A missionária de "energia vulcânica" a quem chamam rottweiler

Indómita; desbragada; generosa; incontrolável; rebelde, heroica; provocadora; populista. A mulher que o país conheceu há 21 anos na sua missão por Timor suscita qualificativos e emoções bem díspares. Já lhe chamaram até rottweiler - um insulto que é também um elogio: quando fila, não larga.

Mal se vê no rosto a marca do chicote de um pide, medalha da luta estudantil contra a ditadura. "Eu vejo", diz, com uma gargalhada. "Foi numa manifestação-relâmpago organizada pelo MRPP contra a guerra colonial: era um minuto de manif e de repente vinha a pidaria. E há um tipo que estava à paisana que quando eu estava fugir me atingiu com um chicote na cara. Fiquei a sangrar, com os dentes a abanar. O meu marido [António Monteiro Cardoso, então ainda namorado e com quem se casaria a 20 de maio de 1974, depois de no dia 25 de abril a revolução a ter impedido de como planeado entregar os papéis para o casamento] conseguiu levar-me para um prédio da avó de um amigo e ela fez-me um curativo. Ainda andei uns dias com os dentes a abanar." Mas, conclui, "quem anda à chuva molha-se".

E Ana Gomes não se coíbe de andar à chuva - pode ser uma espécie de compulsão, ou, diz alguém que a conhece bem, "o grande hobby dela, meter-se em guerras", como o será o gosto pelo desalinhamento e pela provocação. Ou tudo se explicará pela coragem que mesmo quem não a aprecia reconhece - mesmo os que dizem que "saiu do MRPP mas o MRPP não saiu dela" e os que se escandalizam com o que caracterizam como acusações não consubstanciadas e julgamentos na praça pública, e veem nisso um vício maoista, essencialmente iliberal.

Uma tendência para o simplismo radical que o amigo Vital Moreira verbera, no blogue Causa Nossa (onde ela escreveu durante muitos anos), a propósito da sua candidatura presidencial, reconhecendo que um dos grandes desafios será "conceber uma plataforma eleitoral mobilizadora que coloque na agenda do debate os temas que lhe são caros (igualdade e combate à discriminação, luta contra a corrupção e o tráfico de influências, evasão fiscal, corporativismo, captura do Estado por interesses de vária ordem, lentidão da justiça, etc.), sem a tonalidade radical e simplista que tantas vezes caracteriza a sua intervenção pública, o que aliena apoios, mesmo na área do PS."

Aos berros com o embaixador dos EUA em Jacarta

Certo é que Ana Maria Rosa Martins Gomes, nascida em Lisboa a 9 de fevereiro de 1954, filha de um comandante da marinha mercante e de uma mulher que nas descrições do seu percurso surge como "doméstica", com uma irmã mais nova 14 meses e um irmão morto ainda bebé (tinha ela 10 anos), duas vezes casada e viúva recentíssima - o segundo marido, o ex-embaixador e ex-chefe da Casa Civil de Jorge Sampaio, António Franco, morreu a 16 de julho - já deu provas de como a sua determinação e combatividade podem ajudar a levar causas meritórias e aparentemente perdidas a bom porto.

Assim foi com Timor - o tema que a tornou conhecida dos portugueses enquanto encarregada de negócios em Jacarta aquando do referendo pela independência do antigo território colonial português. Muito antes de a vermos nessas intervenções públicas em 1999, nas quais descobríamos uma diplomata sem papas na língua, tão longe do estereótipo conciliatório da profissão, ela pegara no dossiê - primeiro como assessora diplomática do Presidente Eanes (1982-86), e depois na missão permanente de Portugal junto das Nações Unidas, em Genebra (1986-89), com o pelouro dos direitos humanos e a seguir, depois de passar pela embaixada de Londres e de ocorrer, em 1991, o massacre de Santa Cruz (cujas imagens, captadas por jornalistas australianos, finalmente focaram a atenção do mundo na tragédia dos timorenses e na ocupação indonésia) para o departamento de Timor no Ministério dos Negócios Estrangeiros, que foi criado em 1994. Em 1995 o PS ganha as eleições e Ana Gomes entra para chefe de gabinete do secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Seixas da Costa. Segue-se a coordenação da delegação portuguesa ao Conselho de Segurança da ONU, em Nova Iorque, de 1997 a 1998, quando Suharto, o então presidente da Indonésia, cai. "É aí que se decide abrir a secção de interesses de Portugal em Jacarta, no âmbito das negociações que já existiam entre o governo português e o indonésio", narra a própria. "Chego lá a 30 de janeiro de 1999."

O referendo que permite aos timorenses decidir o seu destino dá-se em agosto de 1999, mas antes e depois ocorreram massacres perpetrados pelas milícias pró-Indonésia. É nesse contexto que Joana Gomes Cardoso, a filha única, nascida em agosto de 1975, situa um dos poucos momentos em que viu a mãe, a quem reconhece "um otimismo incorrigível, até um pouco irritante, recusa-se a pensar no que pode vir de mau ou perigoso, insiste em ver o lado bom", ir-se abaixo. "Tinham matado um filho do Manuel Carrascalão [porta-voz local do Conselho Nacional da Resistência Timorense; o homicídio ocorreu em abril]. Falei com ela ao telefone, meti-me num avião e fui lá."
Joana, hoje presidente da EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural da cidade de Lisboa), conta como se habituou, adolescente, a ceder o quarto a refugiados timorenses. "Cresci com Timor como causa da minha mãe, mas longe de ser uma causa popular." Foi também como irredutível porta-estandarte dessa causa que uma futura colaboradora que prefere não ser identificada a conheceu em Jacarta, gravando desse encontro duas imagens fortes. "Numa está sentada no chão de pernas cruzadas, com um vestido vermelho lindo, aos berros ao telefone com o embaixador dos EUA na Indonésia, a dizer-lhe que se não agisse ia ser responsável por não sei quantos massacres." A outra, prossegue, "é de quando o Xanana [Gusmão, o líder da resistência timorense, que estava preso em Jacarta desde 1992 e fora condenado a prisão perpétua] finalmente foi libertado e deu uma conferência de imprensa. Ela estava na primeira fila, sentada com as mãos por baixo das coxas, numa pose de criança, a chorar. De emoção, de alegria, de cansaço." Foi, garante quem conta, e que viria a trabalhar vários anos com Ana Gomes, "a única vez que a vi chorar." Acrescenta: "É a Ana Gomes sem vergonha, a mesma que denuncia os voos da CIA, que denuncia a corrupção, que denuncia a fraude nas eleições na Etiópia [uma luta que a tornou famosa no país onde, diz-se, lhe chamam "anna gobese", Ana Coragem, e no qual teve em 2018 uma receção entusiástica de dezenas de milhares de pessoas]."

Entrada e saída do MRPP

Mas voltemos um pouco atrás. É já a ideia de defender causas perdidas que a leva a cursar Direito, se atendermos à explicação que dá: teria sido a série Perry Mason a inspirar a escolha. "Não tinha ninguém de Direito na família", reitera ao DN, "mas achava gira ideia de um defensor dos underdogs [fracos e oprimidos, perdedores]. Só que depois rapidamente percebi que não me interessava a área do direito de litigância. Ainda na faculdade um professor perguntou-me porque não ia para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, e quando procurei um escritório para estagiar - na altura era muito fácil, punha um anúncio no DN e apareciam propostas e era eu que escolhia - fui fazer estágio em Direito internacional público no escritório do Manuel Ribeiro".

Antes disso, porém, as lutas: no ano em que entrou na faculdade, 1972, tinha sido assassinado pela PIDE, num anfiteatro da escola, o estudante Ribeiro Santos, e as aulas começaram mais tarde por isso. "Quando entrei nem sabia o que era o MRPP. Mas fui eleita delegada de curso e liguei-me a pessoas como o Saldanha Sanches, o Garcia Pereira, o João Isidro, e iniciei-me nas atividades clandestinas."

É aí que conhece o primeiro marido, que estava anos à frente no curso e era também do MRPP. Acaba por ser suspensa, no início de 1974, e arranja emprego como secretária, planeando o casamento. "Era eu que ia ganhar dinheiro para nos sustentarmos, com a ajuda dos pais, já que ele depois de acabar o curso teria de ir fazer a tropa." Já não houve tropa graças ao 25 de Abril, mas Ana continua a trabalhar até novembro, quando o MRPP volta ao poder na faculdade de Direito e lhe pede para voltar. Normalmente, conta, "teria ido estudar à noite mas voltei para as aulas diurnas. Fui eleita em duas listas na mesma noite em que conheço o Durão Barroso [então também no MRPP]: na da direção de estudantes e na da direção da faculdade, onde havia quatro alunos. Era preciso reorganizar aquilo, e eu fui a pessoa que contratava professores e tratava da burocracia para aquilo funcionar." Ri. "Fartei-me de ser acusada de ser burguesa burocrata porque só me interessava ter a faculdade a funcionar." Quando a filha nasce, em pleno verão quente, volta ao trabalho 15 dias depois. "Disse que não queria mais estar na faculdade naquele contexto e fui para a comissão de imprensa do Comité Central do MRPP, sempre com a miúda na cesta de um lado para o outro. Passei lá o 25 de novembro, a trabalhar. E entretanto a Joana apanha uma pneumonia e vou para casa tomar conta dela, cheia de sentimentos de culpa. Comecei a pensar na vida e a pensar que aquilo não era vida."

Resolveu sair do partido, voltar à faculdade e arranjar um emprego. "Era complicado por causa do meu marido, que continuava no partido. Mas ele disse-me que se colocassem algum problema ele estaria comigo." Arranja mais um emprego como secretária e acaba a faculdade em 1979, passando a ser monitora da cadeira de Direito Económico e Internacional, da qual era professor Paulo Pitta e Cunha e assistente Ricardo Sá Fernandes. António Vitorino foi seu aluno nessa altura de fim de curso da qual guarda boas memórias: "Saíamos das aulas às 11 da noite, íamos jantar e para as boîtes."

"Ingénua, acreditei na promessa de democracia em Angola"

Está ainda no escritório de Manuel Ribeiro, onde estagiou, quando a desafiam a entrar num concurso de entrada na carreira diplomática. "Fui desportivamente e fiquei em primeiro lugar. E senti que devia entrar, até porque havia muito poucas mulheres." Natural: antes do 25 de Abril a carreira era-lhes interdita; o concurso em que entrou, em janeiro de 1980, era apenas o terceiro que as admitia. Entrou em junho para o departamento que fazia a negociação da adesão à então Comunidade Europeia. "É nessa altura que Ricardo Sá Fernandes me convida para integrar a comissão de reeleição de Ramalho Eanes. Disseram-me que não devia ir - era o tempo da Aliança Democrática [o governo PSD-CDS] e que haveria consequências, mas não tive consequências nenhumas." Até acabou por receber, garante, um convite para ir para um gabinete da AD, mas recusou. Aceita porém ir para Belém, em 1982. "Foi fantástico, gostei muito de trabalhar com Eanes e com a Manuela, fiquei amiga deles."

É na presidência que conhece o segundo marido, António Franco. "Ele entrou vindo da Comissão Constitucional, que sucedeu ao Conselho da Revolução e precedeu o Tribunal Constitucional. Mudou a minha vida." Convivem em Belém até ao final do mandato de Eanes, em 1986. Depois ela vai para Genebra e ele para Luanda. "Lá era a guerra pura e dura, fui visitá-lo nessa altura. E volto a Luanda em 1992 aquando do processo de paz, em Londres um dos meus pelouros era esse."

Hoje olha para Angola desgostada: "Ingénua, acreditei na promessa de democracia. Em 2003, já no PS [entrara nesse mesmo ano para o partido, convidada pelo então líder Ferro Rodrigues para a direção] volta ao país como secretária das relações internacionais do partido. "Um dos meus interlocutores foi João Lourenço [atual presidente angolano], descobri agora nas fotos dessa altura. O PS sempre tinha impedido o MPLA de entrar na Internacional Socialista e achei que devíamos mudar de posição, o que veio a acontecer: o MPLA entrou em 2003 na IS com o apoio do PS. Quando voltei ao país em 2008 mostraram-me os estádios e os bairros construídos pelos chineses, com total desrespeito pela população, que era despejada de qualquer maneira e fiquei horrorizada; em 2012 voltei para as eleições e vi que era uma fantochada." Nessa altura, no Parlamento Europeu (onde entrou nas eleições de 2004), faz um relatório sobre a relação entre corrupção e direitos humanos e convida o jornalista angolano Rafael Marques para ser ouvido. Não mais larga o caso de Angola e da família de José Eduardo dos Santos. "Em 2015 fiz um estudo com base em fontes abertas e identifiquei 40 empresas fictícias de Isabel dos Santos; agora, de acordo com as Luanda Leaks, são 400."

"Olha para cima"

Agarrar e não largar: é o que se diz que fazem os rottweilers, a raça de cães de guarda e luta com a qual, de acordo com um telegrama diplomático, divulgado em 2010, aquando de uma "fuga" veiculada pela Wikileaks, um assessor do primeiro-ministro José Sócrates terá comparado Ana Gomes em conversa com diplomatas americanos e a propósito dos voos ilegais da CIA (usados para transportar prisioneiros para locais de tortura, e que denunciou terem passado em Portugal com o beneplácito das autoridades portuguesas), uma das causas da socialista, que por ela afrontou o governo do seu partido: "É uma senhora muito excitada, pior do que um rottweiler à solta", teria dito Jorge Roza de Oliveira.

Essa impetuosidade feroz e temerária foi-lhe reconhecida em termos muito mais elegantes aquando da entrega de uma condecoração em Timor, quando lhe gabaram a "energia vulcânica" e é vista por quem já trabalhou com ela com um misto de admiração e desalento: "É incontrolável", diz a ex colaboradora já citada. "Ouve os argumentos dos outros mas é difícil demovê-la. É muito intuitiva, funciona muito com base no que o coração lhe diz para fazer. Não calcula nada, para o bem e para o mal. Mas tem como que uma aura à volta dela - nunca se espatifou."

No PS teve logo à entrada oportunidade de provar a têmpera: foi a altura do caso Casa Pia, que ainda lhe carrega a voz de indignação e fúria - e de acusações que não abjura, como a que fez a Paulo Portas, de ser origem, ou uma das origens, da maquinação que leva à acusação de Paulo Pedroso e à implicação de Ferro Rodrigues. Imputa-lhe mesmo, em declarações de 2011, comportamentos que poderiam fazer dele presa de chantagem, evocando uma cabeleira loura e fazendo paralelismo com Dominique Strauss-Kahn, o presidente do FMI que acabara de ser acusado de um crime sexual. "Não me arrependo do que disse, sei que é grave mas não me arrependo. Disse que ele não era idóneo para ser ministro, por causa do caso dos submarinos - que como toda a gente sabe levou a condenações na Alemanha por corrupção mas em Portugal não levou à acusação dos corrompidos - e porque montou uma central de desinformação para desviar as atenções, no processo Casa Pia. E nunca me puseram um processo."

O partido descobriria depois que a Ana Gomes capaz de avançar assim, desarvorada, em terras de ninguém em defesa de socialistas era também capaz de ser um espinho encravado - no caso dos voos da CIA como em várias disputas internas: apoiou Alegre nas presidenciais de 2006 em detrimento de Soares, candidato do partido, e António José Seguro contra Costa em 2014. O momento do seu discurso nos congressos tem sido sempre antecipado como um partir de loiça - ela que paradoxalmente tem na coleção de porcelanas orientais que iniciou quando colocada em Tóquio um tesouro e uma paixão. "Ganhei lá uma dimensão estética que não tinha. Porque ao princípio é tudo horrível, a gente tem de se concentrar no detalhe."

Olha para cima, disse à filha Joana quando esta se queixava da fealdade da cidade japonesa. Uma bela metáfora, a condizer com a qualificação alguém faz dela: "Tem um lado de missionária." A mesma pessoa, porém, adverte que "a ideia de missão em política é terrível".

O espírito de missão que estremece a filha nos riscos que a mãe corre, como quando foi a Malta após o homicídio da jornalista Daphne Caruana Galizia, em 2017 e andou a trocar as voltas aos guarda-costas para se encontrar com contactos secretos, ou na Ucrânia se cruzou com um jornalista português, ele a fugir de uma praça onde tinha havido mortos, ela a avançar.

A missão que a leva a defender denodadamente o estatuto de denunciante do hacker Rui Pinto e clamar que "se o Estado de Direito serve para proteger criminosos, alto e para o baile, não posso tolerar que o Estado de direito sirva para isso".

Populista? Paulo Pedroso, que está com ela na campanha para Belém, reconhece que é alguém que "puxa as causas até ao limite", mas recusa o epíteto. "Os populistas fazem a dicotomia do povo contra o sistema. A Ana aponta casos concretos de disfuncionamento do sistema que considera graves. Não diz que há uma elite política que explora o povo; diz que há vários grupos que exploram o povo." Faz uma pausa, sorri: "Não estou a dizer que não há populistas que gostam da Ana Gomes - mas estão enganados."

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