PAN apanhado de surpresa com saída de eurodeputado dá sinais de divisão

Francisco Guerreiro, único eleito do partido no Parlamento Europeu, bate com a porta em divergência com o rumo do PAN.

As dificuldades já eram claras e assumidas - uma "relação difícil", chamou-lhe André Silva -, mas nada que fizesse presumir este desfecho. Na manhã desta terça-feira, um simples mail de Francisco Guerreiro, o único eleito do PAN nas eleições europeias de 2019, deixou o partido sem voz em Bruxelas: o eurodeputado comunicou a desvinculação à direção anunciando que passará, a partir de agora, ao estatuto de independente. Dirigente nacional do Pessoas-Animais-Natureza desde 2013, Guerreiro alega "divergências políticas" de fundo para pôr termo à militância de oito anos.

Uma excessiva colagem à esquerda que, para o ex-dirigente nacional do PAN, coloca o partido de um dos lados do binómio esquerda/direita (classificação que o PAN sempre recusou,) é uma das críticas apontadas por Francisco Guerreiro na nota que enviou à agência Lusa, dando conta da desvinculação, pouco tempo depois de ter comunicado a rutura à direção. "A crescente e vincada colagem do PAN à esquerda" vem quebrar "uma das bases filosóficas do partido, que não se revê nas dicotomias políticas tradicionais", defende Guerreiro, que acusa também o partido de ter deixado cair o Rendimento Básico Incondicional (RBI).

André Silva, que viria a dizer depois que as críticas de Guerreiro não correspondem à verdade, não refutou totalmente este cenário. "O debate político não se compadece com o rendimento básico incondicional, mas com o rendimento básico de emergência, para que as pessoas possam sobreviver e fazer face a esta crise", defendeu.

Mas aquilo que Francisco Guerreiro colocou no plano das divergências ideológicas, o porta-voz do PAN remeteu para uma questão de protagonismo individual. Este é "o culminar de um caminho de individualização do eurodeputado"., afirmou, apontando um "desencontro" na forma como devem trabalhar os eleitos do partido - o que, no PAN, "sempre foi feito de forma coletiva, comunitária".

"Este caso estava a ser uma exceção e demos nota várias vezes, ao longo dos últimos meses, disso mesmo. O mal-estar, de alguma forma, foi-se instalando, mas as relações institucionais mantiveram-se e aquilo que nós estávamos à espera era que continuássemos a fazer esse debate interno e que houvesse uma perspetiva de gestão comum", referiu André Silva, fazendo questão de sublinhar: "Trata-se de uma escolha unilateral do eurodeputado fazer este divórcio com o partido que o fez crescer, que o elegeu". E, falando numa "profunda desilusão, deixou claro que Francisco Guerreiro deveria renunciar ao mandato no Parlamento Europeu.

Sobre as justificações políticas dadas pelo eurodeputado, André Silva - que teve Francisco Guerreiro como assessor parlamentar na passada legislatura, quando era deputado único do PAN na Assembleia da República - disse não só nunca as ter ouvido, como referiu que "não correspondem à verdade".

Uma posição individual ou uma clivagem no PAN?

A par da saída de Francisco Guerreiro, também Sandra Marques, mulher do eurodeputado, deixou ontem o partido - era, também ela, dirigente nacional do PAN e deputada municipal em Cascais.

Decisões individuais ou sinal de uma clivagem mais forte no partido? De acordo com militantes do PAN ouvidos pelo DN há divergências consideráveis no partido quanto ao caminho político a seguir, mas que têm ficado "tapadas" face aos resultados positivos que o partido obteve no último ciclo eleitoral, conseguindo pela primeira vez eleger nas eleições europeias e aumentando de um para quatro o número de assentos na Assembleia da República. Clivagens que terão ficado calaras no último congresso do PAN, em março de 2019 - que, recorde-se, decorreu à porta fechada, com a exceção do discurso de encerramento, que foi feito precisamente por Francisco Guerreiro. Nessa intervenção, segundo noticiou então o semanário Expresso, o dirigente nacional do PAN qualificou a esquerda parlamentar como "maioria ultraconservadora"

Já em agosto de 2019, em entrevista ao DN, Francisco Guerreiro - que ontem não respondeu às questões do DN - dizia não sentir o peso da responsabilidade de representar o partido em Bruxelas, nomeadamente quanto à questão da reeleição para um segundo mandato. "Sente o peso da responsabilidade para 2024?", questionava o DN. "Não. Temos feito o nosso trabalho de forma muito linear", respondia então.

O caso de Francisco Guerreiro está longe de ser a primeira dissidência de um eurodeputado face ao partido pelo qual foi eleito. Essa data de 1991 e foi protagonizada por Lucas Pires, que abandonou o CDS quando o partido adotou, com Manuel Monteiro, uma postura eurocética. Foi Também o caso de Rui Tavares, que foi eleito nas listas do Bloco de Esquerda como independente e passaria depois, já em 2011, a independente, depois de um desentendimento com o líder do partido, Francisco Louçã; ou de Marinho e Pinto, que abandonou as fileiras do MPT (Movimento Partido da Terra), depois de ter concorrido a Bruxelas pelo partido.

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