A relação assumida Marrocos-Israel

A edição datada de domingo do Le Monde contém um artigo de grande fôlego intitulado, com algum humor e muita perspicácia, Maroc-Israël : Le "coming out" d"une relation très spéciale. E mostra como os laços íntimos entre os dois países, que permitiram durante décadas, em segredo, a ajuda mútua, mesmo quando era tabu qualquer tipo de relação entre um Estado árabe e o Estado judaico, se oficializaram com uma notável naturalidade nos últimos dois anos. Não por acaso, no seu discurso há dias em Lisboa, na celebração do 74.º aniversário da criação do moderno Israel, o embaixador Dor Shapira fez questão de saudar a presença entre os convidados do homólogo marroquino, Othmane Bahnini.

Depois de quatro guerras com os vizinhos, a primeira logo em 1948, após o plano de partição da Palestina sob mandato britânico proposto pela ONU ser rejeitado pelos países árabes, que consideraram inaceitável o destino dos palestinianos, Israel conseguiu finalmente romper o isolamento regional em 1979, com o reconhecimento pelo Egito. Em 1994 deu-se também a normalização com a Jordânia, mas as perspetivas de laços diplomáticos com outros países árabes, incluindo Marrocos, depressa desapareceram à medida que a esperança de paz criada pelos Acordos de Oslo se esvaziava a cada nova Intifada (a revolta das populações da Cisjordânia e de Gaza contra o adiamento de um Estado palestiniano).

Quase de repente, uma vaga de reconhecimentos árabes surgiu em 2020, com Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos a normalizarem relações com Israel, mesmo que prometendo não abandonar as reivindicações palestinianas. Estes últimos preferiram designar todas estas movimentações como "facada nas costas".

Sobretudo com os dois países do golfo Pérsico é evidente que a normalização com Israel, que também tem algumas bases económicas, foi motivada por uma espécie de aliança contra a influência do Irão e muito incentivada pelos Estados Unidos. No caso de Marrocos, mesmo que a América tenha tido o seu papel nos bastidores, há todo um historial de cooperação com Israel, que inclui troca de favores na espionagem (antigos e recentes, mais ou menos desmentidos), mas cuja verdadeira base é a força das tradições judaicas na identidade do país do Magrebe e o apego à terra de origem do meio milhão ou mais de israelitas que têm raízes marroquinas. Hassan II tinha plena consciência disso e usou-o na sua diplomacia discreta de ponte entre o chamado Ocidente e o mundo árabe, e o filho, o atual rei Mohammed VI, manteve uma linha semelhante, que culminou com o estabelecimento de relações oficiais.

Vantajosa para Marrocos do ponto de vista militar (é conhecida a rivalidade com a Argélia e o choque com os independentistas sarauís da Frente Polisário) e muito promissora do ponto de vista económico, a relação oficializada com Israel exige, porém, um esforço para convencer internamente e não desiludir externamente, sobretudo os palestinianos. Na primeira situação, a normalização ter vindo associada ao reconhecimento da soberania do Sara Ocidental pelos Estados Unidos (na era Donald Trump, mas mantida por Joe Biden) é decisiva, dada o caráter sagrado da marroquinidade da ex-colónia espanhola para o povo marroquino; na segunda, vale o Comité Al-Qods (nome árabe de Jerusalém) ser presidido pelo rei de Marrocos e também as palavras duras que pontualmente Rabat não deixa de usar contra Israel e em favor dos palestinianos, como há dias em relação à violência policial na Esplanada das Mesquitas contra os muçulmanos em oração.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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