Reportagem no bairro da Jamaica. À esquerda, o pai do jovem detido

Bairro da Jamaica

A violência no Jamaica tem três versões. Do pai, da vítima e a verdadeira?

Uma zaragata entre duas raparigas transformou-se num caso polémico em que se fala de violência policial e racismo. Será assim? Há versões diferentes. E há quem no bairro chore o regresso às notícias, por maus motivos.

A calma que se vivia na tarde desta segunda-feira no Bairro da Jamaica, no Seixal, contrastava com a violência que as televisões haviam de mostrar, na Av. da Liberdade, em Lisboa, e com as imagens da ação policial que toda a gente vira, no bairro, no dia anterior. Os moradores iam deixando desejos de boa tarde quando passavam junto de Fernando Coxi - mostrando uma vizinhança educada e correta no trato.

Ou seja, exatamente o contrário do que se tinha passado pouco mais de 24 horas antes, quando a rua de terra e água a escorrer pelo chão fora palco de uma minibatalha entre moradores primeiro e depois com agentes da PSP que, chamados a intervir num dos maiores bairros ilegais do concelho, se envolveram numa cena violenta. É curioso que isto aconteça quando o bairro tem sido novamente notícia mas por boas razões. Começaram as operações de realojamento das centenas de famílias que ali vivem em edifícios que estão por acabar desde os anos 80 do século passado.

Neste domingo, o bairro voltou a ser notícia pelas piores razões: o que parecia ser uma cena de pancadaria entre duas jovens levou a uma intervenção policial que acabou com um detido, seis pessoas levadas ao hospital (um agente e cinco moradores) e inúmeras acusações de excesso de força e de atitudes racistas pelos agentes chamados ao local.

A contestação à atuação dos polícias explodiu com as imagens divulgadas através do Facebook - gravadas com um smartphone, que mostravam, com comentários fortes, o que se passava. Ou pelo menos o que parecia passar-se. Porque um filme de pouco mais de dois minutos não mostra toda a história do que se passou durante a manhã. Assim como um outro, um pouco maior, e que mostra os agentes no meio da rua a conversar, também não conta a história toda do outro lado. Também por isso foi aberto um inquérito pela Direção Nacional da PSP no seguimento da queixa que a Associação SOS Racismo já anunciou entregar ao Ministério Público. E o Bloco de Esquerda quer ouvir explicações sobre o tema.

A única certeza é que Hortênsio Coxi foi detido e ouvido na manhã desta segunda-feira pelo Ministério Público no Tribunal do Seixal e foi constituído arguido pelo crime de resistência e coação sobre um polícia (artigo 347 do Código Penal). A pena é de prisão e até cinco anos.

A versão do pai: justiça

Fernando Coxi, pai de Hortênsio, angolano, diz querer justiça. Acusa a polícia de excesso de força. "Neste caso há prova. As imagens mostram tudo, na altura em que saí de casa estava de calção. Não faltei ao respeito, fui [falar aos agentes] com toda a educação. Agora, o polícia agredido tem de apresentar provas da lesão que teve. Eu tenho relatórios referentes à minha família. E ninguém lançou pedras", garante.

Fernando diz que a sua família é um "exemplo" para o bairro onde mora há quase duas décadas - "faz dia 7 de setembro 20 anos que moro aqui" - e que o que se passou no domingo de manhã foi empolado. "O que aconteceu ontem foi um conflito entre as duas meninas que estiveram numa festa de uma amiga que fez anos. Houve um desentendimento, mas não um que tenha provocado pânico. Uma delas falou dos pais, que não estavam presentes, o meu filho não admitiu isso e puxou-lhe a camisola. Ela caiu e chamou a polícia. E indicou o meu filho. E eles começaram a bater. Quando saí de casa vi a polícia a bater no meu filho. Defendi-o e a polícia bateu-me também. O objetivo deles era partir-lhe as costelas", acusa o pai de sete filhos que trabalha como segurança no Hospital do Barreiro.

Criticando a PSP, diz querer respostas e decisões sobre o que aconteceu. "A polícia aqui não nos defende. Inclusivamente [o que aconteceu] não era problema para chegar ao nível que chegou. Eles é que tomaram aquelas atitudes porque nos maltratam, pisam as pessoas como se fossem cães. Não compreendo a atitude destes polícias. E não é a primeira vez", acusa.

Não está parado, diz. Quer ver o caso resolvido, garante ter envolvido a Embaixada de Angola e está a recolher provas do que aconteceu, para as entregar ao advogado. E deixa uma "ameaça" velada que não concretiza caso não veja andamento no processo: "Um dia poderei fazer história se isto não correr bem, da dimensão que eu quero. Isto pode resultar em muitos problemas."

A queixosa desaparecida, e mais uma versão

Se é verdade que o mediatismo do caso está focado na atuação dos agentes chamados ao bairro para intervir na zaragata entre duas mulheres, há uma parte da história que praticamente "desapareceu": a da mulher que iniciou isto tudo, com a queixa de ter sido deitada ao chão por Hortênsio e que chamou a PSP. Leonela dos Santos é esta jovem, que, diz, se envolveu no caso para defender uma amiga grávida que estava quase a ser agredida por Hortênsio. "Fomos divertir-nos. Chegámos lá [ao Bairro da Jamaica] e estava uma pessoa a criar confusão. Houve um bate-boca e o irmão de uma moça quis agredir a minha amiga, que está grávida. Eu meti-me no meio, ele empurrou-me e caí. Assim que me levantei disse que ia chamar a polícia", conta Leonela. Agora, mora numa casa longe do bairro para onde evita ir.

Quando os agentes da esquadra da Cruz de Pau - situada não muito longe do bairro - chegaram foi Leonela quem foi "ter com os polícias", garante, e lhes disse que tinha sido agredida. "Eles perguntaram: 'Quem agrediu esta mulher?' E apontei a pessoa. E aí a polícia foi falar com ele e a irmã chegou e dá uma chapada na cara do polícia", conta. Foi Hortênsio, garante, que, apesar de ter provocado a briga, tentou apaziguar as pessoas.

Mas a situação descontrolou-se e "toda a gente começou a empurrar, a atirar pedras e a moça [irmã de Hortênsio] chega ao pé de mim e começa a agredir-me de novo", garante. Perante o aumento das agressões - as imagens que circulam nas redes sociais mostram que havia mais pessoas na rua, mas os agentes apenas se envolveram com a família Coxia - Leonela foi para a esquadra. E, mais tarde, teve mais uma razão de queixa: "Eles [alguns elementos da família Coxia] foram a minha casa dizer que eu era a culpada de a polícia os agredir. Eu não estava na casa da minha mãe, nem sei o que aconteceria se lá estivesse." É a sua versão.

Diz não ter medo de voltar ao bairro, mas para já não o vai fazer. Até porque, garante: "Eles mandam-me recados com ameaças."

A tristeza de Dirce

Perante o regresso do mediatismo do bairro mas por más razões, a associação de moradores pouco pode fazer além de dizer que é uma situação triste, principalmente quando se iniciou um processo de realojamento das cerca de mil pessoas que moram no Jamaica e que a Câmara do Seixal, o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana e a Misericórdia do Seixal estão a começar a colocar em casas recuperadas em diversos pontos do concelho. Este é um investimento de cerca de 15 milhões de euros e vai significar o fim de uma das maiores zonas de habitação ilegal do concelho.

Aqui moram principalmente famílias que vieram de África, a partir dos anos 1980, e que foram ocupando os apartamentos destes edifícios inacabados. "É triste porque durante este tempo do realojamento isto estava a entrar nos eixos e agora com isto é complicado", diz Dirce Lena Noronha, a presidente da associação. Entidade que, lembra, pouco pode fazer: "Só podemos dar apoio aos pais envolvidos na situação. Não podemos fazer mais que isto."

Quanto à ação policial, diz: "Pelo que vi, a polícia foi lá fazer o seu trabalho, também não sei se pelo momento que se vivia as pessoas também foram um pouco excessivas. O que posso dizer é que cada ato provoca uma reação."

E a PSP?

Perante a divulgação do vídeo em que se mostra uma parte da atuação policial o Comandante Distrital de Setúbal, da PSP, Manuel Viola da Silva divulgou um mail em que afirma, "para quem está confortavelmente sentado no seu sofá a ver o vídeo pela televisão, pode achar que poderíamos ter atuado de outra forma, nomeadamente e apenas através de conversa com os desordeiros".

E acrescentou: "Nos próximos dias iremos ser criticados pela nossa atuação, mas quem está no terreno, os polícias, e tem de participar neste tipo de intervenções, em ambientes muito hostis e que colocam em causa a sua integridade física, sabe bem que não há outra forma, que aquela que utilizamos, de enfrentar indivíduos que apenas querem é agredir de forma gratuita os agentes da autoridade que simplesmente procuram cumprir a sua missão."

"Através deste e-mail mostro toda a minha solidariedade para com os elementos policiais da Divisão do Seixal, deste Comando Distrital de Setúbal, que participaram nesta difícil intervenção policial, e sobretudo para com o agente que foi alvo de uma pedrada na boca, desejando-lhe rápidas melhoras", conclui.

Ou seja, será a investigação interna da PSP e a investigação liderada pelo Departamento de Investigação e Ação Penal do Seixal a encontrar a verdade sobre o que se passou e a atuação dos agentes. Qual será a verdade?

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