Premium Andreia Salvador estuda conchas marinhas, mas anda nas nuvens

Andreia Salvador cuida de quatro milhões de conchas no Museu de História Natural, em Londres, onde, há 15 anos, bateu à porta para trabalhar. Acaba de ser promovida a curadora sénior. É a primeira portuguesa.

Em janeiro celebra-se uma data redonda na vida profissional de Andreia Salvador. Faz 15 anos que bateu à porta do Museu de História Natural, em Londres, dizendo que era ali que queria trabalhar. Ofereceu-se como voluntária, cinco dias por semana, Um ano depois tornava-se curadora júnior. E, desde quarta-feira, é curadora sénior - senior curator, em inglês -, a primeira portuguesa desde que a memória alcança nesta função.

Depois de uma passagem pelos mamíferos, chegou ao departamento que realmente queria - o dos invertebrados. E, dentro destes, os moluscos.

Andreia Salvador, 41 anos, cresceu no Barreiro e é bióloga de formação, saída dos bancos da Universidade de Évora e com uma passagem pelo Centro Português de Atividades Subaquáticas. Tem 4 milhões de conchas ao seu cuidado, incluindo as coleções históricas. Aquelas que têm mais de cem anos. Aquelas que Charles Darwin recolheu para Charles Lyell.

Três meses de avaliação

Na hierarquia do museu, explica Andreia Salvador, o cargo de curadora sénior ​​​​​​"tem que ver com a experiência, com o mérito, com o que se faz". Com aquele momento em que um superior hierárquico nota que a pessoa está a fazer trabalho um nível acima e diz I'll put you for promotion (recomendá-la para promoção).

O que se seguiu foi uma cascata de recomendações ao longo da hierarquia do museu acompanhada de um dossiê. "Um dossiê com todos os projetos que fiz até agora e os objetivos que quero atingir", conta Andreia Salvador. O processo durou cerca de três meses e no final há uma entrevista e uma pergunta: "O que queres fazer com a coleção?" As respostas de Andreia satisfizeram o júri. "Ainda estou a sorrir muito", diz, a dada altura, ao telefone com o DN. "Ainda estou nas nuvens", diz, em outro momento.

"É um choque, um orgulho, a nível profissional é absolutamente incrível, toda a gente a dizer que quer que continue." Tanto mais importante para quem, como Andreia, não nasceu em Inglaterra, começou como voluntária e foi curadora de mamíferos antes de começar na área da sua especialização, malacologia. Isto é, aquele ramo da biologia que estuda os moluscos.

Uma coleção de 9 milhões

A coleção de malacologia tem 9 milhões de exemplares e Andreia chegou a ser responsável por todas. Agora são três curadores e ela cuida de 4 milhões de gastrópodes (a família dos búzios) e das coleções históricas, as tais que estão há mais de um século no museu.

A curadora sénior diz que o melhor é a história em torno das conchas. O que as pessoas fizeram para as trazer para o museu. Que foram transportadas no Beagle de Charles Darwin. Que vieram de expedições científicas tão importantes como a Endeavour, que levou James Cook à Austrália entre 1768 e 1771, ou da Challenger, que entre 1872 e 1876 se dedicou a explorar o fundo do mar, "com laboratório e investigadores".

Entre os tesouros da coleção, e na galeria que lhes é especialmente dedicada, está o Nautilus que um dia pertenceu à coleção de objetos de Hans Sloane (1660-1753), o médico e colecionador, culpado do nascimento do Museu Britânico. "Quando morreu, a coleção dele deu origem ao Museu Britânico", explica Andreia.

No final do século XIX, foi pedido que o departamento de História Natural se tornasse independente do Museu Britânico, o que só viria a acontecer em 1963. Chamar-se Museu de História Natural é ainda mais recente. Só aconteceu em 1989.

O que Andreia quer fazer

Um dos trabalhos de Andreia Salvador é responder às muitas solicitações que lhe chegam de todas as partes do mundo, Portugal incluído. Assuntos como o aquecimento global trazem muitos investigadores a estas salas nos bastidores do Museu de História Natural - corredores longos, com armários a todo o comprimento, zonas que só se podem visitar sob marcação e com justificação. "Dá-me um grande prazer contar as histórias das coleções."

Como curadora sénior, o plano que apresentou é "conseguir um maior envolvimento com o museu". "Quero que a coleção seja a número 1 do mundo, temos milhares de conchas à espera de ser identificadas e incorporadas na coleção e construir uma sala para a mostrar, para workshops e visitas guiadas. Esse é o meu grande objetivo. Não é um sonho, porque acho que vou conseguir. E continuar a investigar e fazer catálogos e a mostrar ao mundo o que temos, explica, com um desejo: "Espero que venham mais portugueses para a curadoria."

A promoção chegou dois anos depois do referendo que apoiou a saída do Reino Unido da União Europeia, a 23 de junho de 2016. Na manhã dos resultados, foi uma tristeza enorme, porque o brexit sempre foi sobre imigrantes. Por outro lado, leu as declarações do então recém-eleito mayor de Londres, Sadiq Khan: "Somos todos londrinos e são bem-vindos." Sabe que quando o processo acontecer, terá de preencher um formulário explicando que tem um trabalho permanente e que já não será tão fácil no aeroporto, mas espera continuar a fazer a mesma coisa. "Se estas conchas sobreviveram ao blitz na Segunda Guerra Mundial, sobrevivem ao brexit."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.