O modo de vida europeu

A nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, além das dificuldades que enfrenta para completar o seu executivo, também é obrigada a rever a semântica, um domínio em que facilmente acontece que o sentido fica de entendimento mais difícil, mas aceitando "mudar o nome de três pelouros", nuns casos alegando que para esclarecer com rigor o conteúdo, mas noutros por "resignação", que de regra significa divergência quanto aos objetivos.

Está neste plano a mudança do nome na parte chamada na proposta original Proteção do Modo de Vida Europeu para Promoção do Modo de Vida Europeu. Parece claro que a mudança tem relação com a controvérsia sobre as "migrações", que não é amenizada com simples mudança de palavras. Talvez tenha de prestar atenção ao facto de que a integração das duas meias Europas, depois da queda do muro, não impediu a conclusão de Georges Mink de que "as elites populistas veem a União Europeia como um novo Moscovo", que suponho ter origem no facto de que a meia Europa Ocidental já tinha, nessa data, perto de meio século de experiência democrática, e a meia Europa submetida ao sovietismo tinha o mesmo tempo de luta e esperança de recuperar a soberania perdida.

Mas nesta data o que parece mais presente é o confronto em que se distingue Renaud Camus, a partir do livro que chamou Abécédaire de L'In-nocence (2010), contra o que chamou o grand remplacement, que lembra o drama de Dreyfus no século XIX, quando os judeus eram os considerados indesejáveis e agora se tem em vista as migrações muçulmanas. Não é suficiente que a história abone a conclusão dos cientistas de que as identidades nacionais são o resultado do que foi chamado um pluralismo de fusões étnicas que recusa o mito das raças puras, porque o tema atual diz respeito à receção das migrações que, acolhidas, exigem um processo de integração orientado pela igualdade e paz social.

A posição política assumida contra o perigo do grand remplacement é sobretudo apoiada na indignação contra a prática terrorista, que invoca uma legitimidade coberta por deturpados valores religiosos e que tem um ativo que coloca a integridade das sociedades civis enfrentando a difícil harmonização da solidariedade humana com a segurança, quando o avanço e o acesso aos progressos da técnica disponível permite a vitória do fraco contra o forte. A história das migrações, que se fundiram nas nacionalidades atuais, também inclui a violência finalmente ultrapassada pela fusão.

Na época em que vivemos, a inquietação ocidental, que inclui a crescente ameaça de se tornarem inabitáveis regiões às quais os emigrantes não poderão regressar, torna mais urgente - para evitar o crescimento da cólera que anima movimentos contra a grande agressão temida à identidade de cada nação -que se detenha o enfraquecimento da ONU, que se reforcem os meios exigidos pela responsabilidade entregue à UNESCO e, sobretudo, que a "segurança" seja anunciada como um problema de governança do globalismo e não ferida de populismos "eucratas", que se recusam a aceitar que nenhum Estado isolado tem mostrado capacidade para enfrentar a pluralidade de desafios graves a que o passado uso de mal avaliados saberes, projetos e ambições conduziu a humanidade.

Parece ajustada a afirmação de que "o racismo mais profundo é o que ignora a mestiçagem, é a ideia de pureza de raça", mas a afirmação exige assumir, como dever global, garantir que o processo abra caminho sem que seja marcado de conflitos e catástrofes. Como talvez dissesse o Papa Francisco, "é uma exigência de sábado, não pode esperar por segunda-feira".

Não faltam infratores do saber diplomático que contribuem para o desastre com leviandades de domingo. Para as impedir e não facilitar com o "Tédio" que leva os eleitorados à abstenção - por não manterem a confiança nos governos, na multiplicação dos partidos que pelos programas aprofundariam as linhas vermelhas das fraturas sociais internas e internacionais -, cresce a importância dos projetos de uma Ética Global, em que se distinguem a Fundação do Padre Kung e a Declaração Universal dos Deveres Humanos, proposta do InterAction Council em 1 de setembro de 1997, sem êxito junto das instâncias do poder e regulação nacional e internacional. E todavia os pressupostos da ONU, na data da fundação, depois da paz da guerra de 1939-1945, tinham duas referências suficientes: "mundo único", isto é, sem guerras, e o globo "pátria do género humano". O poder dessa palavra ainda não conseguiu orientar a palavra dos poderes políticos que se defrontam.

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