Uma só via: social-democracia

Se o PSD quer voltar ao poder, se quer recuperar as autarquias que tem perdido em catadupa, não lhe resta outra alternativa que não seja posicionar-se ao centro. Por uma razão muito simples: é lá que está o eleitorado que o PSD pode conquistar.

As eleições internas no PSD têm sempre muito mais debate ideológico do que as de qualquer outro partido português. A razão é simples: o partido alberga muitas tendências e é, já se sabe, muito plástico, estando sempre muito dependente das convicções de quem conjunturalmente o lidera. É claro que tem um conjunto de princípios que vêm da sua fundação e de práticas que o formataram, mas mesmo o seu tecido social de apoio tem-se alterado ao longo dos tempos.

O debate ideológico é, claro está, limitado mas, ao contrário do que se diz, inevitável. Ficou convencionado que nada de ideologicamente muito relevante separa Luís Montenegro de Rui Rio.

Aceitemos que a coexistência no partido, ganhe quem ganhar, não está em causa e não parece que nas grandes questões estejam de costas voltadas. Mas a questão de um querer conquistar a direita vindo do centro e o outro querer conquistar o centro vindo da direita não é exatamente uma opção diferente de caminho indicado por um qualquer GPS.

O posicionamento político não é semântica. Se um partido se quer colocar ao centro não pode defender opções políticas de direita pura e dura. Para dar alguns exemplos, não defenderá o plafonamento da segurança social, a privatização da RTP, uma maior flexibilização da lei laboral ou uma diminuição do número dos escalões do IRS. O mesmo se pode dizer se quiser conquistar eleitorado a partir da direita, as opções terão de ser diferentes.

Ora, isto pressupõe escolhas que vão para além do pragmatismo.

Aliás, a conversa apalermada de criar um espaço não socialista, que alguma gente repete como se fosse um mantra, não quer dizer rigorosamente nada. Mas tem um efeito claro: é uma extraordinária contribuição à hegemonia política e cultural da esquerda. Mais uma vez, não se constrói alternativa nenhuma e apenas se define um campo por oposição ao outro. Aliás, esse exercício tem tido concretizações que atingem verdadeiros delírios de estupidez do género "por muito que esteja certo, se eles dizem isto, nós dizemos o contrário".

Mais, estes movimentos organizados em redor do Observador e que pugnam pela reorganização da direita não passam de tentativas de destruição do PSD. Não é em vão que se instalou o pânico entre os colunistas desse jornal por ser possível uma vitória de Rui Rio. Uma guinada violenta do PSD à direita conduziria o partido à irrelevância e seria muito mais fácil criar uma reconstrução do espaço sob a égide dos intelectuais alt-right à portuguesa lá sediados.

Se o PSD quer voltar ao poder, se quer recuperar as autarquias que tem perdido em catadupa, não lhe resta outra alternativa que não seja posicionar-se ao centro. Por uma razão muito simples: é lá que está o eleitorado que o PSD pode conquistar.

Basta olhar para o resultado das últimas eleições para perceber que poucos ou muito poucos existem à direita para ir buscar e, mesmo que existissem muitos, tentar captá-los destruiria a possibilidade de fazer um discurso para onde está a grande maioria.

Um PSD encostado à direita entregaria o poder por muitos e muitos anos ao PS. Foi o passismo direitista tardio que construiu a geringonça e que depois entregou o centro ao PS.

Os votos de que o PSD precisa estão no PS, naqueles a quem não agrada o namoro entre socialistas e comunistas e bloquistas, mas que não veem no PSD uma alternativa credível e, claro, na abstenção.

O PS ganhou as eleições com um discurso centenista, ou seja, de centro. Contas certas (austeridade dita de maneira mais delicada), autoridade com ordens profissionais e sindicatos, sem aceder a pedidos de nacionalizações e disparates similares e colados à Presidência da República.

A porosidade significativa no nosso sistema partidário está entre o PS e o PSD (e será tanto maior quanto menor for a do PS com o BE), porque muito simplesmente são os partidos ideologicamente mais próximos e que construíram a democracia portuguesa.

Um dos desafios do próximo líder do PSD é pôr em causa o centrismo do PS, obrigar os socialistas a definir-se, ou seja, a renunciar à sua história de partido que se opunha aos desvarios esquerdistas e colar-se ao BE e ao PCP e mostrar que, neste momento, a única força moderada é o PSD. O facto é que quanto mais o PS se encostar ao BE e ao PCP mais o PSD tem hipóteses de crescer. Por outro lado, isolar o PS face à sua esquerda mostrará que não consegue governar ou, no mínimo, fazer reformas relevantes.

Na atual conjuntura, a capacidade do PSD de fazer oposição apresenta várias possibilidades e é mais fácil do que no ciclo anterior.

E dentro da tarefa de conquistar o eleitorado do centro está algo que uma linha do PSD acha um erro: a colaboração para reformas. Ou até algo mais singelo, votar a favor propostas de onde quer que venham desde que se pense serem boas para o país. A cegueira de quem vive dentro do partido chega a causar espanto. A conversa de que do outro lado estão os inimigos será boa para eleições internas mas não para as que decidem o futuro do país. As pessoas querem boas políticas e elogiarão quem as aprova e criticarão quem as reprova.

A missão de quem ganhar a liderança do PSD não se resume ao posicionamento político, longe disso. O partido precisa de atrair gente com qualidade, de ter bons candidatos às autárquicas (eleições decisivas), de desenvolver pensamento, de ter posições pensadas e não reativas, mas ter uma estratégia clara de ataque ao centro político é condição sine qua non para a manutenção do partido como pilar fundamental da nossa democracia.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG