Entretanto, nos antípodas 

Tenham sido os navegadores portugueses do século XVI os primeiros europeus a avistar a Nova Zelândia ou o holandês Abel Tasman, o descobridor oficial no século XVII, a verdade é que só a partir de 1800 se iniciou a colonização, com a Inglaterra, valendo-se da visita de James Cook uns anos antes, a impor a sua soberania tanto aos visitantes ocasionais, de várias nacionalidades, como ao povo autóctone das ilhas, os maoris.

Houve um tratado com os chefes locais a tentar regular a chegada dos europeus, mas a cobiça pelas terras levou a uma revolta dos maoris e a guerra aberta. Vencedores, os britânicos transformaram aquelas terras distantes num grande fornecedor de carne à metrópole e o desenvolvimento da sociedade neozelandesa foi tal que, ainda como parte do império da rainha Vitória, ali pela primeira vez na história mundial as mulheres tiveram direito de voto.

Estávamos em 1893, e na preocupação das autoridades estava, além do voto feminino, também a representação dos maoris, com o debate político a arrastar-se durante décadas sobre se seria melhor integrarem o eleitorado em geral ou terem antes assentos de deputados reservados como minoria étnica.

Saltemos para 2021, e se a notoriedade global da primeira-ministra Jacinda Ardern comprova que na questão do estatuto das mulheres a Nova Zelândia está entre os melhores do mundo, já na questão maori todas as vitórias são ainda no sentido de afirmar a sua importância no país. Por isso a recente celebração de uma maori como ministra dos Negócios Estrangeiros, Nanaia Mahuta, e agora a ainda maior celebração de uma maori, Cindy Kiro, como governadora-geral, uma espécie de chefe de Estado, tendo em conta que formalmente essa pertence a Isabel II de Inglaterra. Dois homens maori já tinham, porém, exercido o cargo.

Mais ou menos um sexto da população, cinco milhões de pessoas, onde os descendentes de europeus constituem dois terços e os imigrantes asiáticos o outro sexto, os maoris contribuem para a identidade neozelandesa de uma forma crescente, como é prova disso a dança Hakka da seleção de râguebi, a mais forte do mundo. Mas está longe de terminado o complexo processo de construção nacional: um referendo há cinco anos manteve a bandeira que inclui a Union Jack britânica, mas a discussão sobre o legado colonial ficou apenas congelada uns anos, e a própria questão da república, embora menos presente que na vizinha Austrália, está longe de decidida, pois figuras como a atual primeira-ministra assumem-se a favor de um debate nacional sobre a ligação à família real britânica.

Continuaremos, pois, a ter novidades interessantes do país que fica nos antípodas de Portugal (apesar de já termos andado por lá próximo a navegar) e que não se coíbe de vez em quando de dar lições ao mundo.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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