Premium Força chinesa ou fraquezas ocidentais

No longo processo de degradação e recomposição do sistema internacional, a China aparece como o ator com rumo político mais consistente. Em 2008, escrevi que a China está para o século XXI como a Alemanha unificada em 1871 esteve para o século XIX: um novo grande poder, desequilibrando as relações de força e as alianças tradicionais. Contudo, uma análise mais atenta revela que há um manifesto exagero no discurso de alerta contra os perigos representados pela China. Na verdade, os sucessos que a China vai obtendo são ampliados, no que à UE diz respeito, pela ausência de uma visão de mundo comum e duradoura por parte dos europeus. O mesmo ocorre com os limites e as oscilações da estratégia dos EUA. Para passar das palavras aos factos, nada melhor do que ler um indicador muitas vezes esquecido: o do investimento direto estrangeiro, expresso em euros, entre as três maiores potências económicas mundiais: EUA, UE e China. Se compararmos o stock do investimento direto da China nos EUA e na UE (192 mil milhões) com o valor do investimento dos EUA na UE e na China (2,66 biliões), e o montante do investimento da UE na China e nos EUA (2,63 biliões), verificamos que os EUA e a UE apresentam valores 12 vezes superiores aos do investimento chinês! O crescimento do dragão asiático tem sido um "negócio da China" para a elite dos super-ricos europeus e norte-americanos, que ganharam em todos os tabuleiros da globalização.

Se queremos ter condições para enfrentar os grandes desafios existenciais representados pela crise ambiental e climática e pelos riscos tecnológicos, teremos de ser capazes de preservar a paz, construindo um sistema de cooperação compulsória. Com os seus recursos, que continuam a ser bem menores do que os da UE e dos EUA, a China tem aumentado a sua influência global, mantendo-se, contudo, num quadro multilateral, e não se furtando às suas responsabilidades no desafio climático. Tal não tem sido o caso dos EUA. Trump introduziu uma nova categoria nas relações internacionais, a de superpotência pária. Com a agonia lenta em que a UE mergulhou desde há uma década, assistimos à permanente entropia de uma política europeia comum, face ao primado das decisões nacionais unilaterais de manter as suas quotas de exportação no mercado chinês, ou de atrair o investimento de Pequim, também para projetos de exclusivo interesse nacional. Na recomposição do sistema internacional, o comportamento errático dos EUA e a mediocridade das ambições europeias ajudam a alimentar o mito de uma futura hegemonia mundial chinesa. Não me parece que a China pretenda mais do que aquilo que pode, isto é, fazer parte de um novo diretório mundial. Um mundo com uma hegemonia unipolar chinesa é não só indesejável como totalmente irrealizável. Com muito mais meios, os EUA falharam. Estaremos sempre mais próximos da terceira guerra mundial do que do sucesso de qualquer hegemonia mundial de um só Estado. Quem se assusta com o ativismo da China deveria antes temer a caótica falta de rumo do Ocidente.

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