Esta coisa que nunca nos aconteceu

Não beijar. Não dar a mão. Não tocar. Não abraçar. Não estar com os outros. Não sair. Parece uma distopia grosseira, uma experiência científica sobre a essência do que somos, indivíduos, sociedade, civilização. A peste voltou à Europa, e já não nos lembrávamos de que podia.

Quando começou estava longe, parecia impossível que chegasse. Fizeram-se piadas e acusações xenófobas - ainda se fazem. Foi possível acreditar até há dias que poderíamos continuar a viver como antes: podia lá ser, no século XXI, um vírus a propagar-se na civilização, no Ocidente, na Europa, sem vacina nem medicamentos certeiros; epidemias é coisa de países subdesenvolvidos, exóticos, tropicais, de séculos passados, não daqui, hoje, de nós.

Houve isso - essa arrogância algo etnocêntrica mas sobretudo civilizacional, que é a mesma que nos deixa estúpidos quando um avião desaparece do radar e nunca mais sabemos o que aconteceu, porque, raios, temos toda esta técnica, toda esta ciência, mandamos sondas a Marte, temos telescópios a espreitar o confim do universo e a tomografia computorizada e a ecografia para espreitar o confim de nós, temos o mapeamento do genoma humano, temos o skype para falar cara a cara a milhares de quilómetros, temos antiretrovirais para debelar o HIV que ainda há trinta anos matava como o Sheltox (e olha para ele agora, reduzido a doença crónica). Para não falar dos milagres todos em que já nem pensamos, da eletricidade à internet, dos aviões à mais extraordinária das nossas invenções, a cidade, o lugar onde vivemos em paz e segurança, onde andamos na rua sem esperar ataques nem inimigos, onde os desconhecidos não são uma ameaça. Onde confiamos.

Confiar - voltarei a isto.

Mas sim, ainda a sentimos, a essa arrogância. Ainda está nesta negação que nos leva a não acreditar de verdade que estamos em perigo, na forma como os governos adiaram as medidas drásticas mesmo depois de verem o que sucedeu na China, na Coreia do Sul e depois em Itália.

Porque os governos são constituídos de pessoas exatamente como nós, com os mesmos conceitos e preconceitos, as mesmas sensibilidades e capacidades, as mesmas dúvidas. E se temos medo de morrer ou que morram os que amamos e os que nem sequer conhecemos mas reivindicamos como nossos também temos medo de exagerar, de ceder ao medo, de lançar o pânico, de destruir o que temos de melhor. E isso, que alguns desprezam como fraqueza e hesitação, é bom.

É bom porque quer dizer que temos governos preocupados com a saúde pública mas também com a economia e com a liberdade - as nossas liberdades. Quer dizer que temos governos que não acham que sabem tudo e sempre o que é melhor - que não temos idiotas que pretendem "perceber muito disto e deixar os médicos espantados com o tanto que percebem".

Acreditem, não queremos a governar-nos pessoas demasiado estúpidas para terem sequer noção da sua ignorância, pessoas para quem seja fácil mandar fechar fronteiras, escolas, teatros, cinemas, bares, discotecas, museus, concertos, erguer muros, pôr o exército na rua, a polícia a deter quem desobedece, pessoas para quem o autoritarismo seja uma vocação, uma afirmação, um objetivo. Eu não quero de certeza - e muito cuidado com isso, com quem visa aproveitar o momento para avançar no sentido do isolacionismo, da xenofobia, da mão de ferro. Cuidado com quem passará a vida a dizer "eu bem disse", quando nunca disse nada do bem.

Cuidemos também das lições de humildade que este vírus nos oferece. Como quando nos diz que somos, este continente tão certo de ser o centro do mundo (mesmo que os EUA queiram concorrer connosco, somos a Europa, caramba), o centro, pelo menos por agora, da pandemia.

Cuidemos das ironias, tantas. Como ver os que passam a vida a defender o Estado mínimo a exigir mundos e fundos dos Serviços Nacionais de Saúde e, custe o que custar, apoios sociais e empresariais - que se lixe o défice ainda ontem sagrado - enquanto outros que desprezaram sempre como "socialismo" ou até "comunismo" coisas como baixas por doença agora admitem aplicá-las (Trump, por exemplo) e talvez até estejam prestes a dar-se conta de que sem um sistema de saúde público não é possível planear a resposta a isto.

Talvez este vírus nos possa, no meio de todo o susto, e por causa dele, trazer alguma clareza. Talvez nos faça pensar - ele que se aproveita de tudo o que temos de melhor e mais precioso, da nossa liberdade de circulação ao nosso afeto pelos outros, à nossa despreocupação com doenças e faltas de higiene.

Porque, reparem: se não acreditássemos - confiássemos - que as pestilências estavam genericamente derrotadas não tocaríamos com as mãos em tudo e todos, não abraçaríamos e beijaríamos a torto e a direito. Seriamos como a protagonista de Safe, o filme de 1995 de Todd Haynes no qual Julianne Moore se descobre ameaçada por alergias e afeções nunca explicadas e acaba, desconfiada de tudo, a fechar-se numa espécie de cápsula asséptica, para evitar todo o contacto - e toda a vida. Safe (Segura) é um filme de terror e é nesse universo de segurança desolada, desalmada, que projetamos o nosso medo de que nunca nada volte a ser igual, que nunca mais possamos ter a nossa vida, como era ainda ontem, de volta.

Um medo no qual entrámos lentamente, com estranheza, mas que sabemos necessário, um medo que nesta imposição de distanciamento nos aproxima dos outros em vez de os afastar. O medo de passar tempo de mais antes de nos podermos de novo beijar e abraçar, dançar, rir uns com os outros - o medo solidário, fraterno, que pôs os napolitanos a cantar uns para os outros à janela. E o bom que é percebermos que isso é tão importante, o mais importante. Até já.

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