Leiria. A escola onde estudam os génios da dança e todos passam frio

A escola que é notícia por falta de condições tem entre os alunos os génios da dança mundial, como o campeão António Casalinho, ou a mais recente - Carolina Costa. É (também) por eles que a câmara pensa instalar ali uma Unidade de Alto Rendimento.

Quando nos anos 1980 as duas escolas da cidade de Leiria rebentavam pelas costuras, o Estado avançou com a construção de uma terceira, na periferia. "Era para ser provisória", por isso não houve grandes cuidados, como se percebe pela construção dos diversos blocos.

Celeste Frazão, diretora da Escola Secundária Afonso Lopes Vieira (ESALV), na Gândara dos Olivais, percorre com os repórteres do DN as salas que nos últimos dias tornaram a escola notícia em todo o país, à conta do frio que se faz sentir, obrigando os alunos a permanecer nas aulas de gorro, luvas e mantas. São cerca de mil alunos, do 7.º ao 12.º anos (divididos por 54 turmas), contando com vários cursos profissionais. A esses junta-se uma centena de professores, 30 funcionários.

É no bloco C1 que a situação se torna mais agreste, particularmente nas salas 54, 55, 56 ou 58, bem como nos laboratórios. É princípio da tarde, está um sol esplendoroso na rua, com a sorte de ter chovido de manhã e o frio ter dado alguma trégua. Mas lá dentro isso não se nota. Na aula de Físico-Química, uma turma do 7.º ano tenta concentrar-se como pode, enquanto o professor (de aquecedor elétrico junto à secretária) confirma o calvário dos últimos dias, que deixaram Leiria (e o país) a bater o dente. Ao lado, numa sala agora vazia, ficaram as mantas, penduradas num cabide atrás da porta. De pouco valem os cerca de quatro mil euros que a escola gasta, mensalmente, em gás e eletricidade. "Só ligamos de manhã um bocadinho, mas mesmo assim vai-se tudo, porque as salas não conseguem reter o calor", confirma Celeste Frazão.

Da elite da dança ao escalão A

É ali, nas salas degradadas, que um grupo de 69 alunos do ensino articulado da dança se destaca nos quadros de mérito e honra. São os alunos da Academia/Conservatório Internacional de Ballet e Dança Annarella Sanchez, como o campeão mundial António Casalinho, aluno do 10.º ano da Escola. Ou a campeã Carolina Costa, que aos 12 anos conquistou no último fim de semana os primeiros lugares no Ballet Beyond Borders, nos Estados Unidos da América.

Juntam-se a eles muitos outros talentos, a maioria proveniente de diversos países do mundo. "São miúdos com uma grande capacidade de concentração, com objetivos muito bem definidos", enfatiza Celeste Frazão, numa altura em que a escola está pronta a entrar num programa internacional, que permitirá ao jovem casalinho (natural de Leiria) ir um ano para fora, e através de uma aplicação estudar num regime e-learning.

Candidatura ao Alto Rendimento

O número elevado de talentos concentrados na ESALV é apenas um dos itens que motiva o município de Leiria a querer candidatar-se ao projeto das Unidades de Apoio ao Alto Rendimento na Escola. Mas a articulação feita pela escola com a Academia Annarella serve já de background para o que está na calha. "Leiria tem imensos miúdos talentosos na área do desporto e seria importante facilitar-lhes a carreira dual", disse ao DN Carlos Palheira, vereador da autarquia com o pelouro do desporto, e que está empenhado nesse projeto. "Estamos ainda numa fase de enquadramento, só depois poderemos avançar para uma candidatura", esclarece o autarca, que aponta diversos exemplos de jovens talentosos em modalidades como o andebol, as artes marciais, o trampolim ou o futebol. "A dança, nomeadamente o ballet, é um caso impressionante em Leiria, mas temos que ver ainda como é que pode enquadrar-se", acrescenta o vereador.

O projeto-piloto das UAARE - Unidades de Apoio ao Alto Rendimento Escolar foi criado em 2016 e é tutelado pelo IPDJ (Instituto Português do Desporto e Juventude) e pela Direção-Geral da Educação. Até à data funcionam 12 unidades em todo o país. O modelo foi inspirado no Gabinete de Apoio ao Alto Rendimento (GAAR) de Montemor-o-Velho. De resto, é coordenado por Victor Pardal, impulsionador e primeiro coordenador desse gabinete, que já reuniu em Leiria com o município e com a ESALV. "Só depois desta fase embrionária do enquadramento podemos pensar na candidatura", adverte Carlos Palheira.

No universo de mil alunos que frequentam a Secundária Afonso Lopes Vieira, estima-se que quase 35 por cento beneficia de apoio da ação social, a maioria pertencente ao escalão A (o máximo) porque provém de famílias carenciadas.

"Damos a alimentação gratuita aos alunos estrangeiros, por exemplo. E temos aqui situações muito complicadas. Já chegámos a pagar a luz a algumas famílias, angariamos fundos e bens para quem precisa", conta Celeste Frazão, que fala com orgulho do projeto social da escola, que incute na comunidade escolar o alerta para as situações de pobreza. "Todos os diretores de turma estão avisados para estarem alerta e detetarem eventuais situações de carência", acrescenta a diretora.

A escola fica situada na Gândara dos Olivais, um dos maiores dormitórios da cidade de Leiria. Ali perto fica também o maior bairro social, que recebeu nos anos 1970 o nome de Sá Carneiro. Nas urbanizações da periferia - com rendas mais baixas -, o tecido social é frágil. Não admira que muitos alunos procurem na escola algum conforto. Porém, como se vê, as condições físicas não oferecem grande alternativa. Ainda assim, a maioria dos alunos fala da escola com orgulho. Celeste Frazão não tem dúvidas do que diz. "Se perguntar aleatoriamente, os alunos dizem que adoram. Não deve haver um único que não goste da escola. E depois entristece-me imenso quando ouço comentários negativos, porque eu fiz doutoramento e a investigação incluiu todas as escolas do concelho de Leiria, desde o primeiro ciclo ao superior. Concluiu que as de periferia são as que se empenham mais em projetos." A horta pedagógica, o grupo de teatro, o grupo de voluntariado, o de primeiros socorros, os cursos profissionais, são todos exemplo disso.

Obras adiadas pela troika

Celeste Frazão é diretora da escola há cinco meses. Estava destacada na Escola Superior de Educação de Leiria há vários anos, quando aceitou o desafio de dirigir aquela que é uma espécie de parente pobre das escolas secundárias de Leiria. As outras duas - Rodrigues Lobo e Domingues Sequeira - foram alvo de grandes obras ao tempo da empresa Parque Escolar, no governo de José Sócrates. A Afonso Lopes Vieira (mais conhecida como escola da Gândara) também estava na calha, mas a chegada da troika e a consequente interrupção do plano de investimentos deixou-a de fora. Quando chegou, Celeste fez um levantamento da situação da escola e percebeu o estado em que estava: edifícios decrépitos, infiltrações, sanitários devolutos. Numa boa parte dos blocos, é escusado ligar o aquecimento, pois as salas não retêm o calor. A juntar a todo esse drama do edificado, há outro que a preocupa: "Olhe ali para cima. Está a ver?" São placas de amianto, o material comprovadamente perigoso para a saúde de quem com ele contacta.

Há dois anos, o Ministério da Educação avançou com pequenas obras, que incluíram a cantina e também a remoção da cobertura no exterior, que continha a maior parte do amianto. Mas ficou a faltar o resto. Celeste Frazão fez um diagnóstico de todas as necessidades quando chegou, não obstante o anterior diretor ter contado à tutela, por diversas vezes, o estado em que a escola se encontrava. "Pedi orçamentos de tudo o que era preciso. Comuniquei à DGEstE (Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares). A tutela está a par de tudo", sublinha a diretora daquela escola não agrupada, cuja formação em economia e o mestrado em contabilidade e administração de empresas, mais a especialização em finanças empresariais se tem revelado deveras importante para gerir uma escola com parcos recursos.

Em resposta ao DN, o Ministério da Educação mostra-se a par das necessidades da escola: "Face à necessidade de melhorar as condições de funcionamento da Escola Secundária Afonso Lopes Vieira, o Ministério da Educação definiu um plano de requalificação gradual e sustentável, de acordo com prioridades definidas pela avaliação efetuada pelos serviços. Assim, nos anos de 2016 e de 2017, foram executados trabalhos de remodelação da cozinha e de requalificação da cobertura e dos pavimentos do pavilhão gimnodesportivo, em duas diferentes empreitadas. Prevê-se que estas intervenções tenham sequência, dotando esta escola de todas as condições para desenvolver, com qualidade acrescida, o seu projeto educativo." Na mesma nota, o gabinete do ministro Teatro Brandão Rodrigues revela que "propôs a inclusão da modernização da Escola Secundária Afonso Lopes Vieira nos investimentos abrangidos pela reprogramação em curso, dos fundos do Portugal 2020 destinados a esse fim".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG