Premium Trazia nas mãos o calor de Agosto

Depois de ver o último filme saído das mãos de Harvey Weinstein, resta uma conclusão: qualquer sentença é pequena para o que merecia. E, claro, ainda há o Sporting.

Amesterdão, 1634. A República Holandesa vive o seu Século de Ouro. A Companhia das Índias Orientais descarrega especiarias no cais ("Noz-moscada fresquinha, acabada de chegar!"); algures, Franz Haals pinta um dos seus inúmeros Protestantes com um braço apoiado nas costas da cadeira. Um mercador próspero com o rosto de Christoph Waltz, o nome Cornelis Sandvoort e a alcunha Rei da Pimenta enfia-se na cama com a sua jovem esposa (que tem o nome Sophia e o corpo de Alicia Vikander), adquirida a um orfanato com o propósito expresso de o ajudar a produzir um herdeiro. "O meu soldadinho está preguiçoso nesta noite", explica à sua esposa órfã. "Está na hora de te apresentares ao serviço, meu caro", explica ao seu soldadinho. Não são reunidas as condições reprodutivas, pelo que o Rei da Pimenta vai antes urinar em vários penicos, numa montagem que se prolonga por mais de um minuto. Febre das Tulipas (transmitido pela TVCine 1) é um filme tão inacreditável que a Miramax foi adiando a sua distribuição por três anos, com receio legítimo de o mostrar a quem quer que fosse: acabou por ser o último projecto autorizado por Harvey Weinstein antes de se demitir, o que só pode ser interpretado como um derradeiro acto de sabotagem.

Na casa dos Sandvoort, a criada serve peixe ao patrão. "Outra vez peixe? O que é que se passa, estás apaixonada pelo peixeiro?" (Na cena seguinte, o peixeiro e a criada confessam-se apaixonados um pelo outro.) No quarto de cima, o Rei da Pimenta volta a tentar a sorte, desta vez com mais esperanças: "Acho que nesta noite o meu soldadinho está pronto."

A esposa órfã e a criada, agora muito amigas, percorrem um cenário de esferovite e contraplacado, pintado para se parecer com uma rua enlameada de Amesterdão no século XVII. É importante transmitir que o diálogo também pertence ao século XVII e não ao presente, daí que em vez de dizerem coisas como "tenho de passar pela farmácia", dizem antes coisas como "tenho de passar pelo boticário". Também vão juntas às compras ("Quero quatro costeletas por um florim, se faz favor").

No intervalo de um dos ensaios reprodutivos, o Sr. Sandvoort informa a esposa que decidiu contratar alguém para lhes pintar o retrato: "Um dos jovens artistas mais promissores de Amesterdão", garante. Pela rua enlameada, o jovem artista promissor vai trocando palavras de circunstância com transeuntes: "Quando é que pagas o que me deves?" "Em breve!" Tudo indica que o jovem artista, além de ser um dos mais promissores de Amesterdão, também atravessa dificuldades. E tudo indica que a sua entrada em cena vá trazer alguma agitação à casa dos Sandvoort. A suspeita é confirmada pela voz off: "Portanto este jovem artista em dificuldades vai trazer alguma agitação à casa dos Sandvoort." Que tipo de agitação, interrogamo-nos. "Quero que utilizes o teu pincel para capturares a minha esposa", ordena o Rei da Pimenta ao Jovem Artista Promissor em Dificuldades, invocando o espírito de Quim Barreiros.

"Febre das Tulipas" (transmitido pela TVCine 1) é um filme tão inacreditável que a Miramax foi adiando a sua distribuição por três anos, com receio legítimo de o mostrar a quem quer que fosse.

Entretanto, vive-se o furor especulativo das tulipas, mas a devastadora sofisticação económica dos diálogos vai muito além desse fenómeno: "Então como vai o negócio?" "A nossa república holandesa é a nação mais rica do mundo!" "Oferta e procura... assim são as coisas".

No quarto, ao anoitecer, mais uma tentativa. "Mais depressa, mais depressa, sua vagabunda!", reclama o Rei da Pimenta enquanto a esposa órfã faz o que pode. "Está na hora de disparar os canhões... Ai, os meus ossos estremecem até à medula, Deus me perdoe", implora desesperadamente Christoph Waltz, pobre diabo, pensando com certeza na sua carreira daqui para a frente.

O Jovem Artista Promissor em Dificuldades tem uma epifania semelhante à do peixeiro ("Estou apaixonado!"), e celebra-a desatando a correr pela mesma rua enlameada e pejada de talhantes vendendo quatro costeletas por um florim que parece ser o único cenário de exteriores disponível. Entretanto o cadáver de um afogado é extraído às águas do canal. Suicídio. Será o produtor? O realizador? Não, foi apenas outro tipo de investimento falhado: "Matou-se por causa de uma tulipa."

A esposa órfã e o jovem artista saltam finalmente para a cama. A pétala de uma tulipa tomba em câmara lenta junto a uma caveira decorativa, violando simultaneamente a Primeira e a Segunda Leis do Mau Simbolismo Cinematográfico (não ser excessivo e não ser pateta). Um segundo vendedor de peixe entra em cena para substituir o primeiro, enviado para as colónias africanas, e tenta também a sua sorte com a criada, seduzindo-a com a poesia romântica aprendida no Parque Mayer: "Quer comprar uma enguia? Tenho uma bem boa e grossa." Na cave de uma taberna, um leilão de tulipas está ao rubro. "90!" "800!" "Sois louco!" "É pegar ou largar." "Negócio fechado."

"Isto não pode continuar para sempre, pois não?", pergunta um figurante apavorado, referindo-se ao optimismo dos mercados e não, como seria compreensível, ao filme.

A esposa órfã é filmada apenas de duas maneiras: tapada com um capote enorme e a calcorrear a rua enlameada, ou completamente nua e a calcorrear o Jovem Artista Promissor em Dificuldades. "Roubaste o meu coração!", "E tu o meu!", "Minha pobre Sophia... Se fosse rico levava-te daqui."

A esposa órfã e o jovem artista saltam finalmente para a cama. A pétala de uma tulipa tomba em câmara lenta junto a uma caveira decorativa, violando simultaneamente a Primeira e a Segunda Leis do Mau Simbolismo Cinematográfico

Um plano para roubar tulipas a uma abadia corre mal quando um dos ladrões é afugentado por gansos e o outro é espancado por Judi Dench. Um segundo, mais complexo, é formulado por Sophia: ocultar a gravidez da criada, que transporta no ventre a filha do peixeiro, e simular a sua, permitindo que o Rei da Pimenta possa finalmente ter a sua Princesa da Pimenta, e que ela possa fugir com o Jovem Artista em Dificuldades.

É um plano não significativamente mais absurdo do que qualquer outra coisa que acontece no filme, e tudo corre bem até ao derradeiro obstáculo criado pelo guião: um alcoólico tem de percorrer a já familiar rua enlameada de uma ponta à outra sem se embebedar pelo caminho e sem comer a tulipa valiosa que transporta depois de a confundir com uma cebola, causando um prejuízo calculado em oito mil florins (ou cerca de 32 mil costeletas). A futura sentença de prisão de Harvey Weinstein, seja ela qual for, será insuficiente.

Na Praça da Alegria (RTP1), o aniversário da Batalha de Aljubarrota foi comemorado com uma recriação histórica em pleno estúdio. Sem qualquer guião a atrapalhar, dois homens adultos agrediram-se mutuamente perante o olhar atento de Jorge Gabriel, que de seguida entrevistou alguém apresentado como "Perito em Assuntos Religiosos", que explicou que a batalha tinha assinalado a primeira utilização de uma arma de artilharia na Península Ibérica. "Uma espécie de canhão, ou trone, como lhe chamavam." "Não estará a confundir com um drone?", questionou Jorge Gabriel, Perito em Assuntos de Armamento e Homofonia.

Na sexta-feira, uma nova passagem do cometa Bruno de Carvalho no firmamento permitiu que a CMTV destacasse a força de intervenção rápida para Alvalade, onde uma câmara esteve várias horas em directo a filmar quem entrava e saía do estádio. Uma das pessoas que saíram foi Vítor Espadinha (Perito em Assuntos de Vítor Espadinha), que se materializou primeiro como um braço exaltado assomando do lado esquerdo do ecrã, depois como uma camisa heroicamente aberta até ao terceiro botão. Trazia nos olhos a luz de Maio, nas mãos o calor de Agosto, e na voz a indignação de Janeiro, Fevereiro e Março, pelo menos. Os seus ossos estremeciam até à medula. O seu soldadinho parecia pronto. "Eu com 80 anos mando duas bofetadas nesse cabrão. Mando-lhe duas bofetadas com 80 anos. Sou sócio há 65 anos, estou cansado desta merda!" Foram dois minutos épicos, repetidos várias vezes ao longo do dia e reproduzidos por outros órgãos de comunicação social. Oferta e procura: assim são as coisas.

Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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