Espaços pós-soviéticos

Tem-se usado muito nas últimas semanas a expressão "antigo espaço soviético", sobretudo para tentar explicar a invasão russa da Ucrânia, mas a verdade é que os 15 países nascidos da desagregação da URSS em 1991 estão longe de constituir um todo homogéneo, basta pensar no tanto que separa uma Estónia que é notícia por travar o acordo da UE para um IRC mínimo de um Tajiquistão que tem como prioridade proteger a sua gente no Afeganistão dos abusos dos talibãs.

Mas não é preciso sequer comparar um país báltico com um da Ásia Central, pois mesmo nesta última região, antigo confim do Império dos czares e depois da URSS, há grandes diferenças e até entre vizinhos, como é o caso do Turcomenistão e do Cazaquistão. Basta pensar que enquanto em Asgabate se acaba de anunciar a eleição de Serdar Berdymukhamedov para presidente, sucedendo ao pai, em Nursultan, o presidente Kassim-Jomart Tokayev divulgou um programa de reformas que visa a transição do Cazaquistão de "uma superpresidencial forma de governo para uma república presidencialista com um forte parlamento". Entre as medidas para democratizar o país estão regras mais flexíveis para novos partidos e a introdução de círculos uninominais para um terço dos deputados, visando dar oportunidade de ação política a independentes.

Considerado um modelo de estabilidade no tal "antigo espaço soviético" (que além da atual guerra entre russos e ucranianos ainda em 2020 tinha sido palco de outra entre arménios e azeris), o Cazaquistão foi atingido no início do ano por uma vaga de protestos pelo preço dos combustíveis que depressa se tornou violenta, com suspeitas de aproveitamento por setores do poder para fragilizar Tokayev e envolvimento de bandos criminosos e mesmo de jihadistas. Surpreendendo pela firmeza da resposta, Tokayev não só pacificou as cidades ameaçadas pelo caos (como Almaty, a antiga capital) como conseguiu que as forças internacionais, sobretudo russas, chamadas a proteger as infraestruturas vitais, regressassem aos seus países rapidamente. Ao mesmo tempo, marcou distâncias do antecessor, Nursultan Nazarbayev, e conquistou boa parte da opinião pública ao apertar o cerco ao círculo de familiares deste que acumularam fortunas (ontem, também se falou de leis contra o nepotismo). A comunidade internacional, interessada na estabilização do nono maior país do mundo, apressou-se a mostrar apreço pelo diplomata poliglota que desde 2019 é presidente, mesmo sabendo que há um caminho a percorrer na questão dos direitos humanos, como o próprio Tokayev admite ao incluir medidas de escrutínio das forças de segurança e em reafirmar a decisão de abolir a pena de morte, tomada na sequência de uma moratória que vinha de 2003.

Uma das principais decisões de Tokayev na sequência dos protestos não foi agora falada mas tem enorme peso: o compromisso de não cumprir mais de dois mandatos, como estipula a Constituição, mas que Nazarbayev tinha contrariado, fazendo-se reeleger desde a independência em 1991 por quatro vezes. Devendo muito ao antecessor, o atual presidente sabe que o seu lugar na história, e o próprio futuro do Cazaquistão, passa por manter o melhor do legado do pai da independência, mas sem repetir os erros.

Próspero graças à riqueza em gás e petróleo, o Cazaquistão é uma das sete antigas repúblicas soviéticas que integram o grupo dos países de muito alto desenvolvimento (critério da ONU) e em termos de rendimento médio por habitante só fica, entre os países da ex-URSS, atrás de Estónia, Letónia e Lituânia, que são membros da UE e da NATO.

Com menos de 20 milhões de habitantes (maioria de cazaques, mas forte minoria russa), o Cazaquistão, sob Nazarbayev, apostou numa diplomacia multivetorial, que lhe permitiu boas relações com os EUA, a UE e a China sem por isso hostilizar a Rússia. País muçulmano mas de cultura túrquica, o Cazaquistão tem sido também uma barreira ao fundamentalismo islâmico que interessa a todos, de Moscovo a Pequim ou Washington, e daí que nunca tenha sido desafiado pelas potências a seguir caminhos opostos como aconteceu com a Ucrânia, a outra república ex-soviética que abdicou do arsenal nuclear.

Agora, a prioridade de curto-prazo é minimizar as imprevisíveis ondas de choque, geopolíticas e económicas, da crise ucraniana. Tokayev, que fala russo, inglês e chinês, tem a vantagem de poder conversar com toda a gente. Até nisso o Cazaquistão parece excecional no "antigo espaço soviético" que tem cada vez mais de ser chamado, pluralisticamente, de espaços pós-soviéticos pois, afinal, ocupa um sétimo da superfície terrestre.

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