Os Filhos da Meia-Noite

O sânscrito é para os indianos aquilo que o latim é para os europeus: uma língua que está na origem da sua civilização, uma língua que, mesmo classificada como morta, está na base do idioma do dia a dia (seja o bengali, o hindi ou outros) e é usada por várias religiões. Ora, Amartya Sen, que muitos conhecerão por causa do Nobel da Economia que recebeu em 1998 e pelos livros em que denuncia as desigualdades sociais no mundo, foi uma criança tão excecional que aos seis anos já aprendia essa língua, usada há três mil anos para escrever os Vedas, textos-base do hinduísmo, a religião cujo nome se confunde com o do país.

É certo que tudo em redor do jovem indiano propiciava a curiosidade intelectual, desde uma família de académicos até Rabindranath Tagore ser visita da casa, mas não deixa de ser admirável, como admirável é a forma humilde como conta tudo isto, incluindo a precocidade do seu pensamento matemático, nas memórias Em Casa no Mundo, editadas agora pela Almedina.

Tive oportunidade de visitar três vezes a Índia. Também entrevistei figuras como o presidente Kocheril Narayanan, o magnata Mukesh Ambani, o historiador Sanjay Subrahmanyam ou o político goês Eduardo Faleiro. Infelizmente, Sen não faz parte desta lista, pois muito teria gostado de conversar com ele sobre o balanço destes 75 anos de independência da Índia que hoje se celebram. Creio que destacaria a democracia como o grande feito do país, o nunca ter cedido à tentação, desde 1947, de entregar o poder aos generais, como aconteceu por vezes no Paquistão, também moderna nação, filha da divisão da Índia Britânica à meia-noite de 14 para 15 de agosto (daí o título de um dos mais célebres romances de Salman Rushdie). E tenho a certeza de que criticaria as tensões entre a maioria hindu e a minoria muçulmana, que enfraquecem um país moldado pela diversidade, onde nasceu o budismo, já havia cristãos séculos antes da chegada de Vasco da Gama e em que o islão é muito mais antigo do que a dinastia mogol que construiu o Taj Mahal.

Sen era um adolescente quando os colonizadores europeus partiram. Filho de Bengala, testemunhou como o critério religioso da divisão entre Índia e Paquistão afetou a sua terra. A família, hindu, teve de fixar-se em Calcutá e deixar Daca, no que viria a ser o Paquistão Oriental, e depois de 1971 o Bangladesh. No livro confessa que considera artificial a forma como se puseram uns contra os outros - os hindus e os muçulmanos -, sobretudo no caso dos bengalis, que partilham língua e cultura. E a verdade é que Tagore viu poemas seus serem escolhidos como letra para os hinos da Índia e do Bangladesh.

Exemplo de aplicação de uma velha tentação imperial (o dividir para reinar), a chamada partição da Índia por decisão britânica ainda hoje afeta as nações dela nascidas, duas potências nucleares que muito teriam a ganhar se poupassem em armamento. Apesar de tudo, a Índia tem obtido sucessos: com Manmohan Singh como primeiro-ministro (2004-2014), as taxas de crescimento chegaram a aproximar-se das da China, e, com Narendra Modi, no ano passado e neste vão registar valores superiores mesmo aos dos chineses.

Os 8,9% de crescimento em 2021 impressionam, assim como o programa espacial de olhos na Lua, mas os desafios continuam enormes. Em 2023, o número de indianos ultrapassará o de chineses, atingindo mais de 1400 milhões. O número de filhos por mulher aproxima-se do da substituição de gerações, o que é sinal de que a educação está a resultar, contudo os jovens são tantos que, ao contrário da China, a Índia contará nos próximos anos com uma vasta população ativa, potenciando investimentos naquela que é a sétima economia mundial (e que antes da colonização europeia disputava com a China o estatuto de líder).

Contudo, há ainda pobreza para tentar atenuar e um sistema de castas a eliminar. Modi, filho de um vendedor de chá, tem bem essa consciência. Oriundo do Gujarate, região de empreendedores e que está nas origens também de boa parte da comunidade hindu portuguesa, o primeiro-ministro chegou ao poder creditado por uma década de milagre económico, quando era ministro-chefe estadual, e tem procurado incluir mais a Índia no mundo globalizado, mesmo que a pandemia de covid-19 e a guerra na Ucrânia tenham criado dificuldades inesperadas. Com mais de 150 nacionais na lista da revista Forbes, a Índia só fica atrás dos Estados Unidos e da China em número de magnatas, o que mostra o espírito empresarial, mas não esconde a tal injustiça social que Sen denuncia.

Nos últimos anos da colonização britânica, coincidindo com a Segunda Guerra Mundial, em que soldados indianos lutaram pelos Aliados, uma grande fome assolou Bengala, matando milhões de pessoas. Ao contrário da ideia feita de que Winston Churchill desviava arroz para as tropas britânicas e desprezava o apoio que líderes nacionalistas, como Jawaharlal Nehru e o mahatma Gandhi davam em troca de promessas de independência no pós-guerra, nunca faltou comida, mas não chegava aos pobres a preço acessível. E foi só depois de um jornalista ter violado a censura em tempo de guerra e abordado o tema que as autoridades foram obrigadas a acabar com a fome. Sen viu tudo isto e no seu livro deixa uma certeza, que a mim, como jornalista, diz muito: a liberdade de imprensa é essencial para a democracia e para uma boa governação. Que o diga alguém tão inteligente como o homem que, ainda miúdo, brincava a aprender sânscrito e a resolver problemas matemáticos é um alerta para a Índia nesta data festiva e serve de mensagem global. Aliás, numa época em que se debate tanto as virtudes do modelo democrático versus o autoritário, a Índia, que segue o seu caminho, tem de continuar a ser um exemplo de que a democracia pode coexistir com a pobreza, e sobretudo ajudar a resolvê-la. É um soft power muito mais relevante do que Bollywood.

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