Sem medo do Adamastor em Xabregas

Que a epopeia de um país tivesse que ser salva de morrer afogada há de dizer muito sobre ele, ironiza a atriz que dá voz e corpo a Somos Todos Camões, peça do Teatro Ibérico a que assisti no fim de semana e que saiu agora de cena. Em teoria, os principais destinatários eram as crianças, e daí ter ido com a minha filha Mariana. Mas a advertência tinha sido feita na comunicação da companhia sediada em Xabregas (uma zona de Lisboa que ganha nova vida graças à cultura): nada de infantilizar o público. E realmente a mensagem que passou, a da importância de Camões para Portugal e para os portugueses, tem muito valor. Não há que ter medo de ter heróis. E há fantásticas alternativas aos da Disney.

Portugal, o tal país que repetidos historiadores admitem que nasceu inviável mas que se vai reinventando há nove séculos, precisa como todos de ter heróis, e um que seja poeta não está nada mal pensado. Aliás, o nosso dia nacional não celebra nem reis, nem guerreiros, nem revolucionários, mas sim o próprio Luís Vaz de Camões. Se não é único, isto de inspirar o dia de um país na data da morte de um poeta, que me indiquem os outros admiráveis exemplos.

Mas Camões não é só um poeta e ponto final. Foi também um aventureiro, viajante pelo mundo. Terá perdido o olho em Marrocos e salvo o manuscrito de Os Lusíadas ao largo do Vietname. Pelo meio andou pela Índia e pela China e por isso a sua epopeia, a nossa epopeia, vive tanto do seu génio criativo, como da sua cultura clássica, como também da sua experiência de vida. Na época, entre os grandes das letras, só Miguel de Cervantes é comparável nisto de homem do mundo, pois combateu em Lepanto, onde foi ferido, e andou a espiar em Argel, com direito a passagem pela prisão, depois de ser descoberto e até ser resgatado. William Shakespeare, embora brilhante, ao que parece nunca saiu de Inglaterra.

Vasco da Gama é central n"Os Lusíadas. E basta pensar na globalização iniciada com a sua viagem à Índia para o idealizar como herói nacional, apesar de todos os defeitos que não podemos ignorar desde a crua biografia que do navegador escreveu Sanjay Subrahmanyam. E igualmente D. Manuel I, o rei que mandou Gama a Calecut e beneficiou do comércio da pimenta para aumentar a sua riqueza e poder, é outro herói nacional e seria um excelente candidato a inspirar o Dia de Portugal. Afinal, como ainda no sábado relembrava o seu biógrafo, João Paulo Oliveira e Costa, foi o primeiro rei na história do mundo a ter exércitos em quatro continentes e três oceanos. Aliás, faz hoje 500 anos que morreu o Venturoso.

Mas voltemos à tal ideia de país inviável, a uma história única de resiliência, a um sentimento de identidade nacional que resiste até às críticas mais destrutivas, mesmo as vindas de dentro. Sim, esse país é Portugal. E sim, o seu maior herói é um poeta. E que sentido de humor tem o povo que sabendo que esse poeta nasceu e morreu pobre responde a quem lhe exige dinheiro, ou o aborrece com outras questões, "vai mas é chatear o Camões".

Parabéns Teatro Ibérico, parabéns João Garcia Miguel, autor do texto, parabéns Rita Costa, encenadora, parabéns Ricardo Martins, músico em palco, e sobretudo parabéns Beatriz Gonçalves. Saímos de Xabregas com a Mariana a levar uma folha com um trecho camoniano e a conversar comigo sobre o Adamastor, que, claro, também aparece na peça do Teatro Ibérico. Sim, Somos Todos Camões. Afinal não dizem que somos um venturoso povo de poetas?

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