Boa noite, boa sorte e boa malha

Apesar do Oscar que recebeu por The Social Network, apesar da recente subespecialização em escrever êxitos de bilheteira sobre "génios" visionários (Zuckerberg, Steve Jobs), apesar do legado de The West Wing - uma mão-cheia de Emmys e a criptoinfluência que exerceu sobre uma geração não apenas de argumentistas, mas também de políticos (americanos e não só) - a cena mais célebre que Aaron Sorkin escreveu continua a ser a cena central do seu primeiro filme, A Few Good Men. O nobre e feroz interrogador interpretado por Tom Cruise, infatigável na busca da Verdade, manipula Jack Nicholson até este explodir: "You can"t handle the truth!" A sugestão é que o pronome "you", que em inglês tanto pode ser singular como plural, não impugna apenas Tom Cruise, mas o resto da plateia: os que estão no tribunal, e os que estão a ver o filme. Nicholson pode ser o vilão nesse filme, mas a Verdade que enuncia é um suporte estrutural em todos os mundos que Sorkin criou: a ideia de que os bastidores de qualquer poder institucional escondem elementos desagradáveis, mas essenciais, e de que uma causa maior pode justificar atropelos menores. Frequentemente acusado de ser um "idealista" (especialmente durante os anos de The West Wing), Sorkin sempre adoptou e aprovou "-ismos" menos estanques: idealismo poético nas palavras, mas o suposto pragmatismo dos "adultos" quando chegava a hora dos actos. Uma lady no palanque, uma louca na sala de reuniões.

Grande parte disto, suspeita-se, é mais instintivo do que programático, talvez o efeito colateral de uma predilecção estética para dramatizar cenas estilo-Network em que uma personagem atinge um ponto de saturação e desabafa publicamente uma dessas Verdades desconfortáveis. A série que escreveu a seguir a The West Wing (Studio 60 on the Sunset Strip) começa com um produtor de televisão a interromper uma emissão em directo com uma diatribe contra a televisão. A série que escreveu a seguir a essa, The Newsroom, começa com um pivot de telejornal a responder a uma pergunta simplista de uma estudante universitária ("porque é que a América é o maior país do mundo?") com uma diatribe contra tudo em geral.

The Newsroom, cujas três temporadas foram originalmente transmitidas entre 2012 e 2014, é talvez a versão mais pura e destilada da "série de Aaron Sorkin". É, em muitos aspectos, péssima televisão: precariamente equilibrada entre três registos distintos que nunca consegue calibrar (pedagogia condescendente, sentimentalismo nostálgico, e comédia burlesca), e atafulhada de cenas tão ridículas que parecem paródias de si próprias (normalmente envolvem discuros solenes com acompanhamento orquestral). Mas é, para lhe dar o devido mérito, má ficção televisiva diferente de toda a outra má ficção televisiva; não é má por parecer feita por comité ou algoritmo: todos os seus defeitos vêm inconfundivelmente da cabeça de uma única pessoa.

Se Studio 60 dramatizava os bastidores de um programa de comédia e The West Wing os bastidores de uma presidência, The Newsroom dramatiza os bastidores de um telejornal de horário nobre. "Nobre" é o termo operativo, em todos os sentidos. O protagonista deixa de ser um líder inspirador com poder executivo e passa a ser um pivot inspirador com poder informativo: de Martin Lincoln Sheen para Rodrigo Guedes de Cronkite. A diatribe inicial do apresentador sobre a grandeza perdida da América serve de mote para refundar o noticiário, até porque a diatribe apontava explicitamente a principal causa desse declínio: "antigamente", a América era informada por "grandes homens", homens "adorados" pelo público, homens em quem o povo humilde confiava cegamente. A maneira de recuperar essa grandeza é, portanto, apontar uma câmara ao último desses grandes homens e deixá-lo dizer alguns Factos e Verdades.

Porque se trata de uma série de Sorkin, a "grandeza" do protagonista é estabelecida mais ou menos como a "inteligência" (dele e de todas as outras personagens): através de constante reiteração. "Vamos pegar no teu talento e no teu QI e dar-lhe algum uso patriótico!", diz uma produtora. "Sempre foste a pessoa mais inteligente por aqui", diz um colega. Toda a gente repete regularmente as suas credenciais académicas. Esta é outra das chaves nos universos de Sorkin: um mundo onde crenças e intenções não resultam de interesses materiais, ou sequer de motivações emocionais (rancores, ódios de estimação), mas apenas do fosso entre a inteligência e o seu contrário. Quando uma personagem inteligente debate com uma personagem menos inteligente, o debate é invariavelmente "ganho" com uma mistura de fluência superior, timing cómico e enxurrada de estatísticas; o golpe de misericórdia é revelar publicamente uma hipocrisia (essa curiosa herança cristã) na posição do adversário.

Os restantes episódios da primeira temporada avançam adoptando esta noção espatafurdiamente ideológica de que a Verdade noticiosa não é algo contextual ditado de momento a momento por pressões opostas, mas um conjunto de dois ou três "factos - ou duas ou três "estatísticas" - que podem ser instantaneamente revelados se um Grande Homem fizer a pergunta certa com um ar determinado. Cena após cena, um apparatchik afunda-se em directo perante o íntegro e justo e esperto interrogatório de Rodrigo Guedes de Cronkite, complementado com insultos cómicos e montagens denunciando as suas contradições.

O que é interessante aqui é que The Newsroom se comporta como se esta metodologia fosse revolucionária e não exactamente aquilo que programas na linha de The Daily Show andaram anos a fazer. Apesar dos repetidos remoques aos "novos media", à "informação como entretenimento", e à "internet" (três papões antigos de Sorkin), aquilo que a série exibe como "jornalismo responsável" assenta em nada mais do que momentos que aplicam à superfície nostálgica dos Grandes Pivots de Outrora a lógica da viralidade: um nobre tribuno do povo a "arrasar" o seu oponente, usando factos e lógica, produzindo momentos que possam ser retweetados com a legenda "que tareia!". Xeque-mate. Tal como em The West Wing, os habitantes do universo de The Newsroom comportam-se, com a anuência tácita do criador, como se fosse impossível alguém triunfar depois de ser "arrasado" na televisão, como se fosse impossível ser ridículo e politicamente eficaz ao mesmo tempo, como se os "factos" fossem um talismã infalível contra a vontade de não acreditar neles. A Verdade é demonstravelmente outra, mas também é demonstravelmente uma Verdade com a qual The Newsroom não deseja, nem consegue, lidar.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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