Obelisco do Templo, a obra faraónica que está a causar polémica em Oeiras

Júlio Quaresma, o artista responsável pelo monumental empreendimento no Parque dos Poetas, explica em detalhe os elementos simbólicos do mesmo e desmente qualquer favorecimento por parte da câmara municipal.

André Cruz Martins
© PAULO SPRANGER / Global Imagens

O Obelisco do Templo, obra faraónica com 17,59 metros, foi inaugurado no passado dia 25 de abril no Parque dos Poetas, em Oeiras. As redes sociais têm sido um campo de batalha entre aqueles que elogiam a monumentalidade do empreendimento e os que o criticam. Na base dos comentários negativos estão razões estéticas, mas também o valor pago pela Câmara Municipal de Oeiras, alegadamente 600 mil euros.

Júlio Quaresma, arquiteto, escultor e pintor, foi o responsável pela obra. Ao DN, garante que esse não foi o valor que cobrou pela obra. "Esses números estão incorretos. O seu valor real, incluindo impostos que são pagos diretamente ao Estado Português e que aqui correspondem a mais de cem mil euros já foi divulgado, inclusive pelo presidente da câmara, Dr. Isaltino Morais, e ainda assim é um valor inferior aos tais 600 mil euros", refere.

Em entrevista à SIC, Isaltino Morais garantiu que "o investimento no obelisco foi de 485 mil + 112 550 € de IVA, num contrato que é público", garantiu o autarca. Ou seja, um total de 597 550 euros.

Refira-se que a encomenda do obelisco não foi fiscalizada pelo Tribunal de Contas (TC) devido ao novo limiar decorrente da alteração do artigo 48.º da Lei de Organização e Processo do Tribunal de Contas, que estabelece 750 mil euros como valor acima do qual existe obrigação de sujeição a fiscalização prévia.

"Devemos ponderar que a obra envolveu um processo de conceção e de execução de uma peça com mais de 21 metros de altura, forrada a granito vermelho e negro, gravado, mas que incluiu também todos os arranjos exteriores da área envolvente, desde pavimentos a muros em betão forrados a pedra e aço corten gravado e incluindo as áreas verdes", realça Júlio Quaresma.

O conceituado artista plástico de 63 anos garante não se sentir melindrado com a chuva de comentários negativos que tem inundado as redes sociais. "A crítica e o elogio são atitudes fundamentais nas relações sociais e necessárias face a qualquer intervenção pública. Não nos podemos esquecer de que espaços como o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, na altura em que foi construído, foi alvo inclusive de abaixo-assinados, ou que Victor Hugo se recusava a comer virado para a Torre Eiffel. Claro que não pretendo a comparação, apenas uso a história para justificar que a crítica é essencial e sempre existirá", sublinha.

Júlio Quaresma desmente ainda que tenha recebido cerca de 1,1 milhões de euros da Câmara de Oeiras pela adjudicação direta de quatro obras ao longo do último ano e meio - uma peça de homenagem à poetisa angolana Alda Lara, duas peças para a Cidade do Futebol e, claro, o Obelisco do Templo. "Mais uma vez esse valor não é correto, misturando-se obras em concurso com adjudicações diretas. Esses quatro trabalhos correspondem a uma obra de 2018, outras duas de 2019 e 2020 e agora o obelisco, sendo que durante este período outros escultores apresentaram obras em Oeiras", realça.

"No Parque dos Poetas, a escolha dos escultores para executarem as peças representando os poetas da lusofonia, para lá da dimensão do mesmo, assentou no facto de serem conterrâneos do poeta em questão. Assim, por ser natural de Angola e ter uma carreira internacional na área das artes plásticas, fui contactado para apresentar uma proposta para a representação escultórica da poetisa angolana Alda Lara, que foi aceite pela sua qualidade artística", detalha. Em 2019, relativamente às esculturas das Rotundas da Cidade do Futebol, garante que "houve um concurso de conceção e execução, para cada uma das rotundas e para o qual foram convidados vários escultores, que apresentaram propostas", tendo a sua sido aceite.

Simbolismo que remete para a história de Oeiras

Voltando ao Obelisco do Templo, Júlio Quaresma explica que se trata de uma obra com grande simbolismo. "É uma peça comemorativa da poesia e da escultura da lusofonia, mas também do urbanismo enquanto espaço de usufruto de uma comunidade, representando a democratização da própria cultura." E sublinha ainda o seu carácter pedagógico, "porque está posicionada no Parque dos Poetas, num espaço único no mundo com 25 hectares e que é o maior parque escultórico dedicado à poesia, neste caso de língua portuguesa".

O escultor lembra ainda que o 25 de Abril "é uma data de referência e da maior importância no caminho da democracia, mas também da identidade e da tolerância". Por isso, numa altura em que Oeiras se candidata a Capital Europeia da Cultura em 2027, entende tratar-se "da altura ideal para inaugurar um objeto que conclui um espaço de memória, cultura, sabedoria, integração e diversidade, mas também de lazer e felicidade, que foi pensado para usufruto de todos".

Júlio Quaresma diz ainda que "o parque em si é o templo de memória da escrita e o obelisco, em homenagem a todos os que contribuíram para a existência deste parque, sobretudo poetas, escultores, mecenas, construtores e fabricantes, sempre foi pensado como o culminar do processo do Parque dos Poetas, que nascido do sonho nunca se dissociou do amor à cultura".

Por outro lado, a altura do obelisco remete para o ano de 1759, quando a 13 de julho, o concelho de Oeiras foi constituído por carta régia. A altura é dez vezes maior do que a sua base. E o número 10, segundo a cabala, é a primeira dimensão da Árvore da Vida.

Júlio Quaresma explica ainda que foi usado granito vermelho "porque é a pedra mais dura que os humanos utilizam na construção, simbolizando a força, a resiliência, a resistência e a durabilidade". Por outro lado, diz que "o vermelho é a cor da paixão e da energia mas também a chama que mantém vivo o desejo e a vontade".

O simbolismo prossegue no facto de os cinco degraus corresponderem às cinco freguesias atuais do concelho de Oeiras. Nesses degraus, o Espelho tem 144,8 mm de altura, ou seja, o ano em que através da carta de privilégio foi concedido aos lavradores o estatuto de reguengo e o Cobertor dos mesmos 19,37 cm, a data em que foi fixado o terceiro e último brasão de Oeiras. "Na realidade são muitos os elementos da história de Oeiras que se escondem em cada detalhe desta peça", sublinha o escultor".

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