Tó Trips: "Nesta conjuntura é mais fácil contratar só um músico"

O músico dos Dead Combo é o autor da banda sonora de Surdina, uma longa-metragem de Rodrigo Areias, com argumento de Valter Hugo Mãe, cuja música deu também um belo disco, que sobrevive autonomamente ao filme.

Foram dias e dias agarrado à guitarra, enquanto via o filme no ecrã de um computador, tentando criar os ambientes musicais certos para uma história passada em Guimarães, entre a comédia e a tragédia, que mistura velhice, amor, nostalgia, solidão e recomeço. "Neste caso facilitou-me bastante o trabalho que o enredo tivesse a um pouco a ver com o meu próprio imaginário musical, do Portugal profundo, da vontade de mudar de vida", conta ao DN Tó Trips, uma das metades dos Dead Combo (a outra é Pedro Gonçalves), que neste empreitada acabou, pela primeira vez, por fazer tudo sozinho.

"Já fizemos várias bandas sonoras com os Dead Combo, tanto para cinema como para teatro. E normalmente essa parte dos arranjos e da produção é o Pedro que a faz. Esse foi talvez o maior desafio deste trabalho", assume o músico, que aos 54 anos tocou pela primeira vez piano num disco. "Compus à guitarra mas depois toquei grande parte das músicas ao piano", sublinha. Fez todo sozinho, em casa, durante o período de confinamento, o que lhe deu tempo e paciência para criar uma pequena orquestra, que incluem ainda contrabaixo, bateria e acordeão. "Isso já foi tudo criado ao computador", desvenda.

Começou por ver o filme em timeline, enquanto tocava por cima das imagens que ia passando. "Na maior parte das vezes não se aproveita nada, a não ser para um ou outro momento mais de ambiente, mas serve-me como ponto de partida para o tema central, que crio a seguir, quase como se fosse uma espécie de genérico", explica. Depois, o objetivo passa por ir adaptando a música aos diferentes momentos do enredo, o que por vezes implica criar uma música nova de raiz, como aconteceu com o tema Rádio Cigano, que se ouve, em determinada cena, no rádio de um carro, durante uma viagem. "A dificuldade é a organização, porque às vezes perco-me um bocado no meio de tanta música", confessa. Contou no entanto com a ajuda do próprio realizador, Rodrigo Areias, que lhe deu "total liberdade" para criar. "À medida que ia avançando, mostrava o resultado ao Rodrigo e isso foi mesmo a parte mais fácil, porque nos conhecemos muito bem".

Entretanto, nos últimos dias, Tó Trips tem andado "a fazer o processo ao contrário", isto é, "a descascar a banda sonora quase até ao osso", numa série de apresentações do filme em versão cine-concerto", nas quais acompanha Surdina ao vivo, mas apenas à guitarra. "Ainda pensei em levar um computador, para ir lançando uns loops pré-gravados, mas como não se trata de um filme mudo e tem diálogos, se calhar não era lá muito boa ideia. Assim acabo por também ter mais espaço para improvisar, o que torna cada projeção numa versão única e irrepetível do filme, para quem vê", sustenta.

Com filme e o lançamento em disco da respetiva banda sonora, começaram também a surgir outros convites, para alguns concertos a solo. "Na atual conjuntura é mais fácil contratar só um músico, para espetáculos mais pequenos, até porque representa um investimento menor para os promotores", reconhece.

Depois de meses trancado em casa, são boas notícias, mas Tó Trips encara o futuro com alguma apreensão. "As pequenas salas fazem parte dos roteiros culturais das cidades e permitem a bandas e artistas mais pequenos terem um circuito de concertos. Se estes espaços não reabrirem o que vai acontecer a toda essa gente? E não falo só dos músicos ou dos promotores, mas de toda a gente que trabalha direta ou indiretamente com este meio: das pessoas que vendem as bebidas às que no final limpam a sala. Parece que não um mínimo de estratégia delineada para este setor, que é importantíssimo até a nível social. E depois querem que os miúdos não saiam?"

A nível pessoal, a pandemia também lhe alterou todos os planos. Em abril tinha previsto editar o álbum de estreia dos Club Makumba, o projeto que tem com João Doce, percussionista dos Wraygunn. "Temos o disco gravado desde o final do ano passado, estava tudo pronto, até já tínhamos agendada uma digressão nacional pelos tais pequenos clubes, mas depois aconteceu isto e achámos melhor adiarmos o lançamento para o próximo ano, até porque se trata de uma banda que ainda ninguém conhece e não fazia sentido por o disco cá fora sem o promover ao vivo". Adiada para 2021 ficou também a despedida dos Dead Combo, cuja derradeira digressão devia ter lugar este ano, com dezenas de concertos um pouco por todo o país. Mas isso, enfim, pelo menos para os fãs, não é propriamente uma má notícia.

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