PSD: cabeça fria, contas difíceis

Madonna e Miguel Pinto Luz. O futuro e as ideias.

1. Neste fim de semana o PSD começou a escolher um líder para tempos difíceis (Rui Rio e Luís Montenegro disputam a segunda volta no próximo sábado). Serão sempre, mesmo que a política como a conhecemos faça suspeitar de que haverá um horizonte de eleições mais breve do que o calendário eleitoral indicaria. É que a política como a conhecemos já não existe. E é à direita que se jogam os grandes desafios ideológicos dos próximos tempos - e o PSD está numa posição particularmente charneira.

O PSD é um partido de tradição, daqueles aos quais a distância do poder faz mossa e a sua proximidade rejuvenesce. Por isso, e apesar da fraca polarização em Portugal, e de esta ameaçar mais facilmente os partidos que se posicionaram mais longe do centro, os sociais-democratas já começaram a fazer contas ao dano que a atual fragmentação ideológica e partidária lhes pode infligir no futuro.

E é aqui que está um dos maiores desafios do PSD. Pode não ser suficiente continuar a disputar eleições ao centro. Pode não chegar continuar a apresentar-se como alternativa credível aos socialistas. E pode não ser possível, sobretudo, fazer uma coligação com os centristas - será que ainda haverá centristas, e será que os centristas permanecerão centristas.

Por tudo isto vai ser difícil manter a cabeça fria quando for preciso decidir com quem fazer coligações, nesse cenário. Vai ser difícil mas necessário. Onde traçar linhas vermelhas - ou não traçar. E os efeitos que isso poderá ter entre perder e ganhar eleitores.

O líder que sairá destas eleições diretas - e depois será reconfirmado num congresso - terá pela frente este caminho complexo. É por isso particularmente preocupante o vídeo de campanha do candidato Miguel Pinto Luz em que ele imita uma reportagem de um canal televisivo, no fundo fazendo uma notícia falsa - embora a desconstrua a seguir. Um político que pode ter este caminho difícil pela frente tem de ter a certeza do que está a fazer quando entra no campeonato da desinformação - é que este é um campeonato onde não há "brincadeiras", porque qualquer "brincadeira" tem aparência de realidade (falsa).

Isto não é um trocadilho ontológico. O jogo da desinformação é o que jogam os que não jogam com as mesmas regras dos partidos democráticos. Como é o PSD - e é bastante desejável que assim continue.

2 Um dia Madonna deve ter acordado farta de si própria, como acontece a qualquer pessoa mas pode ser um sentimento mais acutilante quando se é podre de rico, ou famoso à escala mundial, ou importante para lá dos limites do humano. E no seguimento dessa insatisfação aconteceu-lhe Portugal.

Melhor dizendo, aconteceu-lhe Lisboa. Viveu cá, passeou por cá, inspirou-se aqui, traduziu o que sentia num álbum novo - cuja criatividade, já garantiu, foi espicaçada por esta cidade. E agora, a partir deste fim de semana, estará no palco "onde tudo começou", como ela própria assumiu no seu Instagram. No Coliseu.

O que aconteceu a Madonna em Lisboa não é banal, como não são banais os efeitos que teve e terá - já lá iremos. Uma estrela mundial conseguiu andar por esta cidade cosmopolita e cheia de turistas e locais sem que a importunassem demasiado, sem selfies ou perseguições de fotógrafos, sem paparazzi. E isso foi o suficiente para que ela sentisse a diferença de todos os outros sítios que a cansavam a ponto de estar numa espécie de impasse na sua carreira, como confessou, também.

Uma estrela mundial teve a humildade de perguntar aos locais o que haveria de ouvir e ver, seguiu os seus conselhos, abandonou os preconceitos e deixou-se ir. Sem preconceitos e guiada por conhecedores, Madonna terá provavelmente tido acesso a uma Lisboa que os lisboetas já não veem e que os turistas não atingem. A Lisboa de Madonna é mestiça, é africana, é a das batucadeiras de Cabo Verde que tocam e cantam nos subúrbios de Lisboa, é a dos músicos africanos, dos guitarristas prodígio do fado, e disto tudo misturado em becos e azulejos de Alfama.

Não há nenhum motivo para não nos sentirmos orgulhosos, quando o resultado disso está há três meses a rodar nos palcos do mundo. Lisboa, no palco de Madonna, é uma espécie de terapia nacional.

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