entrevista de verão

"Se a medicina for só computadores, acabou a medicina"

Defende com unhas e dentes que é o anestesista que manda no bloco. Porque, enquanto o cirurgião opera um órgão, o anestesista tem de manter todos os outros, tem de manter o doente vivo. E a relação não acaba na sala de cirurgia, garante Cristina Pestana. Os doentes e os médicos podem ser amigos.

Não se cansa de dizer que a medicina é uma relação entre pessoas. Gosta de tocar nos doentes, dá-lhes o número de telefone. Médica há 34 anos, Cristina Pestana sente-se grata pelo retorno que esta postura lhe trouxe - entre os seus doentes ganhou amizades para a vida. Como a jovem de 20 anos que, no início da carreira, insistiu em reanimar quando a equipa, ao fim de seis tentativas, já tinha desistido: "Não, não vão parar, ela é como o meu irmão, da idade do meu irmão!" Há também doentes que a reconhecem ao fim de muitos anos e que querem que seja ela a anestesiá-los para uma nova cirurgia. Como João, o engenheiro que sofreu um acidente brutal - o cilindro do alcatrão passou-lhe por cima - e reencontrou há uns anos.

São tantas as histórias contadas por uma mulher de fé que encara a medicina como uma missão. Algumas tristes: como ter de dizer à mãe de uma criança de 3 anos que o filho morreu.

Cristina Pestana licenciou-se em Medicina na Universidade de Lisboa em 1985 e sete anos depois era especialista em anestesiologia. Fez grande parte do percurso profissional no Serviço Nacional de Saúde, nomeadamente em Santa Maria, de onde saiu em 2006 para o privado Hospital da Luz, aliciada por um novo projeto e por poder fazer "um trabalho em condições", ter tempo para os doentes. Mas também por ser defensora da distinção salarial por mérito. O que, defende, não existe no Estado, em que se ganha trabalhando muito ou passando horas sentada. Atualmente, é anestesiologista sénior, coordenadora-ajunta do serviço de anestesia, responsável pela formação e qualidade no Hospital da Luz.

Mãe de cinco filhos - "duas de coração" -, nasceu há 58 anos na Beira Alta, no concelho de Seia. Foi um nascimento repleto de particularidades: a mãe, uma jovem de 17 anos; o pai, um homem muito alegre, metódico, mais velho 11 anos, engenheiro.

A mãe entrou em trabalho de parto numa ida à casa da matriarca, nas Beiras. "Nasci pelos pés e a minha mãe esteve 24 horas em período expulsivo. Não conseguiam tirar-me."

A menina de 3,800 kg nasceu quase sem respirar e, numa prática agora em desuso, passaram-na de uma banheira de água fria para outra de água quente. "O meu pai julgava que eu ia ficar deficiente. Mas nunca tive nada, comecei a andar cedíssimo, a falar ainda não tinha 1 ano, sempre tive boas notas. O meu pai diz que nasci lutadora e capaz de enfrentar tudo. Foi a grande prova, estive 24 horas em asfixia cerebral."

Um dia estava de banco na maternidade e nasce uma criança depois de uma grande asfixia. Cristina perguntava-se se devia reanimá-la. O obstetra incentivou-a e começou então a falar-lhe da história semelhante que uma parteira contava, quando há 30 e tal anos tinha salvado uma menina nas Beiras. "Essa sou eu!"

Porque quis ser médica?
A medicina não se pode escolher só pelas notas. Desde miúda que eu queria ser médica. Fazia supositórios dos jornais - do Diário de Notícias e, na Beira Alta, de onde são as minhas origens, do Primeiro de Janeiro - e obrigava os meus irmãos mais novos a porem porque eu era a médica. A Beira era um território que não tinha nada que ver com a realidade atual, desfavorecido; eu sempre achei que ajudar os outros era uma forma de me realizar. A vida tem um valor inquantificável, até a vida de um" vagabundo" tem um valor não mensurável, porque ninguém sabe o que está dentro dessa pessoa. Preservar a vida ou ajudar ao bem-estar é algo que me é gratificante.

E como é que acabou anestesista?
Quando acabávamos o curso, fazíamos um ano de internato geral em que estagiávamos em várias especialidades. Não havia cadeira de Anestesia na faculdade. Eu estava na cirurgia e fui muito impressionada pelo trabalho do médico anestesiologista, que era pouco falado. As pessoas em Portugal falavam sempre do cirurgião e eu comecei a ver que quem mantinha o coração, o pulmão, o rim, quem compensava o sangue perdido, era o anestesista. O cirurgião continuava preso à parte que se propunha operar e quem mantinha o doente era o anestesista. Fiquei muito seduzida pelo lado "oculto" e quase "mágico" da anestesia.

Para o senso comum o anestesista é quem nos põe a dormir antes da cirurgia.
Pondo isto num lado não médico: você vai fazer uma cirurgia, vai ser anestesiada por mim, vai perder a consciência, a sua inteligência, vai perder a capacidade de decidir e vai acreditar em mim. Para acreditar em mim, tenho de manter o seu pulmão igual, o seu coração igual, apesar da agressão cirúrgica, porque nós não nascemos para ser "cortados".

Estava a contar-me que há horas reanimou uma mulher. A prova de que os anestesistas fazem muito mais...
Fui eu que levei a senhora para o bloco. Estava a ver os cirurgiões cada um "preso na sua verdade" e olhei para ela como um todo. Não tinha perfusão, estava pálida, tinha perdido muito sangue... Não sabia quem é que ia operar, o importante era parar aquela hemorragia. E depois...é um ser desconhecido, é um ser que não conheço e com quem fico com uma ligação a partir daí, uma ligação difícil de adjetivar. Deitei-me na sexta-feira e pensei 'vale a pena viver". Há uma mãe de dois filhos que está ali, com um filho a mamar e com outro a passear. É extremamente gratificante.

"Às vezes não acertamos. Não somos perfeitos nem deuses"

São decisões que tem de tomar...
E que têm custos. Às vezes, não acertamos. Não somos perfeitos nem deuses. Temos de estudar imenso. E voltamos à escolha da medicina - quem escolhe tem de ser uma pessoa que gosta muito de estudar. Quem tem média de dez não gostará muito de estudar. Uma pessoa com média de 15 não sei se não gostará de estudar e se teve azar em alguns exames. Mas, depois, entre um 16 e um 17 não tenho a certeza se o 17 é necessariamente melhor. Admito que se estabelecesse uma nota mínima para entrar mas, para além disso, é preciso gostar de lidar com os outros e pôr-se em segundo lugar algumas vezes.

Não é fácil...
Em termos de vida pessoal, lembro-me de o meu pai questionar porque é que eu nunca conseguia dizer que estaria às oito em casa para jantar. Para ter essa certeza não posso ir trabalhar. Se uma cirurgia se prolonga eu não vou abandonar o doente. Ainda na sexta-feira saí à uma da manhã. Mas eu sabia lá se era uma uma da manhã ou oito da noite! Nem me lembro se tenho fome, se preciso de ir à casa de banho...

É a adrenalina...
É mesmo a adrenalina. Tentando explicar utilizando uma linguagem corrente, a nossa glândula suprarrenal liberta, em período de stress, uma substância, a adrenalina, que nos dá uma força. Quando acaba o stress, após resolver um doente grave, passou-me um camião por cima, mas com prazer. Quando não conseguimos, ficamos com alguma sensação de sermos humanos, de falharmos.

Costuma dizer que o anestesista é que manda no bloco...
Não tenha dúvida, ainda na sexta-feira eu é que mandei. Liguei para casa de cirurgiões, liguei, mandei, disse. Tem de haver um líder e isso não significa que essa seja a pessoa mais importante. O respeito não se impõe, conquista-se. Os meus colegas sabem que quando eu digo que é para ir, é para ir...

E não arranja conflitos com os cirurgiões?
Não tenho. Os grands patrons antigos não gostavam, mas você explicava-lhes o porquê da sua atuação e eles aceitavam... Mais uma vez, o respeito conquista-se...

Mas porque é que é o anestesista que manda?
O cirurgião está a operar um órgão, mas o doente não é só esse órgão. Por exemplo, estamos a operar um doente ao fígado, de repente o doente tem uma arritmia, tenho de dizer "para". Portanto, quem determina o curso das coisas em situações-limite sou eu - não quer dizer que eu esteja sempre a interromper, o meu primeiro objetivo é proporcionar bem-estar e estabilidade ao doente, proporcionar as ótimas condições cirúrgicas para que seja tratado -, quem escolhe os timings, quem estabelece limites e prioridades sou eu. E para isso tem de haver um grande sentido de equipa, tem de se gerir egos. Os cirurgiões gostam muito de ter um ego muito grande... E nós, mulheres, temos algum privilégio em saber gerir essa característica, deixamos achar que sim, mas quando chega o momento crucial quem manda somos nós.

"Adormeço uma pessoa a falar naquilo que lhe é mais grato"

Conhece todos os seus doentes e dá-lhes sempre o número de telefone?
Todos, um papelinho com o jejum, com a dieta, com a hora a que devem comer e no fim escrevo: Cristina Pestana e o número de telefone.

E telefonam-lhe muitas vezes? Não abusam?
Se eu disser que nestes anos tive um ou dois abusos, não é nada. Quando mais não seja porque tirar dúvidas é importante, para que fiquem mais tranquilos. É importante que não vão informar-se com uma pessoa que não sabe ou dá uma má informação ou que se informem com o "doutor Google", que é perigoso.

O que é que procura saber dos seus doentes?
A história clínica e a pessoa que são. Quase sempre as mulheres que são mães gostam de falar dos filhos. Adormecer uma pessoa a falar naquilo que lhe é mais grato - se ela estiver bem, se for mantida a hemodinâmica, se não houver lapsos da circulação cerebral, se não houver hipotensões. É o meu trabalho fazer que a cirurgia interfira o menos possível, é muito menos disruptivo e agressivo para o doente...

Isso são conversas anteriores...
Sim, há pessoas que podem não querer ouvir falar dos filhos. Pelo nível de conversa percebe-se o grau de diferenciação da pessoa, aquilo de que gosta, e por issonunca deixo de fazer consultas com mais de 45 minutos - e isso é para o doente saudável. Uma das razões por que saí do Estado é porque em 10/15 minutos não estava a prestar um bom serviço aos doentes. Em dez minutos o que é se sabe de uma pessoa? Veem-se os exames...

Ainda se emociona com as histórias dos doentes?
Muito... Ainda ontem quando acordei um doente operado a um aneurisma da aorta: "Sr. Martins, como é que está? Ótimo! Tem dor? Não!" Para mim é extraordinário, um homem que tem aneurisma dentro de si, que se rompesse em casa teria uma possibilidade de morrer de 90% e eu acordo-o de uma cirurgia eletiva e ele diz "tudo bem, doutora, estive a sonhar!" Quando eu comecei, os aneurismas morriam na sala ou ficavam ventilados 3/4 dias e ele sai da sala a falar. "Doutora, quando posso comer?" É extraordinário!

Isso comove-a?
Sim, emocionam-me os doentes, a equipa, os internos... Não somos eternos, vivemos pelas memórias que deixamos, quer nos filhos quer nos amigos, nas relações, nos doentes e naqueles que formamos. Se desaparecermos e alguém se lembrar da nossa postura, é uma herança para a sociedade, para o mundo. Os internos, que já são médicos e estão a fazer a especialidade, começam quase sem saber abordar um doente, sabem quase tudo de teorias, mas não têm à-vontade. Eu entro na sala e digo bom dia a toda a gente, no fim dou beijinhos, tiramos fotografias no sucesso. E vê-los crescer... No início não sabem puncionar uma veia. É mais difícil ensinar do que fazer, porque temos a responsabilidade e é outro que está a fazer. A simulação vai ganhando um papel muito grande, mas nada é como o real.

"Estamos a servir pessoas que precisam de nós"

É importante a relação humana entre o paciente e o médico?
Se a medicina for só computadores, acabou a medicina. Isto é uma relação entre pessoas. Todos os dias estudo até à uma da manhã e depois leio um livro não médico. Se não tiver como objetivo tratar os outros, quase aos 60 anos, acha que conseguiria estudar todos os dias? Obviamente que é aqui que ganhamos o nosso ordenado, mas é uma relação entre pessoas. Você só consegue estimular-se a fazer cada vez melhor porque tem vidas na sua mão. Quando os meus alunos dizem "vem aí o quarto", eu pergunto "vocês anestesiam o quarto?". Estamos a servir pessoas com determinado nome, idade, que têm uma vida, que por acaso estão doentes e que precisam de nós...

Mas isso ainda falha...
Começa por falhar na educação. Está-se a educar muito para o consumismo. As pessoas têm de gostar de si próprias e serem aquilo que gostarem. Está-se a educar para o mostrar, para o parecer e não para o ser. Depois passa pela educação média nas faculdades, que tem de ser repensada. Não concordo absolutamente nada com esta abertura anormal de vagas na Faculdade de Medicina - isto é um disparate. Os alunos estão cada vez mais longe dos assistentes. Eu só deixo estar na sala operatória duas pessoas porque senão nem as conheço, nem elas conhecem o doente. Tem de ser um ensino de proximidade.

E o médico e o paciente podem ser amigos?
Uma das minhas grandes amigas é mulher de um senhor que foi meu doente há dez anos. Tanto ele como a mulher são meus amigos.Nunca o tinha conhecido até entrar na minha consulta e dizer "o meu nome é fulano de tal e vou morrer". E eu disse-lhe a rir: "Se vai morrer porque é que está aqui?" E ele diz que teve um frio... Somos amigos, de telefonemas e mensagens regulares. Está vivo, tem vários filhos, acompanha-me. Eu anestesio os doentes e não desapareço. Tem de se saber se o doente tem dor, se tem memória de alguma coisa desagradável... Temos de seguir o doente no pós-operatório, com maior ou menor intensidade, consoante o procedimento e a patologia do doente.

Tem a vida das pessoas nas mãos. Isso não a atormenta?
Compenso muito com a minha outra vertente: sou uma mãe-galinha, toda a gente pode pensar o que quiser dos meus filhos, mas só quem diz mal dos meus filhos sou eu. Empenhei-me muito na educação deles, tenho filhos "de bem". Tenho seis netos muito queridos, que adoro, para quem faço lençóis todos os Natais, porque é o meu outro lado, o meu lado manual. Gosto da terra, de no fim de semana plantar tomate, alfaces, flores, mexer na terra. Isso liberta-me. Gosto imenso de fazer festas com os meus filhos, de fazer reuniões e viagens temáticas com eles, de lermos poesia. Desde pequeninos tinham de ler uma poesia antes de abrirem os presentes de Natal. Há anos na nossa vida que são maus, ou menos bons, mas se compensarmos, se gostarmos daquilo que fazemos, e se nos habituarmos a ver "o copo meio cheio, em vez de meio vazio", reconhecer o lado bom das coisas... Nem sempre é fácil, mas aprende-se.

E assim compensa...
Ajuda-me. Mesmo que as coisas estejam a correr-me mal. E neste ano tenho duas pessoas muito próximas, a minha mãe e a minha irmã, com problemas de saúde graves. O meu marido saiu de casa no mesmo dia em que eu soube que a minha mãe tinha uma neoplasia, escolheu a sua vida, e eu serei amiga dele para a vida. Passa-se pela raiva, pela desilusão, até à aceitação; entretanto, compensamo-nos com outras vertentes e vamos superando... Se me disser que foi um dia fácil, não, não foi! No dia seguinte tive uma enorme cirurgia hepática e tive de deixar aqueles problemas na garagem do hospital porque havia outra pessoa que dependia exclusivamente de mim... Os meus filhos estão educados, o meu marido seguiu o caminho que escolheu e eu tenho de superar a desilusão e a mágoa, tenho de guardar só as memórias - e acho que a melhor forma de demonstrar amor é gostar que alguém seja feliz apesar de nos ter desiludido; a minha mãe e a minha irmã estão em tratamentos e o meu lado emocional não é agora o fundamental... O meu pai ensinou-me que tudo na vida tem de ser reduzido à equação mais simples e que com as pedras do caminho vamos fazendo alguns castelos.

"Quando nos morre um doente é uma sensação difícil de explicar por palavras"

No bloco é uma mulher só da ciência ou também recorre à fé?
Sou católica de educação, de formação, e acredito na filosofia cristã. Sei que há doentes que têm, supostamente, síndromes iguais, operados pela mesma pessoa, tratados pela mesma pessoa, anestesiados por mim, uns respondem de uma maneira e outros não. Pode dizer-me, com base na ciência, que é porque há coisas que ainda não são mensuráveis e que a ciência ignora, mas creio que não é só isso. Quando um doente deixa de querer viver, não há nada a fazer. E, quando chego ao limite do meu conhecimento, peço que me ajudem. Tenho fé.

Pede sempre que entra no bloco?
Todos os dias peço. Sou uma mulher de fé e isso ajuda-me imenso, porque até os aspetos difíceis encaro como uma missão.

E quando as coisas correm mal? Já lhe morreram pessoas nas mãos?
É difícil. Tem de se lutar até ao fim e depois fazer um debriefing sobre o que se passou. Primeiro faço comigo e depois com os que me circundam, porque não trabalhamos sozinhos - há que analisar se podíamos ter feito alguma coisa diferente. Se não podíamos e o desfecho não foi o melhor é porque somos humanos e temos limites. Temos é de ter a consciência tranquila, fazer o melhor e aprender com todas as situações. Por isso é que temos de ser rigorosíssimos. As pessoas que me conhecem pela primeira vez no bloco dizem que sou demasiado exigente. Se vejo uma seringa não rotulada, digo logo "lixo".O erro mata. E eu quero ter a certeza de que aquilo que aconteceu ali aconteceu porque não podia ser de outra maneirae não porque houve erros.

E como é que vai para casa nesses dias?
Vou para casa numa tristeza. Quando nos morre um doente, no bloco ou fora do bloco, é uma sensação difícil de explicar por palavras. Recordo, por exemplo, as conversas todas que tivemos... Tive, há pouco tempo, um doente que entrou no bloco e disse "doutora, estou nas suas mãos" e as minhas mãos não foram suficientes para o manter vivo. É muito difícil se achamos que fizemos tudo o que podíamos. Aquilo que podemos fazer é estudar mais para ver se a ciência descobre outras coisas.

Sente que falhou?
Mesmo que não tenha falhado, sinto que fui insuficiente. Fiz tudo, mas sou insuficiente.

Lembra-se de cada um dos casos?
Dentro do bloco, morreram-me oito pessoas. Fora do bloco mais... No bloco, sobretudo os politraumatizados, quando fazia grandes urgências em Santa Maria. Mas também tenho coisas gratas. No outro dia anestesiei uma mulher para um bypass distal e, quando o cirurgião lhe disse que eu era a anestesista, entrou na minha consulta e disse "senhora doutora, há 20 anos anestesiou-me para uma cirurgia de aneurisma em Santa Maria e lembro-me de que me fez festinhas e disse para não ter medo". E isso é tão bom! 20 anos depois está viva e lembra-se das minhas festinhas... O padre Tolentino escreveu num livro "só a pele aprende (...) a fraternidade exprime-se também pelo tato"... Temos de ser fraternos para com os nossos doentes.

Toca muito nos seus doentes?
O tato é muito importante, não podemos ter nojo, temos de manter o contacto com a pele e os olhos. Tenho dificuldade em acreditar nas pessoas que não nos olham nos olhos. A visão e o tato são órgãos muito importantes e que traduzem muito sobre as pessoas. Os órgãos dos sentidos dizem-nos muito... Parafraseando o padre Tolentino, "o que ouvimos, o que vemos, o que tateamos e o que nos chega através do odor" dizem-nos muito sobre as ligações interpessoais

"Acha que pode dizer com as mãos assim cruzadas 'o seu filho morreu'?"

Já teve de dizer à mãe de uma criança de 3 anos que o filho tinha morrido no bloco quando ia ser operado a uma fratura...
Morreu com uma hipertermia maligna, uma doença súbita desencadeada por anestésicos. Hoje em dia já há fármacos para resolver isso. A criança teve uma contração muscular, arritmia, arritmia, a temperatura a subir, destruição de todas as células e nós tentámos reanimar... Mas não fomos capazes...

E como é que dá uma notícia dessas? Nenhuma mãe está à espera de que o filho morra numa operação a uma fratura.
Não devia ser possível uma mãe sobreviver à morte de um filho. Eu tinha filhos da mesma idade. Lembro-me dos olhos da criança, da cara da mãe, do pai. O que é que eu posso fazer mais? Este filho morreu porque eu o anestesiei. Não havia nada a fazer.

Nestes casos também abraça as famílias?
O tato é importante. Acha que pode dizer com as mãos assim cruzadas "o seu filho morreu"? Acha que pode passar indiferente à morte do filho de uma mulher que está ao seu lado? Acha que pode dedicar-se em absoluto aos doentes se não tiver empatia com eles?

Também já teve de reanimar o seu pai...
Os meus pais têm uma casa perto de Torres Vedras e eu tinha ido lá. Há coisas que não se explicam pelo normal. Eu nunca trocava o dia de banco, mas o meu pai insistiu muito porque iria ter uma série de engenheiros amigos em casa e gostava de ter os filhos todos presentes. Às tantas ouço a minha mãe "Cristina, Cristina", e o meu pai estava em paragem cardíaca. Veio a ambulância dos bombeiros, não tinha nada, tinha soros mas não tinha material para os colocar. Fui até Torres em manobras de reanimação. Questionei-me imenso.A questão que coloquei foi: o meu pai é um homem extremamente inteligente e autossuficiente, mas, se fica com défices, vai perdoar-me? Tinha de reanimá-lo e naquela altura não era o meu pai. Ontem, um doente numa cirurgia ficou com 20 por minuto de frequência cardíaca, naquele momento é igual ao meu pai, é da minha família porque aquela pessoa pôs-se nas minhas mãos, em mim, na minha capacidade de pensar, nos meus conhecimentos. Por isso, não acho que seja lícito que alguém que não goste de estudar ou que não seja capaz de ter esta empatia venha para medicina. Mais uma vez, acho que a seleção para as especialidades não devia ser só pelo exame, nem a entrada em Medicina deve ser só por notas.

E como avaliaria os candidatos?
Quando entra um interno, vejo pela postura como são capazes de lidar. Há pessoas que têm imenso nojo dos doentes, que se afastam, têm medo. A pessoa que tem o doente mal e está a olhar para as horas... A vida vai-nos ensinando a ter alguns sinais diretos. Numa entrevista, quem participa em causas sociais, quem é dador de órgãos, torna-se extremamente importante. Mas não podemos deter-nos só nisso porque começamos a ter pessoas que, como isso conta para o currículo, vão fazer quatro semanas de voluntariado e nunca mais são voluntários... Tem de se avaliar vários parâmetros. Quem não gosta de tocar nos outros não é necessariamente pior, só que não tem perfil.

"Não, não vão parar, ela é como o meu irmão, da idade do meu irmão"


Conte-nos a história da rapariga que insistiu que fosse reanimada.
No início da minha carreira, entrou na urgência de Santa Maria uma rapariga que tinha roubado o carro à mãe e que teve um acidente de viação. Tinha rotura do istmo da aorta. Rompeu a aorta, está a ver o que é, todo o sangue sai do coração. Começou-se a cirurgia, abriu-se o tórax... Entretanto, teve uma paragem cardíaca... Tentámos reanimar na sutura, paragem cardíaca. Foram seis vezes. E, na sexta vez, o cirurgião disse "vamos desistir" e eu não conseguia pensar mais o que fazer. "Não, não vão parar, ela é como o meu irmão, da idade do meu irmão." E continuei a massajar o coração! "Não param, não param, não param!" Enquanto eu massajava, ia servindo de coração e conseguia ter um ritmo e um débito feito com a minha mão. "Não param, não param, não param!" E eles foram fazendo a anastomose e eu "não param, até eu perceber o que é". E depois consegui administrar mais fármacos, recuperar e ela está vivíssima. Isto não tem preço.

Hoje é amiga dela?
Sou. Tem três filhos. Outro doente que me emocionou há um tempo: engenheiro, era responsável pelo construção do Eixo Norte-Sul. Tinha ido de lua-de-mel e veio cansado e o cilindro do alcatrão passou-lhe por cima. Novo, um rapaz de vinte e tal anos, entrou em Santa Maria. Não consegue imaginar!É muito difícil abordar esses doentes... Os cirurgiões nem sabem o que encontram... As estruturas anatómicas estão distorcidas e não estão todas referenciadas, e é preciso manter vivo. É difícil, são momentos de uma enorme tensão... Tirou alguns órgãos, diafragma, baço, um dos rins, teve de ter ressecções intestinais, fazia pensos diários. No total, teve umas 70 cirurgias ao longo do tempo...

Setenta cirurgias?!
Primeiro foi operado para o manter vivo, para parar as hemorragias... Fazia pensos diários. Isto foi há muitos anos, só se faziam epidurais lombares, e a minha primeira epidural torácica foi feita com ele - porque não se podia fazer anestesias gerais todos os dias para o penso. Lembro-me de entrar e ouvir os gritos daquele homem e pensava "meu Deus, temos de arranjar uma maneira". Na altura, o professor de Anestesia, que era o Prof. Pinheiro de Almeida, disse "ouça lá, você que sabe fazer epidurais, porque é que não faz uma no tórax?" E eu pensei: "Então isto está escrito nos livros, eu sei a anatomia, porque é que não faço?" Nunca mais teve uma dor. Fez as cirurgias todas, foi para a Alemanha, onde reconstruiu os genitais. Entretanto, o João desapareceu e há cinco anos, já no Hospital da Luz, disseram-me que estava ali um senhor que tinha sido meu doente. Quando entrou, disse: "Não sei quem vai operar-me, mas sei que quem me vai anestesiar é a senhora!" E, quando olhei para ele, disse "é o João!" Isto não é extraordinário? Todos temos coisas más na nossa vida, mas eu tenho imensa paixão por aquilo que faço.

Quem é a sua grande inspiração na medicina?
Uma das pessoas que mais me inspiraram com o rigor da profissão foi o professor João Lobo Antunes. Ainda há dias li uma coisa em que dizia que "não sabe o que é o futuro, mas sabe daquilo que tem medo. Que é, com tanta tecnologia, com tanta burocracia, que as pessoas se esqueçam daquilo que é mais importante na medicina - que é a compaixão". Esse era um homem extraordinário. Outra pessoa é o professor Dinis da Gama, foi o homem que, quando ninguém acreditava na anestesia, me desafiou e que eu desafiei. Lembro-me da enfermeira dizer "doutora, já reparou que o professor quando é para si diz minha senhora e quando é para o seu colega diz senhor doutor?" E eu disse "não faz mal, eu passo a tratá-lo por senhor Américo". E ele: "Tem muita razão, é o meu nome." E eu: "Peço imensa desculpa, mas como o tenho por uma pessoa muito educada pensei que era o seu tratamento preferencial." Dali nasceu uma grande amizade. Ele a dizer que não queria epidurais, eu a explicar-lhe porque é que queria. Depois começou a querer fazer aneurismas toracoabdominais e eu a dizer "oh, professor, mas eu vou fazer e não sei fazer, cá não se fazem". E ele: "Quer ir para a América?"

E foi?
Sim, e ele ligou dali para o DeBakey, aquele grande senhor que classifica os aneurismas. E eu: "Professor, mas eu vou trabalhar com aquele homem?" Como todas as grandes pessoas, é uma pessoa normal.

"Tenho imensa pena do que está a acontecer ao SNS"

Porque é que deixou o SNS?
Primeiro, não estava a tratar os doentes como acho que se devem tratar. As últimas condições com que tratei os doentes, podem dizer o que disserem, são indignas. A escola onde eu estudei, Santa Maria, foi uma excelente escola médica. Tenho imensa pena do que está a acontecer ao SNS. Neste momento, as condições com enfermeiros descontentes, com os serviços envelhecidos, são más. Vem depois a meritocracia. Eu ganhava exatamente o mesmo que quem não se dedica nada. Sabe como é que eu eduquei os meus filhos? A ter 35 horas, às vezes a estar muito mais do que 35 horas mas só ganhando as 35, a ir buscar os meus filhos ao colégio, estudar e trabalhar à noite para poder ter um ordenado decente. Ao passo que agora tenho prémios pelo que faço. Não somos todos iguais, não trabalhamos todos da mesma maneira, essa ausência de meritocracia e de justiça económica no Estado não é justa. Tive reconhecimento, fiquei sempre em primeiro lugar nos concursos mas não tinha recompensa económica, ganhava tanto como aqueles que se sentavam e não faziam nada. É difícil educar cinco filhos assim. Os dois trabalhámos, muito, muito. Quando fomos para o Hospital da Luz, que é privado mas com um conceito de hospital e não de clínica, tive reconhecimento do meu trabalho e posso tratar os doentes como merecem. Por outro lado, foi o desafio de construir algo de novo, com condições, poder ensinar bem e poder fazer bem. Os meus colegas de Santa Maria não são melhores nem piores, não têm as condições para fazer. E não digam que estão a dá-las, porque não estão a dar!

Há pouco estava dizer que faz consultas de 45 minutos...
Acha que pode no SNS? Estão a contabilizar as consultas, o único parâmetro de avaliação é a quantidade. Às vezes, as pessoas precisam de algum reconhecimento, não só económico, mas também de estímulo. Já houve, mas neste momento está em colapso.

Faltam cerca de 500 anestesistas no SNS.
É uma especialidade extremamente desgastante. O SNS tem de captar as pessoas com condições de trabalho. As pessoas não podem fazer dois bancos por semana, ninguém aguenta, ganharem mal e não terem condições no bloco, não terem enfermeiros preparados. Não terem as condições não só físicas e logísticas, mas também financeiras. Neste momento, os alunos vão para o privado e para o estrangeiro. Os nossos alunos saem bem preparados, vão para a Alemanha e ganham seis ou sete vezes mais do que cá e ainda lhes pagam um ano para a estudar alemão. Os nossos internos não conseguem alugar uma casa, alugam dois a dois. Tiram o curso de Medicina e têm uma especialidade na melhor das hipóteses, 14 anos depois de terem entrado, e não conseguem alugar uma casa? Isto tem de ser pensado. E, quando dizem que temos mais médicos, não temos, contratam mais clínicos gerais, não são especialistas e isto tem de ser dito.

Como se pode reverter a situação?
Não há falta da qualidade médica, é a estrutura que está caduca. Os meus colegas do público não são piores, a minha formação foi no público. As condições que tenho para trabalhar é que são diferentes.

Não pensa reformar-se tão cedo?
Nem pensar! Para exercer no bloco há uma idade-limite porque as coronárias não aguentam este stress a vida toda. Mas há uma transmissão de saberes que se pode fazer, em simulação, em ensino. Não estou a ver-me em casa.

Estava a dizer há pouco que quer ir para África...
Gostava. Quando estive em São Tomé, tive uma ideia para um projeto. Não havia raio-X no hospital da capital, para se fazer 30 km demoram-se três horas. Não vi sujidade, mas vi pobreza, não vi fome, mas os cuidados médicos são maus. Pensei que se podia fazer ali um grande projeto, um hospital. Levava-se cirurgiões, anestesistas, radiologistas. É muito gratificante tratar quem está mesmo doente e precisa.

Na medicina também encontrou o amor.
Estamos separados, mas continua a ser o amor da minha vida... Mas para haver um casal tem de haver duas pessoas. Quando uma desiste tentamos, mas se não é possível temos de superar. Conhecemo-nos, tivemos uma família, fizemos uma vida profissional paralela extraordinária. E continuamos a trabalhar juntos.

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