. A questão mais complicada na análise que fazia, e que continuo a fazer, é a alteração muito substantiva que se promoveu para o futuro. Cada vez vamos funcionar mais com dois blocos, e esses dois blocos anulam muito, por exemplo, o voto útil, porque será o somatório do número de deputados alcançado por cada um dos blocos que vai dar a liderança em termos futuros. Da situação presente, até hoje também não tive grandes dúvidas, porque se tratava de uma questão de sobrevivência. Do secretário-geral do PS. Da parte do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda, também: eles precisavam de partilhar algumas fatias desse poder.

De qualquer forma, tinha a expectativa dos resultados que esta solução política, a chamada geringonça, alcançaria?
Passou a valer tudo.

Esse "vale tudo" teve reflexos na governação?
Teve. Agora há o leilão na política. O PC, para justificar ao seu eleitorado estar a aceitar apoiar políticas de que até há bem pouco tempo dizia discordar por completo - agora parece que são todos neoliberais -, precisa de leiloar algumas conquistas. Já largou a velha dialética das conquistas de Abril, mas tem a dialética das reversões. Também replicada pelo Bloco de Esquerda, que não quer ficar para trás.

O que é que isso quer dizer do ponto de vista da oposição?
A questão da oposição é a seguinte: está a tentar-se fazer política, e também fazer oposição em pressupostos que já não são os atuais. Isso passa pela forma como se comunica, como se exerce o poder, seja ele qual for. Precisamos aqui de alguma atualização e de algum rejuvenescimento.

Está a dizer que não devia haver só uma nova liderança, mas sobretudo uma liderança jovem?
Costumo dizer que sou jovem, só que sou jovem há mais tempo, embora não tenha nenhuma pretensão de liderança. Não tenho dúvidas nenhumas de que o governo atual desenvolve-se numa lógia antiga, e a oposição segue os mesmos passos. Portanto, cada vez chega a menos cidadãos, cada vez envolve, motiva e inspira menos e isso já coloca inclusivamente outras questões, como a própria qualidade da democracia que neste momento temos.

António Costa já deixou passar a ideia de que o PCP e o Bloco dificilmente poderão ir para o governo. Acha que esta posição do PS tem algo que ver com a eventual maior disponibilidade do PSD para viabilizar um governo com o PS?
Penso que isso é uma falsa questão. O PSD, os sinais que deu foram todos nesse sentido, mas de facto... E especialmente no dia de hoje, que é 25 de novembro, uma data com um peso muito importante em Portugal... nós precisamos de fazer um manifesto 25/11. Há conjunto de setores da sociedade portuguesa, democratas-cristãos, sociais-democratas, liberais, socialistas democráticos, que estão em contraponto com uma presença muito forte dos marxistas, dos leninistas, dos estalinistas, dos trotskistas. O PS, neste momento, situa-se a meio. Não conseguimos identificar uma grande diferença entre as suas afirmações políticas, a sua prática política e a prática política desses partidos. Nesse sentido, acho que cada vez mais existem estes dois blocos. Tem pouco que ver com esquerda e direita, diria que tem mais que ver com moderados reformistas e depois alguns laivos de uns radicais revolucionários que põem em causa os valores e os princípios da comunidade e, alguns deles, da própria democracia.

Acha então que Rui Rio e este PSD deviam fazer uma oposição mais à direita, mais reformista, mais à 25 de Novembro?
O PSD tem de fazer uma oposição na base dos seus princípios, que são princípios sociais-democratas. É essa ambiguidade que não ajuda a afirmação do PSD neste momento.

Acha que esse foi o maior erro do PSD com esta nova liderança de Rui Rio?
Um dos maiores erros foi querer, de uma forma tática, ou, se quisermos, de uma forma mais oportunista, tentar descolar daquilo que era o legado do PSD enquanto partido que teve de ficar com o país nas mãos, juntamente com o CDS, numa situação muito, muito, muito difícil. Essa herança é um património que o PSD tem. Este foi, a meu ver, o erro fundacional da afirmação da nova liderança.

Rui Rio foi mais oposição ao próprio PSD que o antecedia do que à solução de governo que estava?
Isso é o que se passa logo a seguir. Longe de mim querer criar algum ambiente que a liderança possa entender que não seja de ajuda para terem o melhor resultado possível. Aprende-se nos livros que quase todos os jovens políticos leem, desde Maquiavel até outro tipo de literaturas, que quando se chega a uma liderança tem de se ser unânime, no sentido de se ser motivador, inspirador, agregador. Ora, isso não se faz mantendo uma guerra dentro do próprio exército porque arrisca-se a que quando se olha para trás já não ter exército nenhum. Esse é um caminho que vejo que tem sido seguido, a meu ver, mal, pela liderança atual.

Rui Rio tem vindo dizer que o PSD pode arriscar-se a ter o pior resultado da sua história e que isso terá que ver com um certo boicote de dentro do partido...
Não. Quer dizer, em relação ao boicote de uma forma organizada claramente que não tem razão. Essa ideia de que o partido pode ter o pior resultado, histórico, isso não bate certo com outras afirmações de que "nós sabemos que ainda não estamos bem, mas eu vou fazer tudo e garanto que vamos chegar em condições de disputar a liderança". Depois é a velha questão: "A culpa não é minha, não é da minha liderança, é de uma oposição organizada interna." Sinceramente, não tenho assistido a ela. Claro que não sou inocente ao ponto de não perceber que há outros militantes que têm a expectativa de um dia poderem vir a disputar a liderança. Nenhum deles me diz que quer fazer tudo para dificultar a vida ao atual líder.

Admite o CDS ficar à frente do PSD?
Não, isso aí tem que ver com a questão dos blocos. Rui Rio tem margem bastante alargada. O PSD, no limite, tem de garantir que é líder dentro do bloco em que se insere. Não é bom, mas acho que não corre esse risco. Agora, já é diferente ter estabelecido uma relação próxima, e tê-la comunicado, mais com o Partido Socialista do que com o nosso aliado natural que é o CDS. E não ter reagido bem a um fenómeno novo que ainda ninguém sabe o que vai valer, que é a criação de novos partidos, o Aliança de Pedro Santana Lopes.

Já conseguiu saber qual é o projeto alternativo que Rui Rio tem para o país, e acredita nesse projeto?
Penso que já consegui identificar, não me identifico é com aquilo. Muito do que passará pela mente do atual líder é parecido com isto: o país precisa de um conjunto de reformas, essas reformas têm de ser feitas pelo PSD e pelo PS. O que está aqui errado é o diagnóstico. Não é por aí. O país precisa de reformas? Sim. Mas o PS não estará nunca em condições de poder fazer essas reformas porque não pode abandonar este apoio que tem à esquerda. Isso pela lógica natural de o líder do PS poder aspirar a ser candidato a Presidente da República contando com aquele bloco da esquerda. Não vai pôr isso em causa em termos do médio prazo e muito menos em termos do longo prazo. Estas são especulações da minha parte.

Mas isso é um projeto político alternativo para o país?
Não, no meu entender, temos de ir muito mais além disso. Nunca o Estado esteve tão presente na vida das pessoas, na vida das empresas. Temos os grandes sucessos da governação da geringonça - que é um termo que eu nunca gostei de utilizar, acho que é mais uma caranguejola - e quando chegam notícias da forma como está o Serviço Nacional de Saúde, a escola pública, vemos que nunca estivemos tão mal como estamos hoje. Há que pontuar e isso passa muito pela tal necessidade de um 25 de Novembro.

Mas a verdade é que a acreditar nas várias sondagens que têm sido publicadas, o PS arrisca-se a ter a maioria absoluta?
É algo em que eu sinceramente não acredito. O que é que leva a garantir esses resultados do ponto de vista de sondagens? Leva a tentar satisfazer tudo a todos. Isso não é possível, muito especialmente quando entramos em leilões políticos. Agora o Bloco grita mais grosso que quer isto, depois vem o PC... Eu diria que isto dá uma grande tourada.

Ainda acha que é possível que o PSD vença as eleições com esta liderança?
Eu não seria verdadeiro se não dissesse que tenho grandes dúvidas. Então se a atual liderança mantiver exatamente o mesmo trilho, acho que isso não é difícil, é mesmo impossível. Desejo que o bloco em que o PSD se insere tenha capacidade para se afirmar junto do eleitorado para ter mais deputados do que o outro bloco, e que o PSD seja liderante dentro desse bloco.

Inclui o Aliança nessa caranguejola à direita?
Espero que não seja uma caranguejola. A grande dúvida é quanto poderá valer esta iniciativa de Pedro Santana Lopes. Mas certamente irão surgir novas oportunidades, novas ofertas de escolha dentro deste bloco - que não estou a considerar como direita e esquerda - moderado/reformista, em contraponto ao bloco mais radical. Não sabemos quanto é que vale, mas pode também servir de válvula de escape em eleições que o eleitorado identifica mal... por culpa e responsabilidade dos políticos, que são as eleições europeias.

Imaginando que nas europeias o PSD não consegue descolar, os adversários de Rui Rio não têm a obrigação de tentar um congresso extraordinário?
Mas estamos a falar de maio para outubro, portanto, o tempo é muito curto. Só se houvesse consciencialização do líder de que tinha errado e especialmente naquilo que tinha definido como a sua estratégia de afirmação. De resto, não acredito que alguém consiga, nem é recomendável pôr em causa de maio até outubro. Aí havia o risco de os portugueses se fartarem do PSD e dizerem: "Nós não estamos para aturar esta confusão permanente a nível do partido."

Então a linha vermelha são mesmo os resultados das eleições legislativas.
Mas isso é o que também nos diz a história. Não vale a pena termos ilusões sobre essa matéria.

E o que é um mau resultado?
Um mau resultado é perder. Um mau resultado é que o tal bloco das forças moderadas e reformistas não consiga ter mais deputados do que o bloco marxista, leninista, trotskista, estalinista. Agora, também era bom para a democracia portuguesa que cada bloco dissesse ao que vai. O PS dizer que quer fazer uma coligação tendo ou não maioria absoluta, e o PSD dizer ao que vai, se quer fazer uma coligação do tal bloco social-democrata, democrata-cristão, liberal, com os socialistas democráticos ou se quer fazer o bloco central. Se o PS tivesse afirmado que iria fazer uma coligação com o PC e com o BE, a aliança do PSD e do CDS muito provavelmente teria maioria absoluta.

É daqueles que gostavam de ver de novo Pedro Passos Coelho como líder do PSD?
Fico muito dividido. Vou explicar porquê: Pedro Passos Coelho tem hoje o reconhecimento da grande maioria do partido, no dia em que quisesse seria líder do PSD. Enquanto militante do PSD, eu desejaria uma coisa dessas. Como português não desejaria Pedro Passos Coelho como líder do PSD porque isso quer dizer que o país tinha chegado outra vez a uma situação muito complicada. No dia em que vier a próxima crise, e há muitos que já não têm dúvidas de que ela virá, vai apanhar-nos em situações muito piores do que aquelas em que estávamos quando veio a crise anterior. Agora, Pedro Passos Coelho é um homem novo e vive a política desde sempre, está-lhe nas veias.

O PSD acabou de passar por mais uma crise mediática com a questão de José Silvano... Que efeitos é que isto pode ter, ainda por cima num partido cujo líder prometia um banho de ética?
Em primeiro lugar sinto-me triste. O PSD faz parte do meu património pessoal, ao qual já aloquei muitas das minhas energias. Neste caso não tenho grandes dúvidas de que, quer numa situação quer noutra, teve origem interna e não vejo isso de uma forma positiva. Outra coisa diferente é a hipocrisia nacional. O escrutínio que se faz sobre os deputados nada tem que ver com o escrutínio que se faz, por exemplo, sobre um presidente de câmara. Do ponto de vista da transparência, da defesa da ética e dos valores, há uma distância muitíssimo grande.


Em setembro, o senhor disse numa entrevista que ainda não tinha trocado uma palavra com Rui Rio. E agora, tem falado com ele?
Não. Mas, certamente, porque o Dr. Rui Rio não entendeu que eu fosse alguma mais-valia que podia acrescentar.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG