Ensino superior preocupado com chegada da próxima geração de alunos

Será o ano mais desafiante de que há memória na integração dos novos estudantes do ensino superior, diz o presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas. Com a pandemia de covid-19 longe do fim, o próximo ano ainda é uma incógnita, mas universidades e politécnicos acreditam que pode haver desafios difíceis de combater pela próxima geração.

Com o alerta sobre uma segunda vaga da pandemia de covid-19 na Europa e a vacina ainda longe do horizonte da humanidade, o setor da educação levanta os seus receios sobre o que será feito do próximo ano letivo. As universidades e institutos politécnicos não têm dúvidas de que a nova geração de alunos, que dará entrada no ano 2020/2021, estará preparada para os desafios - ainda mais, depois da experiência de ensino à distância, dizem professores. As instituições é que podem não estar preparadas para os receber.

Já lá vai o tempo das aulas nos grandes auditórios. A professora universitária Inês Moreira, 42 anos, recorda-os sempre cheios. Há seis anos que é docente auxiliar convidada na Universidade do Porto, mais propriamente na Faculdade de Belas Artes, onde leciona uma disciplina teórica de dois cursos - Artes Plásticas e Design. "O que significa que, no primeiro ano, tenho 200 alunos. É um rácio de um para 200", conta. Estudantes de todos os feitios, "os que entram pela primeira vez na universidade, os maiores de 23 anos, os de segunda licenciatura, transferências, aqueles que suspenderam a licenciatura e a retomam". Por isso, espera sempre um universo estudantil diversificado e com diferentes perfis de aprendizagem, mas, "de forma geral, muitíssimo bem preparados".

Não tem dúvidas de que a tendência se irá manter com os alunos que chegarem no próximo ano letivo à universidade, esta espécie de geração covid, apesar de um final de ensino secundário turbulento. O que em nada deverá afetar a etapa seguinte, "porque a natureza destas disciplinas do ensino superior é muito diferente das do secundário", esclarece.

Considera, aliás, que há um proveito a retirar desta improvisação com a qual os alunos do 12.º ano estão a ter de lidar atualmente. "Penso que o ensino online já veio quebrar alguma dificuldade nas tecnologias e já se foram habituando a este modelo." Para os professores, há ainda "a pequena vantagem na câmara, que não se tem em auditório, que é os estudantes estarem identificados com o nome quando os vemos".

Uma opinião partilhada pelo presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP) e do Instituto Politécnico de Setúbal (IPS). Este "são alunos que beneficiaram da introdução generalizada das tecnologias no processo educativo e que cresceram com as redes sociais e com novas formas de comunicação", lembra Pedro Dominguinhos. Por isso, "resumir todo este percurso a um período extraordinário que a humanidade está a viver, e que impactou as nossas vidas de uma forma inimaginável, é redutor para todo o processo educativo vivenciado por estes alunos".

A experiência social e educativa que atualmente testemunham pode, aliás, ser o motor para aprendizagens fundamentais na adaptação ao ensino superior. "Nem no melhor simulador ou experiência de laboratório com recurso a realidade virtual ou aumentada conseguiríamos sentir" as repercussões deste "episódio histórico" que "está a exigir uma adaptação a novos contextos, ao desconhecido e incontrolável, obrigando à mobilização de novos conhecimentos, aprendizagens e novos papéis", acrescenta Pedro Dominguinhos.

"Concomitantemente, está a exigir que compreendamos, da forma mais direta e imediata, a forma como a interação com o ambiente cria e produz novos equilíbrios, exigindo a adoção de novos comportamentos, que promovam a saúde e o bem-estar, garantido um futuro mais sustentável", remata.

Esta é "muito provavelmente" a receção dos estudantes mais desafiante, diz o presidente do Conselho e Reitores das Universidades Portuguesas.

Podem faltar os espaços... e as relações

O grande desafio do próximo ano não será a forma como os alunos vão chegar preparados, mas sim como irão as instituições adaptar-se à sua chegada. Professores e reitores vivem ainda "nesta grande incerteza". "O cenário pode ser semelhante ao de duas semanas atrás [com aulas apenas online], pode ser semelhante ao desta semana [com aulas presenciais nas unidades práticas] ou pode ser outro. Esta imprevisibilidade é a mesma para os estudantes e professores e ainda é muito cedo para se saber o que pode acontecer", admite a professora de Belas Artes, Inês Moreira.

"Mais do que uma questão de integração", acredita que existirá no ensino superior "uma questão muito concreta de capacidade física", caso ainda esteja em vigor regras como o distanciamento físico mínimo dentro de espaços. Um auditório não chegaria, garante. O que poderia obrigar a dividir mais turmas, preparar mais turnos ou até mais professores.

Relações interpessoais serão afetadas e merecem atenção, porque "terão impacto em toda a vivência académica".

Nesta equação, seja ela qual for, teme que se percam ainda as relações interpessoais decorrentes do ensino presencial. "Neste tipo de ensino teórico, tenho tentado nos últimos anos, optar por outras formas de trabalho, em grupo, por tarefas, mais relacional, tentando colmatar esta diferença geométrica de um para 200. E isso, sim, preocupa-me um pouco: como vamos colmatar esta geometria com as novas condições", desabafa a docente.

"Quer entre estudantes e professores, quer entre pares", Pedro Dominguinhos diz que estas relações "serão menos intensas" e merecem atenção, porque "terão impacto emtoda a vivência académica". Especialmente daqueles que entram pela primeira vez no ensino superior. Confiante de que "vivenciaremos um ano letivo caracterizado por um ensino misto, com recurso a plataformas digitais e ensino presencial", diz que o grande desafio será reinventar momentos de trabalho em equipa e de integração".

Desde que há memória, esta é "muito provavelmente" a receção dos estudantes mais desafiante, continua o presidente do Conselho e Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP). Contudo, Fontainhas Fernandes, também reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), lembra que "a comunidade académica tem mostrado uma atitude responsável, empenhada e vindo a manter uma postura consciente com a comunidade e o país", por isso, "esta determinação será mantida na integração dos novos estudantes".

Desde o dia 4 de maio, várias instituições estão a retomar, pouco a pouco, as suas atividades letivas, mas apenas nas aulas laboratoriais. Depois do anúncio do alargamento do ano letivo para o ensino secundário, o calendário de acesso ao ensino superior foi adiado em duas semanas. As instituições terão autonomia para definir o novo início do próximo ano letivo. E há quem admita alargar o presente ano letivo até setembro.

A primeira fase de candidaturas arranca a 7 de agosto, e não a 21 de julho, como anteriormente previsto. Decorrerá até ao dia 23 do mesmo mês. As colocações serão conhecidas a 28 de setembro - antes previstos a 7 de setembro, anunciou o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), em comunicado. A segunda fase decorrerá de 28 de setembro a 9 de outubro, com os resultados divulgados a 15 de outubro. A terceira será entre 22 e 26 de outubro. Estas últimas colocações são comunicadas a 30 de outubro.

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