Lucy Hawking: "O meu pai teria adorado ser uma personagem de J.K. Rowling"

A filha do físico Stephen Hawking ainda fica emocionada ao falar do pai, falecido em março. Em entrevista por ocasião da apresentação do livro póstumo Breves Respostas às Grandes Questões valoriza os avisos à humanidade.

A publicação do livro póstumo de Stephen Hawking, Breves Respostas às Grandes Questões, contém um posfácio da filha Lucy. Não foi a primeira vez que aconteceu uma parceria entre ambos, pois Lucy Hawking escreveu vários livros de divulgação científica para jovens com a colaboração do pai, um dos mais brilhantes físicos teóricos das últimas décadas.

Em 300 páginas inéditas, Stephen Hawking responde àquelas que considera serem as grandes questões da humanidade desde o início dos tempos e que se mantém até à atualidade. Começa com o questionamento da existência de Deus e termina com propostas que considera fundamentais para os habitantes da Terra não sucumbirem ao caos que ameaça o planeta. Não será por acaso que as últimas palavras do volume são: "É importante que não desistam. Soltem a imaginação. Deem forma ao futuro." Segundo a filha, este último capítulo é "uma declaração muito pessoal do pensamento" do seu pai: "Ele era essencialmente um otimista", mesmo que tivesse sofrido muito no início para sustentar a família devido à doença que o prendeu a maior parte da vida numa cadeira de rodas e o deixou sem poder falar.

Um otimismo em relação ao futuro, acrescenta, a pensar "nas novas gerações, na educação, na ciência e na tecnologia". Por isso, considera que este "é um fim perfeito para um livro que é principalmente a sua visão do universo e daquilo que o preocupava. Queria dar às pessoas a capacidade para entender o que a ciência possui para modelar as próximas gerações".

Escreveu alguns livros em parceria com o seu pai. Alguma vez discordaram?

Eu nunca podia discordar dele ao nível científico, mas houve uma situação que me dececionou muito. O facto de não me autorizar que colocasse um extraterrestre como personagem nos nossos livros. A explicação era simples, a de nunca se ter provado a sua existência. Eu sabia que ele tinha razão, mas fiquei muito desapontada porque as crianças gostam bastante desse tipo de personagens.

Em Breves Respostas, Stephen Hawking não descarta a existência de vida fora da Terra...

Provavelmente existirá, mas os nossos livros eram sobre temas que conhecíamos e o que se desconhecia estava proibido. A existência de vida extraterrestre ainda é um assunto de especulação.

Nada que ele não fizesse nas suas teorias!

É verdade, mas há uma grande diferença entre livros para crianças e o seu trabalho. Muitos diziam que era especulativo, mesmo que ele não concordasse com essa opinião e respondesse que tudo tinha que ver com matemática.

Num dos capítulos, ele refere que provavelmente um dia o homem tem de abandonar a Terra. Concorda com essa previsão?

O que interessa na sua visão sobre a hipótese de o ser humano viajar pelo sistema solar é que ainda é muito cedo. Ele começou a falar sobre esse assunto ao ver as viagens até à Estação Espacial Internacional, que é uma pequena viagem quando comparada com as pelo sistema solar. Creio que nessa altura ele achou que era necessário regressar às viagens espaciais e conhecer mais do nosso sistema. Isso pareceu um pouco excêntrico quando o disse, no entanto cada vez mais se aceita que a humanidade volte à Lua e vá até Marte, ou seja, deixou de ser especulação. O que fez ao prever a partida do homem da Terra foi uma afirmação visionária e a que os próximos passos na exploração espacial podem dar-lhe razão. Habitar outros planetas é muito difícil e será um desafio gigantesco estabelecer colónias no nosso sistema, mas é preciso reconhecer que o nosso planeta está sob ameaça devido às alterações climáticas, à ameaça de uma guerra nuclear, a objetos que vêm do espaço, portanto o seu ponto de vista é correto para garantir a sobrevivência a longo prazo da humanidade.

Numa das páginas fala da confrontação certa com a catástrofe ambiental nos próximos mil anos. Não confiava que a humanidade possa corrigir o mal que faz ao planeta?

Creio que muito do livro é sobre essa questão e coloca os piores cenários com a intenção de despertar a população para uma realidade que se observa todos os dias. Sugerir uma mudança do estilo de vida para todos é concertar uma resposta mundial às alterações climáticas. E ele coloca os objetivos numa fasquia muito alta para motivar as pessoas e avançar-se rapidamente em direção a essas mudanças de comportamento.

Aos 76 anos ainda teimava em responder às grandes questões da humanidade e ao mesmo tempo em encorajar a humanidade a comportar-se melhor. Porquê?

Era o trabalho de uma vida. Desde que o meu pai se tornou muito conhecido por ser um comentador muito popular da ciência que as pessoas lhe perguntavam constantemente sobre essas grandes questões. Obviamente, essa situação criou-lhe a necessidade de dar as respostas às grandes perguntas que as pessoas teimaram em fazer-lhe. Ele tinha um forte pensamento sobre a natureza da vida, as origens do universo, os buracos negros, e possuía o dom de dar essas respostas ao público em termos muito claros. Parte deste livro é a concretização das respostas a essas perguntas com que as pessoas o inquiriam sempre e dar pistas às novas gerações que lhe sucederiam.

Ele acreditou sempre que era possível transformar a ciência complexa num trabalho acessível a todos?

Creio que sim. Quando eu era criança não existia ciência popular e nesses anos, os 1970, os encontros científicos não eram para o público em geral. Os cientistas não sentiam necessidade de explicar o seu trabalho às outras pessoas. Lembro-me de aos 9 anos o meu pai ter-me pedido para fazer uma série de desenhos para ilustrar uma das suas palestras. Queria uma galinha e um ovo, com uma legenda a dizer "qual de nós veio primeiro?", e outras do género. Mas estas ilustrações eram para conferências em Cambridge para os seus estudantes. Isso já mostrava a vontade de um cientista em aproximar o conhecimento de alguns para todos os outros, com humor e de forma a atrair a atenção para o que dizia. Também me lembro de ter ido a uma outra conferência nos Estados Unidos nos anos 1980 onde ele estava a dar uma palestra com tradução simultânea para o russo; a dado momento a tradutora recusou-se a continuar porque não era capaz de traduzir palavras que nunca tinha ouvido. Foi a partir daí que ele sentiu necessidade de cortar com uma ciência só para alguns. Além de que sempre teve uma tendência para usar o humor e a vontade em divulgar o conhecimento, sempre sem abandonar a parte séria do cientista.

O livro é sobre as grandes questões que a humanidade tem há milénios. Quando se liga a televisão vê-se um mundo diferente e pouco preocupado com o "de onde vimos e para onde vamos". Ainda são perguntas importantes?

Talvez quando se apagam as televisões as pessoas queiram saber mais sobre as razões do caos e o mistério da vida.

Quando se fala de Stephen Hawking não podemos deixar de o comparar a Galileu, a Newton ou a Einstein. É o quarto nome destes cientistas mais importantes?

Não sei se ele concordaria com essa opinião porque era muito modesto. Acho que responderia que Einstein, sim, era um génio, tal como Newton e Galileu, mas ele não. Curiosamente, nasceu exatamente 300 anos após Galileu e morreu no mesmo dia do aniversário de Einstein. Não sei qual será o significado destas coincidências...

Era fácil para si trabalhar em parceria com o seu pai?

Nós tínhamos personalidades muito parecidas. Éramos dinâmicos, conversadores e com muita energia, mas mesmo assim chocávamos de vez em quando. Isso acontece em todas as famílias, faz parte da relação normal entre pai e filha. Ele era o meu pai! Tínhamos uma relação muito própria e para mim era uma amizade muito rica.

Hawking faz questão de referir num dos capítulos o seguinte: "Tive um momento eureka em 1970, alguns dias depois do nascimento da minha filha, Lucy." Porquê esta referência a si?

Ele estava a trabalhar nas provas matemáticas sobre a colisão de dois buracos negros pouco antes do meu nascimento e a resposta coincidiu com o meu nascimento. É uma parvoíce, mas fazia-nos rir.

Alguma vez lamentou que as suas teorias não pudessem ser provadas durante o tempo de vida?

Algumas foram, de certa maneira, como a da colisão de buracos negros, e estava com esperança de que todo o seu trabalho teórico sobre o Big Bang pudesse ser provado de forma experimental. Portanto, algum do seu trabalho foi comprovado e estava muito confiante de que o resto também o seria. Claro que teria ficado muito satisfeita que mais ainda tivesse sido provado, porque ele sempre disse que gostaria de ter recebido o Prémio Nobel e isso não aconteceu. De qualquer modo, não é a única pessoa que mereceria o Nobel e que não o recebeu.

Teve mais alguma desilusão ou foi só o Nobel?

Ele sempre disse que a sua canção preferida era a da Edith Piaf Je Ne Regrette Rien! Essa escolha explica bem o que sentia em relação a desilusões. Era a canção que mais gostava.

Desde a Breve História do Tempo até este Breves Respostas, houve algumas evoluções no pensamento de Stephen Hawking. Quais destaca?

A mais importante é a do paradoxo da informação, sobre a emissão de radiação pelos buracos negros. Ele considerou primeiro que a informação perdia-se, mas muito mais tarde concluiu que seria diferente e que era preservada sob alguma forma. Recentemente, ele e três colegas estavam a trabalhar na solução para esse paradoxo e confirmaram a sua teoria. Essa foi a que mais mudou no seu trabalho, no restante não há alterações tão grandes como nesta.

Porque mata Deus em definitivo neste livro?

O meu pai nunca acreditou em Deus, portanto não poderia matá-lo. O que ele queria dizer é que enquanto cientista não encontrava uma explicação racional para o universo que incluísse um protagonista como Deus. Tal como Einstein, referem-se a um deus impessoal, que pode ser antes dito como as forças da natureza cada vez que falam do assunto. Quanto a acreditar num Deus que interfira no dia-a-dia da humanidade, isso não existe para ele.

O que pensava sobre o facto de a religião estar no centro de muitos debates civilizacionais atualmente?

Creio que essa questão não lhe interessava, pois nunca nomeou qualquer religião nos livros, escreve sim que "não digo em que devem acreditar". Foi educado e respeitador quanto às crenças de cada um. O meu pai dizia que era um cientista e a sua missão era explicar o universo, não o caso religioso.

No entanto, não deixou de comentar o Brexit ou a eleição de Trump?

Ela era contra o Brexit e ficou muito preocupado com o que estava a acontecer em Inglaterra. A nível mundial, era muito atento aos grandes desafios das sociedades e lamentava que a humanidade se dividisse em vez de se unir, ou seja, repudiava os nacionalismos. A sua grande preocupação era que as pessoas colaborassem cada vez menos uns com os outros.

Este livro não estava pronto quando Stephen Hawking morreu. Como foi finalizado?

O livro estava muito avançado. A intenção do meu pai era dar respostas às grandes questões que lhe faziam repetidamente e reuni-las num único volume. Ele deixou cerca de meio milhão de palavras e este livro soma 50 mil, ou seja, foi simples encontrar as respostas e editá-las.

Recorreram a textos antigos ou só recentes?

Aos mais recentes, os que fazem parte do arquivo digital da última década.

O livro é tão instrutivo como atual. Era esse o objetivo?

Para mim, porque o livro é publicado após a morte do meu pai, tem um carácter de legado. O importante é dar a sua visão sistematizada e nas suas próprias palavras. Creio que muitas vezes atribuíram-se afirmações que ele não disse, daí ser fundamental dar-lhe a voz das próprias palavras nestas questões de modo a ficar registado em definitivo o que pensava realmente.

Refere as "próprias palavras" e Hawking sempre tentou ser compreendido. Um cientista deve ser compreensível?

Creio que ele inventou a popularização da ciência da forma como a conhecemos hoje em dia. Se formos a uma livraria veremos que a secção de ciência é muito diversificada e rica, mas em 1987, quando ele lançou a Breve História, não havia quase livros sobre esta área. Os cientistas não falavam para o leitor em geral como fazem agora e, na altura, ele já achava que as pessoas tinham direito à ciência. Era um professor universitário do ensino público, pago pelos impostos, e tinha a obrigação de disponibilizar o conhecimento, mesmo que muitos dos seus colegas não estivessem interessados em o fazer porque achavam que a ciência era apenas para os cientistas. Ele não concordou com isso e queria que todos tivessem a oportunidade de compreender o trabalho que fazia.

Acha que ainda há interesse em livros deste género?

Se formos ver o sucesso de livros como o Breve História só podemos dizer que sim. Quando foi lançado a edição era de três mil livros, e acharam que era exagerado publicar um livro sobre ciência em tão grande quantidade. Mal chegou às livrarias esgotou e desde então nunca deixou de ser reimpresso constantemente. Existe realmente um grande apetite pelo que o meu pai tinha para oferecer.

Considera que os jovens continuam interessados?

Há um interesse gigantesco, basta ver os livros que fiz com o meu pai, em que contactei com muitos jovens e sempre vi o seu interesse pela grande quantidade de perguntas que faziam nas sessões de apresentação. E também iam adultos, até avós que compravam os livros para os netos e confessam que os liam primeiro porque não tiveram este tipo de informação enquanto estudaram. As pessoas querem saber sobre assuntos tão abstratos como os que o meu pai trabalhava, mesmo que suspeitem que não os compreenderão por inteiro.

No seu posfácio repete uma pergunta que as pessoas fazem muito: como é ser filha de Stephen Hawking? Como é?

É a combinação particular de uma relação normal e ao mesmo tempo extraordinária. A nossa vida era como a das outras pessoas: cozinhar, fazer compras, organizar tarefas, marcar consultas no médico - tudo o que não é excitante ou diferente. Por outro lado, o meu pai era um homem extraordinário e estar com ele era apaixonante.

O filme A Teoria de Tudo mostrava a vossa vida particular. O que achou dessa exposição?

Acho que o filme era muito bonito, comovente e o ator Eddie Redmayne retratou o meu pai de uma forma excecional. Houve até um conhecido neurologista inglês que me disse que a representação de Redmayne era tão correta que poderia ser utilizada nos diagnósticos médicos.

Aliás, Redmayne ficou tão ligado a essa interpretação que é impossível esquecê-la, nem nos filmes com argumento de J.K. Rowling!

É verdade, e o meu pai gostava muito de J.K. Rowling e dos seus livros e filmes com o Harry Potter. Sei que teria tido muito prazer se ele próprio fosse um protagonista dos filmes que Redmayne agora protagoniza, os Monstros Fantásticos. O meu pai teria adorado ser uma personagem de J.K. Rowling.

Redmayne diz que estava receoso sobre a opinião do seu pai sobre a sua representação. Gostou?

Muito, até ficou impressionado, porque estava preocupado quando soube que um ator o ia imitar e qual seria o resultado. Só disse que gostava que se tivesse falado mais de Física, mas isso era o que ele dizia em relação a tudo, não só com o filme.

O seu pai aparece em muitos episódios da Teoria do Big Bang, do Star Trek e dos Simpsons. Gostava?

Adorava, divertia-se imenso. Quando apareceu nos Simpsons, em 1998, era uma situação muito pouco comum. Hoje, parece natural, mas na época era muito estranho para um cientista ser uma personagem de desenhos animados e a fazer de si mesmo. Ele aceitou imediatamente porque gostava dos Simpsons, conheceu o argumentista, e foi muito engraçada a sua participação. Estar nesses episódios divertia-o. O meu pai não se levava assim tão a sério enquanto pessoa, quanto ao seu trabalho sim.

Não se levava assim tão a sério porque esperava viver menos anos?

Creio que fazia parte da sua personalidade. Sempre foi assim.

O seu pai gostava de filmes como o Interstellar ou Contacto?

Gostava sim, tanto que um dos primeiros filmes que me levou a ver em criança foi o Guerra das Estrelas. Ele adorava o Interstellar, até porque tinha assessoria do seu amigo Kip S. Thorne.

Falando de ficção, se fosse possível fazer uma viagem no tempo, mesmo sem saber se voltaria, o seu pai experimentaria?

Decerto, não tenho qualquer dúvida. Se fosse possível, ele teria feito uma viagem no tempo mesmo sem saber o que lhe aconteceria.

Na introdução do livro, Kip S. Thorne diz que Newton deu as respostas e o seu pai deu as perguntas. O que acha desta síntese?

É um comentário típico do Kip! Este livro é uma forma inteligente de falar do progresso da ciência e, como o meu pai dizia, de nos pormos sobre os ombros dos gigantes porque avançava com o contributo de quem existira antes dele. O seu desejo era de que as próximas gerações fizessem o mesmo com o seu trabalho e que mais perguntas surjam.

No seu posfácio refere muito da palavra coragem. É a que melhor define o seu pai?

Ele teve uma vida muito multifacetada e podemos utilizar muitas palavras para o descrever, mas coragem é muito apropriada. O que ele sofreu foi muito e era bastante difícil fazer tudo aquilo de que foi capaz, sem nunca se queixar.

Este é o último livro ou teremos mais?

Este é o último livro escrito pelo meu pai. Poderá haver mais, mas genuíno é o último. Da nossa parceria, saiu o último também.

No prefácio usa esta expressão: "O seu último ano na Terra." Porquê na Terra?

Será mais uma forma de escrita, no entanto foi o seu último ano de vida na Terra como ser vivo mesmo que continue a viver sob muitas formas. Ele vive, não na forma mortal.

Poderia ser uma expressão para uma outra vida?

Ele não acreditava numa outra vida e, mesmo que às vezes ainda me apanhe a falar com ele, tenho de acordar e convencer-me de que ele não tinha essa crença.

E a Lucy?

... Eu digo o mesmo que o meu pai. A outra vida existe no trabalho que se deixa e na herança genética dos filhos. Essa é a outra vida para todos nós.

Breves Respostas às Grandes Questões

Stephen Hawking

Editora Planeta

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