Notre-Dame. O fogo devastou a cultura europeia. Macron promete reconstruí-la

No momento em que o pináculo de Notre-Dame colapsou, ruiu um dos maiores símbolos do génio europeu.

Aquele pináculo era o grande coruchéu da Europa. Erguia-se a 48 metros de altura, mas não era apenas altura. Era o bordado, a forma como o arquiteto Eugène Viollet-le-Duc o tinha recuperado exemplarmente gótico. O pináculo de Notre-Dame que agora ardeu era já uma réplica do original. Foi erguido em meados do século XIX, era feito de madeira de carvalho e coberto de chumbo. O original, do século XIV, sucumbiu a 500 anos de vento.

Para todos os efeitos, o colapso do pináculo é o momento decisivo da tragédia. Chamavam-lhe La Fléche, a flecha, mas a sua ruína não é só parisiense e não é só francesa. Nem sequer é apenas europeia - a civilização e o génio humano perderam hoje um dos seus símbolos.

"Não é só Notre-Dame que arde, é toda uma parte da história da humanidade", dizia precisamente ao DN Anísio Franco, historiador de Arte no Museu Nacional de Arte Antiga. "Estamos a falar de um monumento que é uma marca fundamental da Europa, da cultura europeia. Isto é simplesmente um desastre."

Vários líderes mundiais, de Angela Merkel a Donald Trump, passando por Marcelo Rebelo de Sousa, vieram imediatamente a público apresentar as condolências ao povo francês e a apoiar as obras de reconstrução que se seguirão a uma noite difícil de ter fim. O governo começou por admitir a possibilidade de não conseguir salvar o edifício, mas pela meia-noite chegou um certo alívio: a estrutura de Notre-Dame estava a salvo.

"Graças à coragem dos bombeiros, foram salvas as torres e a fachada", disse à noite o presidente francês. "Neste momento quero deixar uma palavra de esperança. Esta catedral com mais de 900 anos vamos reconstruí-la todos juntos. Vamos lançar uma operação a nível nacional e internacional para que todos os recursos financeiros e talento sejam usados na reconstrução de Notre Dame. Porque isso é o que os franceses esperam e merecem, Notre Dame é a nossa História, o nosso imaginário, a nossa literatura, o nosso destino".

Com 14 milhões de visitantes anuais, a catedral é o monumento mais visitado da Europa. Instalada no meio da ÎIe de la Cité, foi construída entre 1163 e 1345. Símbolo maior do gótico em França, tinha sido declarado Património da Humanidade pela UNESCO em 1991, integrada no conjunto arquitetónico das margens parisienses do Sena.

Os bombeiros estimam que o incêndio tenha deflagrado nos andaimes das obras de requalificação do monumento. Os trabalhos tinham arrancado no início de 2017 e ocupavam agora o telhado junto ao pináculo. Tinham um custo estimado de 150 milhões de euros.

A fotógrafa Sandra Rocha, que vive em Paris, não tinha dúvidas sobre o estado de espírito na cidade. "Estamos todos de luto, não existe no mundo património muito mais importante do que este", diz a portuguesa, licenciada também em História de Arte. "É um desconsolo para todos os parisienses, venham de onde vieram. De todos os franceses, pelo menos."

Do mundo todo, e da cultura europeia em particular, na verdade. A UNESCO anunciou entretanto fundos de apoio para as obras de reconstrução que se seguirão ao rescaldo. No segundo em que o pináculo de Notre-Dame ruiu, uma parte da cultura europeia ruiu também. E, no mesmo segundo, começou a conversa de como reerguê-lo, outra vez.

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