Dia de comprar um livro de Rushdie

Troquei umas palavras com Salman Rushdie em 2006, numa ida deste à Biblioteca de Santa Maria da Feira para debater o choque de religiões com o arqueólogo Cláudio Torres e o padre Anselmo Borges. O objetivo era uma entrevista para o DN que não chegou a acontecer, mas fiquei feliz por ver o escritor tão à vontade em Portugal. Creio que começava a perder o medo de ver concretizada a fatwa de 1989 que o condenava à morte por ofensas ao islão, pois afinal o Irão tinha-se comprometido a não aplicar o decreto do falecido ayatollah Khomeini depois de longas negociações com o Reino Unido (nascido na Índia, Rushdie era já cidadão britânico, à qual junta agora a nacionalidade americana).

Só depois de ler a sua autobiografia intitulada Joseph Anton consegui perceber um pouco melhor o terror em que viveu Rushdie depois da publicação, no final da década de 80, d" Os Versículos Satânicos. Como vivia escondido, como era tudo frustrante em seu redor, desde a vida familiar até à relação com o governo que lhe dava proteção, mas tinha quem dissesse que esta custava demasiado dinheiro aos contribuintes. Joseph Anton, nome construído a partir dos seus admirados Conrad e Tchekov, passou a ser a sua nova identidade, supostamente forma de o defender de um provável assassino que quase de certeza nunca leria o livro maldito.

O terror que Rushdie viveu de certa forma atingiu outros também. Editá-lo ou traduzi-lo passou a ser um ato de coragem. O tradutor japonês foi assassinado. Entrevistei um dia Nelson de Matos, da D. Quixote, e este contou-me como publicar Os Versículos Satânicos lhe valeu ameaças e a necessidade de alguma proteção policial. Rushdie já estava traduzido para português antes da polémica, mas de repente o livro que atraíra a fatwa vendia-se muito mais - como no resto do mundo - do que o extraordinário Os Filhos da Meia-Noite, por coincidência uma fábula sobre o dia da independência da Índia, que segunda-feira faz 75 anos. O próprio Rushdie festejou 75 anos há um mês e daí se percebe o que o motivou a escrever a tal fábula, vencedora do Booker de 1981.

Em Santa Maria da Feira consegui também uma assinatura de Rushdie num exemplar d" O Último Suspiro do Mouro, o meu livro preferido do escritor nascido numa família muçulmana de Bombaim, mas crítico de todos os fundamentalismos religiosos. Mais tarde li Shalimar, o Palhaço e comecei a hesitar sobre qual o melhor livro deste homem que talvez nunca venha a receber o Nobel da Literatura por causa da fatwa.

Rushdie foi agora atacado em Nova Iorque. Esfaqueado. Especula-se sobre as motivações de quem o tomou como alvo. Mas sei uma forma de mostrar solidariedade absoluta com o escritor: ir a uma livraria comprar um dos seus romances que me falte. E mesmo que não falte.

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