Competição a três

Ouça-se com atenção os discursos de Vladimir Putin, as palavras de Joe Biden ou as intervenções de Xi Jinping e não ficarão dúvidas de que o mundo entrou numa era de redefinição de influências, com a antiga superpotência derrotada a querer mostrar força, a superpotência vencedora da Guerra Fria a defender com unhas e dentes a supremacia atual e a futura superpotência a afirmar a sua nova relevância, mantendo ainda certas cautelas sob a capa da responsabilidade.

Em torno desta competição, que passa pelo conflito na Ucrânia e pela renovada tensão em Taiwan, mas também, de forma mais discreta, por sanções económicas, boicotes tecnológicos, guerras de tarifas, disputa de recursos energéticos e até competição entre moedas, o resto dos países procuram estar com o aliado tradicional ou, pelo menos, não se comprometer demasiado com ninguém, sendo o Japão e a Índia bons exemplos de uma e outra situação, como o são também a Europa Ocidental e o Brasil (é interessante ver como a política externa de Jair Bolsonaro e de Lula da Silva tem muito em comum, em nome dos tais interesses nacionais).

Antiga superpotência, atual superpotência, futura superpotência? É fácil olhar para a História recente, sobretudo pós-Segunda Guerra Mundial, e encontrar bases para esta classificação, mas a realidade pode ser muito mais complexa, sobretudo se a confrontação não for global e sim localizada, exigindo menos meios.

Vejamos como se hierarquizam entre si a Rússia de Putin, a América de Biden e a China de Xi:
Território: 1.º Rússia, 2.º China, 3.º EUA;
População: 1.º China, 2.º EUA, 3.º Rússia;
PIB: 1.º EUA, 2.º China, 3.º Rússia;
PIB per capita: 1.º EUA, 2.º Rússia, 3.º China;
Orçamento militar: 1.º EUA, 2.º China, 3.º Rússia;
Ogivas nucleares: 1.º Rússia, 2.º EUA, 3.º China;
Reservas de petróleo: 1.º Rússia, 2.º EUA, 3.º China;
Reservas de gás: 1.º Rússia, 2.º EUA, 3.º China;
Empresas na Forbes 500: 1.º China, 2.º EUA, 3.º Rússia;
Universidades no Top-100 do ranking de Xangai: 1.º EUA, 2.º China, 3.º Rússia;
Patentes científicas globais: 1.º China, 2.º EUA, 3.º Rússia.

E fiquemos por aqui, mostradas que estão algumas das forças e das fraquezas relativas dos três grandes.

Esta competição vem de trás. Barack Obama e Donald Trump tinham já identificado a China como principal rival, o que Biden confirmou. Putin, que sucedeu a Boris Ieltsin, passou as últimas duas décadas a tentar recuperar para a Rússia alguma da influência da extinta URSS e, agora, enfrenta a América. E Xi, que vai ser confirmado para um terceiro mandato de secretário-geral do PC Chinês e de presidente, preparou nos últimos anos a provável ultrapassagem do PIB chinês ao americano, com a pandemia a vir complicar o processo. Mas tudo foi acelerado e muito pela invasão da Ucrânia em fevereiro, pelo que se sabe quando começou o atual momento crítico, mas não se sabe quando, nem como, terminará.

Não é um jogo. E se o fosse não teria regras claras. Todos querem sair vencedores - vale quase tudo - e daí o perigo de uma escalada incontrolável, hoje mais provável entre russos e americanos.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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