Brutalidades em tempo de paz

Que avaliações podemos fazer sobre o choque brutal provocado pelo covid-19 na globalização e na política internacional? Será a maior disrupção desde a Segunda Guerra Mundial ou o acelerador intempestivo de várias tendências globais em curso? Ou ambas?

Os efeitos da pandemia em curso ainda vão no adro, mas é possível discutir ângulos de análise por defeito e outros por excesso. Comecemos por estes. Muitos têm perentoriamente enfatizado o carácter apocalíptico do covid-19 nas várias dimensões da globalização, recorrendo ao tremendismo de algibeira para prever o que aí vem. Não disputo a extensão irreparável dos danos a curto prazo, sentidos já por milhões de pessoas por todo o mundo. Uma pandemia que provoca um apagão autoimposto nas economias mais industrializadas não causa certamente males menores. Contudo, o covid-19 tem sido mais um acelerador intempestivo de várias tendências globais que a última década revelara do que o criador de uma novidade absoluta.

Falamos hoje do declínio da globalização como efeito colateral da pandemia, mas os números dizem-nos que, em parte, ela já estava a ocorrer, quer nos fluxos globais de investimento direto estrangeiro quer do comércio internacional. O assalto à globalização tinha tido uma primeira ronda na grande crise financeira de 2008, a que se seguiram os efeitos alarmantes provocados pela crise climática e mais recentemente o frontal choque comercial entre EUA e China. O covid-19 é a etapa seguinte: brutal, intensiva, implacável, mas não a origem da tendência. Ao declínio da globalização tal como a conhecíamos, podemos ajustar o reforço do regionalismo, como plataforma produtiva e de fluxos mais domáveis (comerciais, energéticos, logísticos, tecnológicos) e, por via disso, mais próximos da esfera reanimada das decisões soberanistas dos Estados. O reforço do seu papel assistencialista é outra das inevitáveis consequências das crises que enfrentamos, provando o mérito da social-democracia em tempos de cólera (até para liberais de cultura livresca) e desafiando-a a reinterpretar-se para os tempos de normalização.

Falamos também hoje da total ausência de liderança internacional, ao invés da que os EUA assumiram contra o ébola, mas a retração estratégica de Washington para conduzir uma "comunidade internacional" mobilizada é, nalguns aspetos, até anterior à eleição de Donald Trump. Ninguém honestamente esperaria que a atual administração tivesse a arte, o engenho e a vontade de liderar uma frente multilateral eficaz contra o covid-19. O que podemos dizer é que há um preço a pagar quando o sistema internacional apenas gera falsos equilíbrios de poder, dos quais não resulta nenhuma proposta à altura dos desafios que enfrentamos, nem sequer uma articulação mínima que esbata os riscos de uma ordem apolar. O que esta pandemia tem provado é que nenhuma grande potência internacional ou regional está a sair vencedora, ou pelo menos com vantagem competitiva nítida. Os EUA mergulharam subitamente no maior cataclismo do pós-guerra; o softpower da China já está a ser colocado no seu devido nível de credibilidade; o mesmo se passa com a Rússia; enquanto os principais países europeus e a UE tentam gerir a depressão com as conhecidas disfuncionalidades autoatribuídas.

Falamos ainda da desadequação progressiva de algumas organizações multilaterais, fundamentais em qualquer crise global (financeira, migratória, energética, de paz), seja por cristalização da sua representatividade política seja pelo anacronismo das regras de funcionamento ou da benignidade das suas atuações. Basta ver o desgaste monumental da OMS ou a total inexistência da ONU como instrumento natural para coordenar uma resposta eficaz à dimensão da crise que vivemos? A tendência para a desvalorização multilateral não nasceu agora, foi ciclicamente exposta, imposta e assumida. Teve presidentes americanos que ensaiaram o seu cirúrgico apagamento, outros que a recompuseram, mas nenhum lhe causou tanto prejuízo material e moral como Trump. O covid-19 veio tão-somente revelar o custo monumental desse progressivo ocaso.

Mas se estes são ângulos de análise por excesso aos efeitos da pandemia, há também alguns por defeito que importa discutir. Desde logo porque tudo indica não estarmos sequer no início do fim do controlo do vírus, que pode chegar em vagas, atropelando narrativas políticas e facilitismos sociais. Também parece não estarmos próximos de uma vacina, quanto mais da sua aplicação maciça. Dizem os especialistas que este cenário pode levar até dois anos. Já as previsões da OCDE revelam colossais contrações do PIB nas grandes economias do G20 (90% da riqueza mundial, 80% do comércio), entre os 15% e os 35% a curto prazo. E um estudo recente feito por três economistas da Universidade da Califórnia (Jorda, Singh e Taylor), depois de analisadas as 12 maiores pandemias desde o século XIV (todas com mais de cem mil mortos), aponta para efeitos macroeconómicos sentidos num horizonte de 40 anos. Tudo isto é suficientemente alarmante para qualquer país, por menos afetado pelo vírus que esteja a ser.

A depressão económica global está já a acelerar sem apelo nem agravo a transformação tecnológica no mercado de trabalho, muito dele precário e sob uma instabilidade crónica. A desproteção na saúde e o arcaísmo dos modelos educativos serão prioridades políticas imediatas, reforçadas nos orçamentos e provavelmente menos sujeitas a disputas ideológicas mesquinhas. Já a tentação por mecanismos de vigilância digital, típicos das sociedades autoritárias, está hoje em equação por qualquer democracia. Estávamos a caminhar para aqui há alguns anos, fomos aceitando o facto consumado em troca de uma falsa sensação de modernidade e aproximação social que comodamente a tecnologia cristalizou. O contexto alargado de maior isolamento comportamental pode aumentar a necessidade de os Estados, apetrechados de poderes extraordinários, percorrerem o roteiro do autoritarismo digital, da deteção e da repressão. Que o comodismo que nos levou até aqui não nos tolha a reação na fase seguinte.

Uma outra avaliação a que deveríamos estar atentos é à da eficácia dos modelos de Estado para lidar com as crises de saúde pública e da economia. Serão as democracias disciplinadas da Ásia que melhor sairão desta gestão binária? Que vantagens estratégicas tirarão para se autonomizarem na relação com a China? E os problemas evidentes entre o governo federal americano e os estados são apenas fruto de incompatibilidades com Trump ou levantam problemas orgânicos mais profundos no domínio das competências previstas pela Constituição? Que clivagem está aqui em marcha, acelerada por uma eventual reeleição do atual presidente? E o modelo centralizado e prepotente da China não tem rachas suficientes para o enfraquecer internamente e na avaliação condescendente que se faz no exterior? E será sustentável tamanha amplitude de coligações variáveis no interior da União Europeia, desarticulada em tempos de crescimento, deslassada em tempos de pandemia? Pode uma hecatombe financeira em Itália acelerar a indispensável rede de segurança sistémica na zona euro? E que oportunidades abre para Portugal uma reindustrialização à escala europeia, capaz de lhe conferir outra autonomia e resistência ao choque geopolítico?

São tudo questões com respostas por dissecar. O que parece seguro afirmar é que serão elas a definir o tipo de sociedade em que viveremos, a política que faremos, as organizações onde trabalharemos e as relações internacionais que teremos. Além de um brutal acelerador das tendências em curso, o covid-19 é o maior teste de stress a todos os regimes políticos em tempo de paz.

Investigador universitário

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