Manuel Freire: "Ter um trabalho deu-me sempre grande liberdade"

Numa aldeia perto de Óbidos, Manuel Freire vive retirado do espaço mediático, como sempre. Mesmo nos tempos em que a Pedra Filosofal o catapultou para o maior êxito. Amanhã, celebra 50 anos na música num concerto no Fórum Lisboa.

Nascido a 25 de abril de 1942, faz parte de uma geração de músicos de intervenção nem sempre lembrada. Ao contrário da maioria, optou sempre por manter o trabalho como operador informático, numa metalúrgica de Ovar. Foi essa a âncora a que sempre se agarrou, sem depender das modas na música. Hoje ouve pouca música. Mas neste domingo é ele a figura de um concerto de homenagem, no Fórum Lisboa, organizado pela Associação José Afonso (AJA).

Em 1968, Manuel Freire editou o primeiro EP - Manuel Freire Canta Manuel Freire. É para assinalar esses 50 anos que a AJA promove o concerto no domingo, 18 de novembro, pelas 17.00, com músicos e grupos convidados. A segunda parte será preenchida integralmente por Manuel Freire, acompanhado pelo Trio de João Paulo Esteves da Silva (piano), Diogo Alexis (contrabaixo) e Samuel Dias (bateria).

Como veio parar à aldeia A-dos-Negros, aqui em Óbidos?

Eu estava na Vieira de Leiria. Vivi lá 12 ou 13 anos. Entretanto os nossos filhos (que são cinco, os meus e da minha mulher) viviam todos em Lisboa. E nós pensámos que gostaríamos de nos aproximar deles, e que seria difícil fazê-los mudar para mais perto. Nós é que tínhamos de mudar. Foi quando a minha mulher descobriu esta casa, que estava em construção. Achámos-lhe graça.

Quer dizer que não tinha aqui ligação nenhuma?

Nenhuma. Na altura, a minha mulher tinha uma casa para vender, em Viana do Castelo, que era do pai. Eu tinha uma que era dos meus avós, há uma data de anos, baixei o preço e vendi-a, e foi assim que comprámos esta, onde estamos e onde vamos ficar.

É aqui que se sente bem?

Sim, tenho um espaço bestial. Um pomar, um jardim, dois cães enormes...

Quando falámos a primeira vez ao telefone para marcar esta entrevista, disse-me que estava em ensaios. Só depois percebi que era já para o espetáculo de domingo, no Fórum Lisboa, em que lhe vão prestar um tributo...

É...

Como encara esse gesto da Associação José Afonso?

É um gesto de carinho. Não me sinto muito confortável porque não gosto muito dessas coisas. Mas eles resolveram fazer e eu aceitei. Também não me valia de nada não aceitar...que eles iam fazer à mesma.

Teve sempre uma vida muito discreta, o Manuel Freire, pese embora todo o êxito de algumas canções.

Sim, mais ou menos. Eles descobriram que fazia 50 anos o meu primeiro disco e utilizaram o pretexto.

Quando faz 50 anos exatamente a edição de Não Há Machado Que Corte?

Não sei. Só sei que é neste ano

Que idade tem agora?

76.

Nasceu em 1942, num dia 25 de Abril...

É verdade.

Nasceu em Vagos, distrito de Aveiro. Guarda memórias da sua infância por lá?

Passei só um bocadinho da minha infância. Os meus pais eram professores primários. Na altura estavam lá ambos colocados. Tanto eu como o meu irmão - que era sete anos mais velho - nascemos lá. Mas eu tinha apenas 3 quando fomos embora. Não tenho grandes memórias.

Tem mais de Ovar?

Sim, claro. Era a terra da minha mãe, por isso fomos para lá.

E é essa que considera a sua terra?

É a minha terra, sim. Foi lá que andei na escola, no colégio, foi lá que aprendi a nadar...

...e a tocar guitarra, quando é que aprendeu?

Praticamente nunca aprendi, toco muito mal... mas tinha 12 ou 13 anos. O meu pai decidiu dar-me uma viola porque, pelos vistos, eu andava sempre a cantarolar. Então o meu pai comprou uma viola usada a um primo nosso, um sobrinho dele, e deu-ma. E ensinou-me o que sabia, que era pouco.

Andava sempre a cantarolar o quê, lembra-se?

Vagamente. O que passava na rádio...

E quando é que se cruza com a poesia de António Gedeão?

Foi nos anos 1960. Em 1962 vou para Coimbra, sou caloiro nesse ano tão conturbado, de grandes perturbações académicas. O Zeca já lá não estava...

Foi estudar o quê?

Engenharia Química.

Mas nunca chegou a acabar o curso?

Não, não acabei. Na altura, em Coimbra, faziam-se os preparatórios, que eram os dois primeiros anos. O ano foi muito complicado do ponto de vista académico, com manifestações e cercos de polícia constantes. E no fim do ano o meu pai mandou-me retirar. Era muito forrobodó e pouco estudo. Depois passei para o Porto. Mas a meio do ano letivo fui intimado a cumprir o serviço militar, que era uma técnica muito usada. E depois já não acabei.

Então o que foi fazer depois?

Fui trabalhar. Entretanto o meu pai morreu, quando eu estava no serviço militar. E para a minha mãe era um esforço muito grande, do ponto de vista económico, manter-me a estudar. O meu irmão já estava encarreirado, era aviador. Foi para a Academia Militar. Então candidatei-me a uma grande empresa metalúrgica em Ovar. Fiz testes psicotécnicos, acharam que eu servia para uma coisa que ainda não e chamava informática, mas que viria a ser.

Na altura era operador de computadores?

Sim, era isso. E trabalhei nessa função durante mais de 20 anos.

E isso fez de si informático?

Hoje não. Mas durante muitos anos fui, e gostava daquilo.

Mas esses primórdios da informática deram-lhe competências para lidar com este tempo, de tanta tecnologia?

Não. Era uma maneira de ver a informática completamente diferente. Nós programávamos tudo, não havia programas feitos. Nesse tempo os computadores eram uns armários, umas coisas gigantes, e muito pouca gente lidava com eles. A empresa onde eu trabalhava era uma metalúrgica muito grande, com mais de mil operários. Naquela secção fui operador, coordenador, analista, e nos últimos anos fui chefe do centro, dirigia mais de 30 pessoas.

E trabalhou lá até quando?

Até aos anos 1980. Depois divorciei-me. E fui para Vieira de Leiria.

Foi nessa altura que começou a trabalhar na fábrica de limas?

Sim, fui para a Tomé Feteira.

Com a mesma função?

Não, como diretor comercial. Porque entre uma coisa e outra estive durante três anos na exportação.

E simultaneamente sempre a cantar.

Sim, fui sempre gravando discos.

Ia contar-me há pouco quando e como se cruza com a poesia de Gedeão...

Sim, nos anos 1960. Eu sempre li muita poesia, desde miúdo.

Mas o que é que António Gedeão tinha de tão especial que o cativou dessa forma?

A poesia dele tem um ritmo próprio. Para já, é extremamente clara. Não é daqueles poetas que a gente tem de ler o poema três vezes para perceber o que eles querem dizer. Isso não os torna nem piores nem melhores, torna-os diferentes. O Gedeão não: lê-se à primeira e percebe-se o que quer dizer. E como tem um ritmo, torna mais fácil musicar as coisas. De maneira que foi isso que eu descobri.

...e que acabou por mostrar, nos anos 1960, no programa Zip Zip.

Sim, mas nessa altura já tinha dois discos gravados.

Já tinha gravado o Livre (Não Há Machado Que Corte), é isso?

Sim, é esse mesmo que faz agora 50 anos.

Quer dizer que nessa altura já fazia concertos?

Mais ou menos. Aos 14,15 anos comecei a cantar no colégio.

Cantava o quê?

As coisas que aprendia na rádio. Canções brasileiras e francesas.

De quem?

Era muito samba-canção e muitas de expressão francesa, que também passavam na rádio.

Quem eram os seus cantores preferidos?

Um que me acompanhou sempre era o Jacques Brel, que considero o papa da música. O suprassumo. Tive uma pena imensa de não o ter visto ao vivo. Estive uma vez em Bruxelas quando ele estava a atuar, mas não havia bilhetes.

E entre os brasileiros, quem eram - ou são ainda - as suas referências?

Muita gente. Dalva de Oliveira, Jair Rodrigues, Elis Regina, que tive a sorte de ver em Lisboa no Monumental. Assim como vi Ella Fitzgerald e Duke Ellington. Foi lá também que vi Aznavour, Bécaud.

E então cantava nas festas da escola as canções que ia ouvindo na rádio?

Sim... e para os amigos também. Quando fui para Coimbra tomei consciência de que a música servia para outras coisas.

Que a cantiga era uma arma?

Sim. O Zeca já lá não estava, como disse, mas andava por lá o Adriano [Correia de Oliveira], que nunca cheguei a encontrar. Nós tínhamos um mês de diferença de idade... ganhei essa consciência mas nunca cantei muito em Coimbra.

Porquê? Porque era caloiro?

Porque eu não cantava fado. Inscrevi-me nos organismos académicos quase todos que era para poder sair à noite. Porque os caloiros não podiam andar à noite a não ser que viessem de um ensaio de um organismo académico. De maneira que eu era do Orfeon, do CITAC, do TEUC, de tudo... e assim todas as noites podia andar na rua com o cartão dos ensaios, o que me permitiu escapar sempre às trupes. Nunca me apanharam. Uma noite, fizeram-me uma espera à porta de casa e eu dormi em casa de um vizinho. Nessa altura, fui descobrindo poetas e fui fazendo umas cantigas. Um dia, estava em Ovar a cantar com uns amigos e um primo meu tinha levado um amigo, que já tinha feito umas cantigas até para a Amália, o Miguel Oliveira. E ele perguntou-me "então você não gostava de gravar um disco?" Ficou de falar com um outro amigo em Lisboa, que era o Jorge Costa Pinto. E lá gravei o disco Não Há Machado Que Corte, e depois outro.

...e os discos começaram a passar na rádio. Foi assim que os autores do Zip Zip o descobriram?

Sim, foi isso. Estava em formação um movimento dos baladeiros. Eles acharam graça e convidaram-me para ir à televisão, eu tinha feito a Pedra Filosofal e foi aquilo que fui cantar.

E foi o seu maior sucesso, até hoje.

Parece que sim

Pedem-lhe sempre que a cante em todos os concertos?

Que remédio...

Não se cansa de a cantar?

Eu procuro interpretar aquilo de maneiras diferentes... para não me cansar. Mas às vezes gostava de que me pedissem outras coisas.

A Pedra Filosofal tornou-o conhecido do público, deu-lhe notoriedade. Como conseguiu sempre conciliar a sua vida profissional na metalúrgica com a música?

É verdade que nesse tempo houve mais convites, havia possibilidade de fazer muitos espetáculos, mas eu nunca quis largar a profissão porque via grandes dificuldades de sobrevivência nos meus amigos e colegas que se tinham dedicado exclusivamente à musica. Foi por isso que preferi ficar sempre com uma âncora, que era o meu trabalho. O que me deu sempre uma grande liberdade do ponto de vista musical, pois assim podia cantar para quem quisesse, nas condições que quisesse.

Ainda assim recebeu a visita da Censura, não raras vezes.

Sim, algumas...

Ainda hoje se conta a maneira airosa como falou dela no concerto de 29 de março de 1974, no Coliseu, semanas antes do 25 de Abril.

Sabe que a Censura foi duplamente estúpida. Além de me proibirem uma data de coisas, proibiram os últimos versos de um poema do José Gomes Ferreira, que é a Dulcineia, um poema sobre a mulher, e que termina dizendo "Dulcineia, Dulcineia, deixe de ser ideia e torne-se a carne e a alma da nova luta". A luta era pelos direitos da mulher. Então eles disseram que eu podia cantar aquilo, com exceção dos últimos versos. Isso era uma cretinice. Ou cortavam a cantiga toda ou não cortavam nada.

Quando chegou ao palco o que disse?

Resolvi cantar aquela de propósito. E disse ao público: como sabem, vim de comboio, com a janela aberta, voaram uns papéis e não tenho a letra toda... claro que o público percebeu. E cantaram eles os versos comigo. Aqueles que eu não podia cantar...

E nesse 25 de Abril onde é que estava?

Estava em casa. Fui acordado por um telefonema de um amigo a mandar-me ouvir a rádio, que tinha acontecido qualquer coisa em Lisboa. Levei o rádio para o escritório. Nesse tempo eu vivia mesmo por trás da fábrica, o que era uma chatice porque sempre que havia alguma coisa o guarda ia bater-me à porta... e desde esse dia nunca mais deixei de ter um rádio no trabalho. Fui acompanhando as notícias. À noite reunimos os amigos todos em minha casa e distribuímo-nos em postos de escuta. Alguns ouviam a BBC, outros o rádio português de Miramar, e na sala fazíamos daquilo um posto de comando e íamos trocando informações. Quando já tínhamos a coisa mais ou menos definida, era quase meia-noite e toca o telefone. Por acaso fui eu a atender. Era o meu irmão. Que só me perguntou: "Então pá, gostaste da prenda?" Ele também estava metido no golpe.

O Manuel viveu intensamente essa viragem toda. Passados estes anos todos, o que é correu mal, na sua opinião?

Houve muita coisa que correu mal. Não era isto que a gente esperava, que tínhamos na ideia. O país está melhor, incontestavelmente. As pessoas que dizem "quem me dera o Salazar" é porque não fazem ideia nenhuma do que era, como se vivia. Ou seja, o país está muito melhor, não está é tão bom como gostaríamos. Há uma corrupção muito grande, há muito oportunismo.

A única militância política que lhe é conhecida foi no MDP. Nunca mais nenhum partido o convenceu?

Esgotei aí a minha militância. E, depois, prezo muito a minha liberdade. É como estava a dizer há pouco: o facto de ter tido uma profissão que me garantiu o sustento deu-me muita liberdade do ponto de vista musical. Ainda hoje vou cantar onde me apetece.

E aceita os convites de quem quer.

Tanto vou cantar de borla como peço um cachê. É conforme.

E atualmente canta mais de borla ou com cachê?

Mais de borla. Há poucos convites pagos. As câmaras de vez em quando ainda contratam, no 25 de Abril, por exemplo.

Mas são sempre coisas mais intimistas.

É o do que eu gosto. Salas com 200 pessoas é o ideal.

Depois de se reformar, há cerca de dez anos, não equacionou dedicar-se mais à música?

Não. Eu tive uma dedicação profissional muito intensa, que me deu cabo da saúde, na Sociedade Portuguesa de Autores. Tinha saído da Tomé Feteira, que estava a caminho da extinção, estava em casa sossegado quando me apareceu o convite para me candidatar à SPA. Estive lá seis anos, que me custaram um AVC e um enfarte.

Quando foi isso?

O enfarte foi em 2007, 2008, já não sei bem. Eu cumpria todos os requisitos para isso: trabalhava 10,12 horas por dia, fumava dois maços de tabaco. Comia mal, não fazia exercício nenhum, estava todo o dia sentado a uma secretária.

E isso ensinou-lhe alguma coisa?

Claro. Que a vida não merece esses sacrifícios. Depois disso também tive um AVC. Mas deixei de fumar na hora em que tive o enfarte. Estava sozinho em casa quando comecei a sentir-me mal. A minha mulher é professora de Inglês, não estava em casa. Eu estava a ler o jornal e a fumar quando me senti mal. Telefonei a um grande amigo, ex-colega de liceu, médico-cirurgião, que tinha estado muitos anos no Hospital de Santa Marta, tinha feito transplantes de coração e pulmões. E ele fez-me logo o diagnóstico. Mandou-me ir logo para Santa Marta, onde ele já não estava. Ora, sozinho em casa, a minha mulher em Coimbra, liguei a uma empregada ucraniana que tínhamos, ela andava a passear com o marido, num carro muito velho, eu expliquei a situação e eles levaram-me a Lisboa. Não conheciam nada daquilo, eu lá lhes fui dizendo e chegámos ao hospital. Entrei calmamente pelo meu pé. Veio de lá um tipo de bata que me identificou logo: "Não me diga que é o amigo do Dr. Vaz Velho... e veio a pé?" Fizeram-me um eletrocardiograma e levaram-me logo para a sala de intervenções.

Foi assim que deixou de fumar, com esse susto?

Estive depois no recobro, fiquei lá dois ou três dias. Então veio uma senhora enfermeira fazer aquelas perguntas todas, a idade, o peso. "É fumador?" E eu com um ar muito perentório: não, senhor. "Deixou quando?", perguntou ela. E eu: hoje às três da tarde. Quando lá voltei mais tarde o pessoal ainda se lembrava dessa brincadeira.

Quer dizer que foi já quando estava numa fase de pré-aposentação que mais trabalho teve profissionalmente?

Aquilo na SPA foi muito complicado. Mais tarde, aqui há 4,5 anos, tive um pequeno AVC. Estava sozinho também, curiosamente.

É a história da sua vida, então...

Sim, as coisas dão-me quando estou sozinho. O que valeu foi que no dia seguinte tinha uma consulta e fui acompanhado. Contei ao médico e ele já não me deixou ir embora. Passei uma semana no São Francisco Xavier, para ver se descobriam a origem, e não descobriram. Felizmente não fiquei com sequelas.

Como é agora o seu dia-a-dia?

É muito preguiçoso...levanto-me às nove e tal, tomo o pequeno-almoço e volto para a cama. Passo o resto do dia em casa, deito-me por volta das duas da manhã. Dantes, deitava-me muito tarde, às quatro ou cinco da manhã. Adoro a noite. Ninguém telefona, ninguém chateia, é uma coisa bestial. A gente faz o que quer, lê, ouve música, vê filmes. Não há ninguém a incomodar, acho a noite fantástica, com aquele silêncio. E estou num sítio onde posso ver as estrelas todas.

Quase não tem vizinhança...

Tenho só um vizinho.

Disse-me que vieram para cá para estarem junto dos vossos filhos. E dos netos, calculo. Quantos tem?

Dez!

Alguns pequenos ainda? Convocam-nos para o papel de avô que toma conta?

Sim, uma com 2 anos. E o mais velho com 22. Reúno-os todos duas vezes por ano. Inventei uma coisa que se chama Pafinete, que é uma festa de pais, filhos e netos. De modo que duas vezes por ano, no Natal e no verão, reúno-os cá. O que nem sempre é fácil, porque tenho uma filha na Bélgica e um filho em Itália... um neto nos Estados Unidos...

E estava descansado em casa quando soube que lhe iam fazer uma homenagem?

Avisaram-me.

Quem foi que lhe disse?

Os meus amigos da AJA. Acho que foi o [Francisco] Fanhais. Depois fizemos uma reunião em Santarém, para ver se eu estava de acordo.

E estava?

Não me adiantava nada dizer que não... eles iam fazer na mesma.

Mas o Manuel também vai participar, afinal...

Sim, vou fazer a segunda parte.

O que é que vai cantar, além da Pedra Filosofal?

Vou cantar 12 coisas. Algumas do Vitorino Nemésio, outras do Saramago...

Há uns anos editou um trabalho conjunto com o José Jorge Letria e o Vitorino, Abril Abrilzinho. Isso foi uma coisa completamente diferente do seu registo habitual. Vai cantar algum desses temas?

Não, não vou. Esse disco aconteceu porque eu estava com o José Jorge na SPA e ele desafiou-me a musicar uma série de poemas que tinha sobre Abril na perspetiva dos mais pequenos. Fomos nós que produzimos, foi tudo feito por nós.

Quem é que vai cantar na primeira parte desse tributo, no domingo próximo?

Os Tocá Rufar, Segue-me à Capela (um grupo de Coimbra de que gosto muito), um grupo do Porto que é A Vontade da Musica, o B Fachada e o Benjamim.

Como vê a nova música que fazem esses dois, por exemplo?

Vou dizer-lhe uma coisa: estou um bocadinho afastado da música. Vou ouvindo na rádio - só ouço quando vou de carro - o que se faz, mas estou um pouco afastado.

Mas conhece o trabalho desses dois artistas?

Sim, desses conheço.

No documentário Mudar de Vida, sobre José Mário Mário, diz a dada altura que "o fado é um fóssil". São declarações feitas em 1960-70. Ainda pensa da mesma maneira ou já não?

Já não. Estava naquela idade de ser perentório e não tinha dúvidas sobre nada. Hoje vivo com mais dúvidas do que certezas. Por isso penso que o fado tem toda a razão de existir e tem dado coisas muito interessantes.

Apesar de não ouvir muito, há alguém da nova geração que admire particularmente?

Há uma rapariga que canta tudo muito bem que é a Cristina Branco.

Nesta altura, o que ainda espera da vida?

Espero viver tranquilamente, morrer sem um grande sofrimento. Não tenho medo da morte. Só não queria ficar balhelhas num hospital, todo a tremer. Gostava de que me desse assim uma coisa de repente e pronto, eu ia. Até lá, ver os meus netos crescer com saúde. Só isso.

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