Bolsonaro e Modi. Encontro de duas versões do populismo de direita

Presidente brasileiro inicia, neste sábado, viagem de três dias à Índia, para assinar 12 acordos comerciais com o gigante asiático, e encontrar um líder com quem tem muitas afinidades políticas e económicas.

Acordos nas áreas comerciais, tecnológicas e cientificas estão na agenda de Jair Bolsonaro, presidente do Brasil desde o ano passado, e Narendra Modi, no poder na Índia há cinco anos e meio, durante a visita do primeiro à casa do segundo, de sábado até segunda-feira. Mas são as similaridades entre os populistas de direita à frente de dois dos BRICS, o grupo de economias emergentes que inclui também Rússia, China e África do Sul, que mais chama a atenção dos observadores internacionais.

"Bolsonaro e Modi são populistas à direita e ambos enfatizam muito o carácter religioso da nacionalidade", afirma Vinícius Vieira, professor de relações internacionais da Faculdade Getúlio Vargas, em entrevista ao DN. "No caso do Modi o hinduísmo, no caso do Bolsonaro aquilo a que se pode chamar de nacionalismo cristão. O que é curioso é que o hinduísmo é uma religião daquela parte do mundo, situado hoje na Índia moderna, mas o cristianismo veio de fora, não é apenas brasileiro, ou seja, parece contraditório ser-se nacionalista e defender com ardor uma herança religiosa de fora como Bolsonaro", acrescenta o académico.

"Na economia, entretanto, nenhum dos dois é liberal de raiz mas ambos adotaram o liberalismo", lembra Vieira.

É, portanto, na política externa que se encontram mais diferenças entre as suas atuações: "Na política externa há diferenças substanciais. Modi, que tem boas relações com os Estados Unidos, com o Irão, com a Arábia Saudita, é pragmático. Tem uma agenda identitária do ponto de vista doméstico mas na política externa seguiu a tradição multilateral da Índia. Enquanto Bolsonaro vê nos organismos internacionais um globalismo, dito marxismo cultural, a ser combatido."

"Em suma, Bolsonaro tem muito a aprender com o Modi: pode ser um nacionalista, até fascista, como ambos muitas vezes são descritos, mas ser pragmático na política externa."

O presidente brasileiro será o convidado de honra das comemorações pelo dia da República na Índia, dia 26

Bolsonaro, de 64 anos, e Modi, de 69, podem assinar 12 acordos nas áreas do comércio e da tecnologia durante o encontro de três dias em Nova Deli e outras cidades, o terceiro entre os dois líderes, depois da Cúpula do G20, em junho de 2019 em Osaka, e da 11.ª Cúpula do BRICS em Brasília, em novembro do mesmo ano. Durante a visita, o presidente brasileiro será o convidado de honra das comemorações pelo dia da República na Índia, dia 26.

Entre os possíveis acordos entre os gigantes - o Brasil é o quinto maior e mais populoso país do globo e a Índia o sétimo maior e segundo mais populoso - estão questões relacionadas com a segurança cibernética, o fim da dupla tributação, a bioenergia, a ciência e a tecnologia, a cooperação na saúde e nas medicinas não tradicionais. Na área agrícola, negócios envolvendo milho e soja.

Mas, aparentando ser um mundo de oportunidades, a Índia, dado o seu modelo de crescimento pouco inclusivo e com mercado consumidor limitado, oferece desafios. O país ainda soma 600 milhões de miseráveis, 60% da população não tem acesso a saneamento básico e uma minoria pode comprar carne, o principal produto de exportação brasileira.

"Ao mesmo tempo em que desenvolve tecnologias de ponta e investe em lançamentos de satélites, a Índia é um país que tem muitas carências em questões sociais e até em inclusão financeira, com mais de 80% da população de fora do sistema bancário", lembra Karin Vazquez, professora associada da Jindal Global University, de Nova Deli, à Radio France Internationale.

Para Vinícius Vieira, por outro lado, na área das relações internacionais os dois BRICS estão hoje em posições diferentes - com a Índia a tomar a dianteira. "Se ambos se encontravam numa posição similar há cerca de 20 anos, a Índia adiantou-se em relação ao Brasil ao tornar-se uma potência nuclear, em 1998, no mesmo ano em que o Brasil assinou o tratado de não-proliferação nuclear. A Índia, claro, sempre teve de se preocupar com a sua segurança por ter como inimigo o Paquistão, já para não falar da China, claro, enquanto o Brasil sempre esteve deitado no seu berço esplêndido".

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