Máscaras e calor: está em marcha um estudo sobre o impacto na pele

Os profissionais de saúde são os que mais estão a sofrer com dermatoses e outras manifestações na pele, mas também outros começam a revelar irritações pelo uso prolongado de máscara, e que se agrava com o calor. No Centro Hospitalar Lisboa Norte há uma equipa a estudar os efeitos dos equipamentos de proteção, à procura de respostas para minimizar o desconforto.

O uso da máscara e o calor nem sempre são bons aliados. Por estes dias, muitos portugueses estão já a sentir o desconforto, e nalguns casos manifestam-se alterações cutâneas na face: acne, dermatite seborreica e eczemas de contacto são os mais comuns. Alice Costa trabalha numa pastelaria e, ao fim de alguns dias, começou a notar "a pele diferente, como se fosse escamada". O diagnóstico da médica de família apontou para eczema, encaminhando-a para baixa médica e consulta de especialidade. "A máscara que usava era de tecido. Primeiro, pensei que esse fosse o problema e mudei para as cirúrgicas, descartáveis, mas não melhorou", conta ao DN a empregada de balcão.

A verdade é que depende muito de cada pessoa - e de cada tipo de pele - a reação à máscara. "Tenho colegas que usam o dia todo, como eu, e nunca fizeram qualquer reação", acrescenta Alice. As máscaras de tecido que usava eram até personalizadas: a empresa, detentora de várias pastelarias na zona centro do país, encomendou máscaras de tecido, com abertura para filtro, laváveis, julgando que seriam mais confortáveis. "Mas isso depende muito. Há quem se dê melhor com as descartáveis, em TNT", diz ao DN Filipa Bibe, da escola de costura Maria Modista, que desde há dois meses tem feito milhares de máscaras para os profissionais de saúde. Nos últimos tempos - desde que foi recomendado o uso, em Portugal - passou a fazer também em tecido. "Essas são 100% algodão, levam um filtro em TNT, numa abertura própria. Depois não devem ser lavadas juntamente com a roupa, na máquina, mas antes num alguidar com água a ferver (60 graus ou mais), com um pouco de detergente", explica Filipa, que deixa a recomendação para quem faz em casa: "O importante é que seja em algodão. Não é preciso uma gramagem muito alta. Uma boa técnica é pôr o pano em contraluz e perceber se passa a claridade. Quanto mais fechado vai tornar-se mais quente, mas também mais protetor..."

Filipa Bibe sublinha, no entanto, que há quem se sinta melhor com as máscaras cirúrgicas (descartáveis) por serem mais leves. Nesta semana entregou a última leva de material aos hospitais, em regime de voluntariado, até porque "já passou tempo suficiente para os serviços se organizarem, e já há empresas portuguesas a produzir". Entretanto, reabriu a Maria Modista, por todo o país, e "as alunas voltaram, o que foi ótimo". No site da marca continuam disponíveis modelos de máscaras que qualquer pessoa pode fazer em casa.

O médico Miguel Alpalhão, interno em dermatologia no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN) - que integra os hospitais Santa Maria e Pulido Valente -, está a participar num estudo precisamente sobre o impacto da utilização intensiva de máscaras, luvas e outro equipamento de proteção individual (EPI) pelos profissionais de saúde que estão na linha da frente, no combate à covid-19.

"Estamos neste momento a preparar o estudo, para percebermos as reais necessidades e os problemas de pele (dermatoses) relacionados com o uso destes equipamentos de proteção individual", disse ao DN o interno de dermatologia. A equipa que integra, no Hospital de Santa Maria, tem sido procurada por vários técnicos, com queixas variadas: "Dermites de contacto, acne, rosácea, dermite seborreica, por exemplo. Temos a perceção de que há muitos profissionais com lesões que estão associadas ao uso de EPI. Queremos quantificar e compreender melhor esta a realidade, efetivamente", disse ao DN Miguel Alpalhão, numa altura em que o uso prolongado de máscara, nomeadamente por parte dos profissionais de saúde, mas também de outras áreas, começa a manifestar alguns efeitos secundários.

"O nosso objetivo é auxiliar todas as pessoas que estão na linha da frente e darmos o nosso contributo", sublinha o médico, que rejeita, porém, a possibilidade de extrapolar os dados conseguidos no estudo para aplicar à comunidade em geral. Isto porque os profissionais utilizam meios de proteção individual que as pessoas em geral não usam. A título de exemplo, fala das máscaras FFP2, "que têm um contacto mais apertado com o rosto". Mas também a própria exposição: "No dia-a-dia, uma pessoa pode utilizar máscara quando sai de casa, mas os profissionais usam estes EPI ao longo de todo o dia de trabalho, pelo que têm maior predisposição para o agravamento de dermatoses preexistentes, ou para o aparecimento destas queixas, mesmo em quem nunca havia tido problemas cutâneos anteriormente."

Miguel Alpalhão insiste na necessidade de separar as águas entre profissionais de saúde e de outras áreas e o público em geral. "São realidades distintas", acrescenta.

Por outro lado, as manifestações cutâneas são diversificadas e dependem do tipo de EPI: "O uso de máscaras pode provocar um tipo de lesões no rosto, por exemplo; enquanto nas mãos, por outro lado, as soluções antisséticas à base de álcool ou o uso prolongado de luvas podem gerar outro tipo de lesões. Além do mais, o mesmo EPI pode provocar lesões distintas em pessoas diferentes, atendendo às características da pele de cada um. Não podemos pôr tudo no mesmo saco."

Muitos profissionais de saúde têm vindo a reportar um conjunto de situações diversas, nomeadamente na face. Dermites irritativas, por exemplo, devido ao trauma físico da utilização da máscara e à oclusão, que faz à "retenção da humidade que exalamos na respiração debaixo da máscara, e alguma alteração da permeabilidade da própria pele, particularmente em pessoas que já têm pele mais sensível, como no eczema atópico. Também assistimos ao agravamento de acne e de rosácea, em pessoas com uma pele de tendência mais oleosa, por exemplo", explica. E há vários fatores que contribuem para isso: "O equipamento que está a ser utilizado, a forma como está a ser utilizado, o tempo de utilização, e também depende muito das características da pele de cada um."

"Sabemos que se uma pessoa tiver lesões na pele, que lhe causam desconforto, pela utilização dos EPI, é possível que não os venha a utilizar da melhor maneira, para evitar agravamento. Por isso é importante prevenir e tratar estas lesões e aliviar um pouco a pressão que estes equipamentos fazem sobre o rosto, para otimizar a adesão ao uso correto dos EPI", enfatiza o interno de dermatologia.

Que máscara usar?

"Do ponto de vista cutâneo, quanto mais apertadas forem as máscaras, maior a probabilidade de se desenvolverem estas lesões. A pressão é um fator muito importante", sublinha Miguel Alpalhão, lembrando que, em princípio, as máscaras cirúrgicas não serão tão agressivas para a pele como aquelas que são mais justas (FFP2), mas que a escolha da máscara a utilizar deverá ser ditada pela situação concreta e pelas recomendações das autoridades de saúde. Reforça, porém, que "existem muitos outros fatores que contribuem para estas dermatoses. Não podemos pensar que modificando apenas uma variável, como o tipo de máscara, eliminamos completamente o risco de desenvolver uma dermatose".

Este médico acredita que a utilização das máscaras carece também de um período de adaptação. "Os nossos comportamentos do dia-a-dia e a nossa vivência social eram muito diferentes há poucos meses." Por isso mesmo considera que "todos tivemos de nos adaptar a uma nova realidade e ao uso de EPI", neste curto espaço de tempo, mas que "com o hábito tornar-se-á mais fácil adotar estratégias para evitar os danos associados ao uso de EPI".

De qualquer forma, frisa que "estas dermatoses não devem ser vistas como um pretexto ou uma justificação para não utilizar os equipamentos, segundo as recomendações e as normas da Direção-Geral da Saúde. Nós podemos sempre tomar medidas para prevenir e tratar estas lesões cutâneas", sugere.

Miguel Alpalhão deixa, por isso, alguns conselhos, salvaguardando que o tipo de máscara a utilizar deve ter em atenção o contexto. "Uma pessoa que está em casa e que só sai para comprar pão não está exposta ao mesmo risco que uma pessoa que está todo o dia atrás de um balcão e contacta com centenas de pessoas. O fundamental é usar a máscara adequada a cada situação, enquanto for preconizado, cientificamente, que deve ser essa a atitude a tomar." Ainda assim, recorda que estamos perante uma situação dinâmica, em que as recomendações "têm vindo a mudar ao longo do tempo - como é natural - porque estamos ainda a aprender acerca desta infeção, e pode dar-se o caso de, no futuro, as recomendações relativas ao uso de máscara sofrerem alterações". E por isso "devemos adaptar as nossas rotinas, de forma a podermos utilizar estes equipamentos, que são para a nossa proteção individual e dos que nos rodeiam, enquanto reduzimos o risco de desenvolver estas alterações cutâneas". Alguns conselhos? "As fitas de plástico para prender a máscara atrás da cabeça são muito úteis para aliviar a pressão que os atilhos exercem nos pavilhões auriculares; trocar com alguma frequência os EPI; ter cuidados de hidratação adequados a cada tipo de pele e hidratar as mãos após cada lavagem; lavar o rosto com produtos apropriados, diariamente; preferir produtos com poucos alérgenos; e evitar a utilização de máscara quando não está indicada, nomeadamente na habitação pessoal".

Por fim, insiste na importância de se procurar os especialistas em dermatologia, quando as queixas são significativas ou persistentes, apela às pessoas que não deixem de procurar os cuidados médicos de que necessitam e relembra que podem regressar às consultas nos hospitais portugueses, entretanto retomadas.

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