Diogo Mateus: "A região centro do país precisa de um aeroporto"

Diogo Mateus despede-se neste ano da presidência da câmara de Pombal ao fim de dois mandatos, pois diz que 28 anos de vida política são suficientes. Acredita que o PSD vai continuar a liderar a autarquia, o que acontece desde 1994. Não votou em Rui Rio, mas elogia a sua liderança. E defende que a região centro precisa de um aeroporto internacional..

Como é que a Câmara de Pombal fez face à pandemia?
De um modo geral, os municípios portugueses têm estado muito atentos ao assunto e têm sido muito equilibrados na afetação de recursos para este problema. Se numa primeira lógica houve mais preocupação de acudir a situações mais prementes, eu acho que o trabalho mais importante que se faz agora é o preventivo. Em termos práticos, a nossa intervenção não foi muito diferente daquela que fizeram o resto dos municípios portugueses. Criámos também, no início do período pandémico, um gabinete de crise que todas as manhãs se reunia e fazia uma avaliação de um conjunto de indicadores para percebermos a afetação familiar e empresarial que a pandemia estava a ter. Diariamente avaliávamos as modificações ou as oscilações que existiam, por exemplo, na entrega de lixo, precisamente para percebermos se havia alterações radicais nos níveis de consumo. Isso era um indicador que nos permitia, caso acontecesse - felizmente não aconteceu -, perceber em que sítios e por que razões podiam estar estes episódios. Havia aqui uma linha onde se houvesse oscilações superiores a 7,5% nos fazia disparar esses indicadores para irmos à procura das causas. Felizmente, isso nunca aconteceu.

Que projetos é que a câmara tem em curso? Tiveram de suspender algum projeto por causa do investimento na pandemia?
À segunda pergunta digo-lhe que não. Nós encerrámos o ano de 2020 com um dos melhores níveis de execução nos últimos dez, 15 anos. Estamos a falar de níveis de execução acima dos 85% da despesa e mais de 100% da receita. Foi um ano que, nesse aspeto, correu muito bem com um atingimento de níveis muito significativos da execução do nosso Plano de Atividades Municipais, no Plano Plurianual de Investimentos. E isto significa que lançámos obras. No ano de 2020, só no saneamento lançaram-se quatro grandes obras que ultrapassarão seis milhões de euros, sem financiamento comunitário garantido, tivemos de nos socorrer de financiamento bancário. Também os investimentos no que diz respeito à educação, esses com comparticipação comunitária - seja para preparar a receção das competências da administração central para a local em termos educativos, seja na adequação e na conclusão da rede dos polos escolares. Todas as empreitadas foram lançadas e estão a decorrer dentro dos calendários estabelecidos.

No início de março foi criado no Facebook um grupo chamado Aeroporto do Centro - Pombal e que já conta com cerca de 30 mil inscritos. Numa altura em que se fala de um novo aeroporto, o que acha da possibilidade de este ser na zona de Pombal? O presidente da Câmara de Coimbra encomendou um estudo sobre qual seria a alternativa mais viável a Monte Real e o resultado, segundo Manuel Machado, aponta para a área de Condeixa, Soure e Pombal.
Nunca tivemos dúvidas sob o ponto de vista do desenvolvimento na zona centro do país, que estava ostracizada, da importância de um aeroporto que tivesse ligações internacionais. Acho que o problema se pôs sempre nas opções políticas. Desde logo, pela forma como inicialmente foi feita a concessão da ANA. No princípio, a área de influência eram 140 quilómetros, o que significa que a influência do Aeroporto Sá Carneiro e do aeroporto de Lisboa deixava de fora todo o centro do país, exceto o interior, onde manifestamente isso não se colocava. As questões de Fátima, Coimbra e toda a parte turística do centro do país, também do ponto de vista empresarial, por si só, justificavam-no. E já nem vamos falar daquilo que é a emigração que esta zona do país tem. Eu não sei a quem é que interessa a criação de sugestões de alternativas de localização deste aeroporto. Mas vou dizer-lhe quem é que lucra com isso. Lucram aqueles que não querem decidir. Os que não querem decidir, quanto mais polémica houver sobre Monte Real ou outro sítio, facilmente dirão "os senhores que aí estão façam o favor de se entender, porque depois de se entenderem é que nós podemos tomar uma decisão". Não deixa de ser curioso como é que num país que vai revogar, ou já revogou, os pareceres vinculativos que os municípios tinham de dar relativamente à localização de aeródromos e de aeroportos, haja aqui tanto desinteresse. Não deixa de ser estranho que estas manifestações sejam mais do território do que da administração central, quando são mais competências da administração central do que do território. A região centro do país precisa de um aeroporto, acho que ele se justifica. Não acho que uma opção destas tenha de ser feita na lógica de território A ou território B ou território C, tem de haver aqui uma localização que seja adequada para o propósito que o equipamento deve servir. Se for em Pombal está bem em Pombal, se for metade em Pombal metade em Soure também continua a estar bem, se for metade em Pombal e metade em Leiria também está bem, se for só em Leiria também está bem, se for só em Condeixa também não está mal. Portanto, acho que este deve ser um critério. E esse é um critério do interesse do nosso país, não é um interesse da minha terra, porque isto não deve ser uma infraestrutura que deva ser vista com essa mais pequena dimensão. Não consigo compreender qual é a teimosia de Monte Real. Há imensos espaços europeus em cidades muito maiores do que Leiria que conseguem ter operação militar com operação de meios aéreos de apoio a fogos florestais e de meios de aviação civil. Não sou especialista na matéria, mas acho que a principal questão é ninguém querer decidir. Acho que, pelo menos, a administração central devia não impedir. Se não impedisse já seria um bom apoio que daria à região centro, dizendo assim "olhe, nós não pomos aqui um tostão, arranje investidores privados, faça disso infraestrutura municipal, concessione". E digo-lhe o seguinte: a vender os combustíveis e a arrendar os espaços para lojas, mais a concessão, garanto-lhe que não era por questões financeiras que ele seria inviável. A partir daqui, é falta de vontade.

Que balanço faz dos seus dois mandatos à frente da câmara?
Os resultados dos meus dois mandatos falam por si. Tive o privilégio de acompanhar a vida deste município nos últimos 28 anos - seja como vereador, seja como presidente de junta, seja como vice-presidente da câmara, seja como presidente nos últimos anos - e isso também me dá uma oportunidade de ao sair daqui perceber como é que nos outros locais as coisas se têm desenvolvido. Tenho muito orgulho no trabalho que os pombalenses fizeram durante estes 28 anos e os patamares que nós alcançámos. Faço um balanço positivo, de muito trabalho, de muitas pessoas, de uma belíssima articulação, e espero que isso continue no futuro, independentemente do projeto político que venha a ganhar. E que estes valores sejam valores superiores e que suplantem às vezes algumas lógicas partidárias mais mesquinhas e menos focadas no interesse de todos.

O que o levou a não se recandidatar a um terceiro mandato? Alguma imprensa local fala na existência de uma "guerra surda", uma "paz podre" entre si e o PSD-Pombal, que é liderado por Pedro Pimpão, o candidato do PSD à autarquia.
Olhe, 28 anos de vida política parece-me tempo suficiente. Não me interessava de todo ficar à espera de sair da câmara porque não podia fazer mais nenhum mandato e, portanto, também acho importante este desprendimento. Acho que os cidadãos devem também perceber, e sem prejuízo do empenhamento e da devoção que a vida de cada um de nós possa ter para a causa pública, que ela também tem de ser temperada. A Câmara de Pombal nos últimos 40 anos teve seis presidentes - dois saíram porque perderam eleições, um saiu porque morreu, outro saiu porque não podia fazer mais mandatos, e só um é que tinha saído pelo seu pé. E eu achei que também devia sair pelo meu próprio pé. Nunca se pôs essa questão sob o ponto de vista da confiança do PSD no meu trabalho e nos resultados que nós alcançámos. Foi uma opção pessoal. Que deve ser boa, porque as pessoas que gostam muito de mim ficaram muito contentes e as que me detestam também ficaram contentes.

Portanto esta questão da "guerra surda" e da "paz podre" entre si e o PSD-Pombal são expressões manifestamente exageradas?
Não. Posso dizer-lhe que como num bom cabaz de fruta há sempre fruta podre.

O que tem a dizer sobre Pedro Pimpão, o candidato do PSD à câmara? Acredita que o PSD vai segurar a autarquia, que desde 1994 é liderada por sociais-democratas?
Que o PSD ganha as eleições, não tenho dúvida rigorosamente nenhuma de que é isso que vai acontecer. O PSD tem todas as condições para ganhar as eleições autárquicas e até de aumentar o número de freguesias, que são hoje dez governadas pelo PSD em 13.

E o que é que tem a dizer sobre o Pedro Pimpão? Vai ajudar a aumentar o resultado do PSD? Ou o PSD ganha de qualquer maneira em Pombal?
Não, isso seria um desprestígio até para a inteligência dos nossos eleitores. Acho que as expectativas que existem sobre a candidatura do Pedro Pimpão devem e vão dar-lhe muito trabalho para ele poder mantê-las ou até ampliá-las. Deus o ajude para que isso corra da melhor forma possível. Porque as expectativas são muitas.

Ainda não me disse o que é que acha dele...
Não faço comentários sobre candidato nenhum.

Como analisa a liderança de Rui Rio?
Acho que está minada por um conjunto de interesses particulares de alguns movimentos que têm destruído o PSD e que vão dar cabo dele. Com nomes, com pessoas que não reconhecem essa autoridade e que estão sistematicamente empenhadas em fazer-lhe oposição. Fala-lhe um militante que não votou no doutor Rui Rio nas últimas eleições. Mas tenho de reconhecer que, internamente, gente que devia ter um bocadinho mais de responsabilidade se lhe pedia que fossem democratas ao ponto de aceitar as governações, perceber que há tempos para prestarem essas contas e tempo para esperar os respetivos resultados. E acredito que possa haver, por mais que isso possa custar a ouvir às pessoas, alguns militantes do PSD que estão desejosos que a vida corra mal ao doutor Rui Rio. E isso mostra-me uma faceta do meu partido, que acho que existe em todos, onde há um interesse de grupelho que pensa que é mais importante do que o interesse do país. E isso deixa-me muito preocupado, porque remete para um nível ainda pior do que aquele em que hoje nós sentimos que está a política portuguesa em geral. Acho que essas gerações deviam dar exemplos mais positivos. Como calcula, há gente com quem eu não me quero dar. E quando a gente não se quer dar sai de cena quem não é de cena.

Acha que Rui Rio tem potencial para ser primeiro-ministro?
Acho que com as provas dadas ao longo de anos de atividade pública na primeira linha ninguém tem dúvidas disso. Espero que as autárquicas corram bem, essa foi uma meta que o próprio instituiu como essencial para que as coisas se apresentem de forma diferente. Agora, parece-me perfeitamente inequívoco que o Partido Socialista está esgotado. A solução governativa e as alterações que tivemos mais recentemente mostraram-nos um PS que não tem chama, que faz uma navegação meramente à vista. Os problemas principais do país, embora se apregoem saldos orçamentais excelentes, estão todos por resolver.

Este é um adeus à vida política ou um até já?
Não sei. Imagine que se conjugam um conjunto de pessoas e de projetos francamente entusiásticos e que podem valer a pena pensar nos assuntos. Logo se verá. Nesta altura, confesso que não vejo nenhum que me deixe particularmente interessado. Portanto, tenho de fazer aquilo que os cidadãos fazem, que é tratar da vida deles.

ana.meireles@vdigital.pt

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