"A Rússia não vai conseguir parar a integração da Ucrânia na Europa"

Dmytro Kuleba, chefe da diplomacia ucraniana, quer ligar empresas da Ucrânia e de Portugal, assim como deseja que as relações com a UE se estreitem ao ponto de a adesão ser uma mera formalidade.

Foi nomeado vice-primeiro-ministro para a integração europeia e euro-atlântica no final de agosto do ano passado. Contou que quando foi convidado perguntou ao primeiro-ministro de então se era mesmo para integrar a Ucrânia na União Europeia e na NATO ou só para fingir, ao que o PM respondeu que era para integrar. Mas seis meses depois trocou de cargo. Pode explicar o que aconteceu?
É simples. Estava muito entusiasmado com o trabalho que realizava mas na primavera houve a mudança de primeiro-ministro e o presidente convidou-me para o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, o que aceitei. É bom trabalhar na integração europeia e euro-atlântica mas para a carreira diplomática trabalhar com o mundo todo é mais interessante. E quando o presidente faz um convite é difícil de recusar. Ao mesmo tempo insisti que o posto em que estava teria de ser preenchido de imediato para não haver um abrandamento nos esforços de integração.

Moscovo, ou melhor, Putin, nunca aceitou a integração dos países bálticos na UE e em especial na NATO. Sabemos o que aconteceu depois de a Ucrânia ter assinado em 2014 o acordo de livre comércio com a UE. Acredita que o Kremlin no futuro possa querer usar o leste ou a Crimeia como moeda de troca?
Acredito que a Rússia não vai conseguir parar a integração europeia e euro-atlântica da Ucrânia. Podem tentar influenciar, atrasar, mas não conseguem parar. Para a Rússia, no que respeita à Crimeia, esta não é moeda de troca. Eles acreditam que tomaram o seu controlo de forma permanente e definitiva, o que é um enorme erro. Estou totalmente convicto de que um dia a Crimeia vai libertar-se do jugo russo e nós faremos o nosso melhor para ajudar que isso aconteça. No que respeita ao leste, sim, a guerra no leste ucraniano é uma ferramenta para a Rússia influenciar a política interna, mas também para tornar a Ucrânia menos atrativa para os parceiros europeus porque é um país em conflito. Mas desde 2014 temos assistido a esforços da UE e das capitais dos países europeus para aprofundar os laços com a Ucrânia. Portanto, a Rússia está a falhar na sua política.

A guerra no leste ucraniano é uma ferramenta para a Rússia influenciar a política interna, mas também para tornar a Ucrânia menos atrativa para os parceiros europeus

O chefe da diplomacia europeia Josep Borrell disse que a UE não quer fazer da Bielorrússia uma segunda Ucrânia. Para si esta declaração é mais uma assunção de responsabilidades no que aconteceu na Ucrânia ou uma confissão da incapacidade da UE para atuar no que a Rússia considera ser a sua esfera de influência?
Vamos ser francos: em 2014 ninguém poderia prever na sua totalidade o comportamento da Rússia, a agressão ao meu país e a ocupação ilegal da Crimeia e de áreas do leste da Ucrânia. Claro que o que se seguiu foi bastante traumático quer para a Ucrânia quer para a União Europeia, mas isto é história e pertence ao passado. Eu não acredito que fazer um paralelo entre a Ucrânia de 2014 e a Bielorrússia de hoje seja relevante por uma razão muito simples: em 2014 a Ucrânia estava a fazer uma escolha e fez uma escolha, que foi separar-se do mundo russo e regressar à família europeia, da mesma forma que a Polónia, a Hungria ou os estados bálticos fizeram nos anos 1990. Nós estamos atrás no calendário, mas seguimos o mesmo caminho. Fizemos uma escolha, queremos fazer parte da Europa e não do mundo russo. A Bielorrússia não está a fazer essa escolha, por isso é impossível que o mesmo aconteça. Eles têm uma união com a Rússia. Quem quer que triunfe nesta crise, a Bielorrússia vai continuar a desenvolver-se como um país com relações muito especiais e estreitas com a Rússia. Quando me encontrar em breve com o bom amigo Borrell irei discutir estes comentários com ele e explicar-lhe porque é que as suas declarações não foram totalmente corretas.

Fizemos uma escolha, queremos fazer parte da Europa e não do mundo russo.

A pandemia só mais recentemente atingiu a Ucrânia com força, uma vez que em dois meses o número de mortos quase triplicou. Quais são as maiores dificuldades trazidas pelo coronavírus?

Hoje [quarta-feira] falei com o meu homólogo português [Augusto Santos Silva] e chegámos à conclusão de que o impacto é igual. A covid-19 faz um teste de colisão ao sistema de saúde de qualquer país, danifica severamente qualquer economia e a saúde das pessoas. Na Ucrânia fomos bem-sucedidos na contenção do vírus num primeiro momento porque aplicámos restrições rígidas e o confinamento. Mas as restrições foram levantadas no início do verão e as pessoas começaram a socializar e a não seguir as regras de distanciamento social e desinfeção e vemos os números a crescer. Mas a situação na Ucrânia não é muito diferente daquela de outros países. O maior problema agora é que é impossível reintroduzir restrições rígidas. As pessoas já não vão respeitá-las. Isto cria desafios e o maior deles é sem dúvida o estado da economia. Temos de encontrar formas de apoiar a economia. Ganhámos algum tempo da primavera até agora para preparar-nos para o número crescente de casos. Mas a economia é a prioridade e precisamos de dinheiro.

O maior problema agora é que é impossível reintroduzir restrições rígidas. As pessoas já não vão respeitá-las

Kiev ainda não recebeu o pacote de apoio de 940 milhões de euros de Bruxelas?
Assinámos os documentos e ratificámos o acordo da assistência macrofinanceira na semana passada, por isso estamos agora em conversações técnicas com Bruxelas para aplicarmos este acordo e recebermos a assistência.

O acordo de livre associação com a UE está a produzir resultados ou é insuficiente para as ambições da Ucrânia?
O acordo funciona e produz bons resultados. Nos últimos seis anos a UE passou a ser o nosso principal parceiro comercial enquanto mercado comum, o que é um resultado extraordinário. Mas mais importante, o acordo cria conexões e ligações entre empresas europeias e ucranianas. Este acordo é mais do que economia, é na verdade a construção de laços entre a UE e Kiev. Este acordo entrou em vigor há seis anos mas começou a ser negociado muito antes. A estrutura da economia mudou e o potencial do comércio também mudou, por isso precisamos de fazer uma atualização para irmos ao encontro da realidade e para que ambas as partes beneficiem ainda mais. Vamos comprometer-nos nesse esforço de modernização para torná-lo mais eficiente.

Há alguma data para a qual a diplomacia ucraniana aponte para se juntar à UE?
Seria um erro apontar uma data. A integração não depende apenas da Ucrânia mas também da UE. Alguns estados membros ainda estão céticos quanto à adesão da Ucrânia, mas estou certo de que com o tempo a posição mudará. O que temos de fazer é chegar a um ponto em que a Ucrânia esteja de facto integrada, em que a adesão é apenas um facto. A integração de facto é mais importante do que a integração de jure.

A integração 'de facto' na UE é mais importante do que a integração 'de jure'.

Um dos pontos em que a UE insiste na Ucrânia é o capítulo do combate à corrupção, tendo contribuído com milhões de euros em programas. Há resultados palpáveis? Os ucranianos sentem diferenças no quotidiano?
A melhor maneira de combater a corrupção é não praticá-la. Não dar subornos nem recebê-los. Isto tem de fazer parte da sociedade culturalmente de forma a combater a corrupção com eficácia. Em 2014 deu-se uma revolução no combate à corrupção. Agora temos uma infraestrutura institucional: o departamento que investiga casos de corrupção, a agência de prevenção da corrupção e um tribunal para apreciar casos. Claro que as pessoas esperam que a corrupção seja eliminada de vez, mas leva tempo. Respondendo à pergunta, estou satisfeito com os resultados mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Como tem declarado, a relação com os EUA é estratégica. A controvérsia do telefonema entre os presidentes da Ucrânia e dos EUA, que acabou com a destituição do presidente dos EUA pela Câmara dos Representantes, foi prejudicial para a Ucrânia ou acabou por devolver alguma luz a um conflito caído no esquecimento internacional?
Ambos. Como em muitas coisas na vida, ambos. Foi prejudicial, como qualquer conflito, mas ao mesmo tempo, e como bem disse, trouxe a agressão russa à Ucrânia de volta às manchetes, de volta aos holofotes. E à medida que sairmos desta crise acredito que vamos ganhar mais do que perder. Em especial dado o facto de a crise não ter abalado o apoio bipartidário. Quer republicanos quer democratas no Congresso dos Estados Unidos apoiam fortemente a Ucrânia.

Isso é um facto, porém a administração norte-americana não dá sinais de ser pró-Kiev.
A administração dos EUA, como várias vezes diz, é pró-América. America first. Nunca irá dizer Kiev em primeiro, ou outra capital qualquer. É sempre América primeiro.

A comunidade ucraniana em Portugal é um exemplo de integração. Há alguma reivindicação no que respeita às autoridades portuguesas?
Disse ao ministro dos Negócios Estrangeiros português que a Ucrânia está satisfeita com a maneira como a sua comunidade é tratada em Portugal. Acredito que esta comunidade é um grande ativo na relação bilateral e aproxima muito os nossos países, apesar da distância. A única questão que tenho não é para as autoridades portuguesas, mas para a comunidade, que gostava de ver mais organizada, mais ativa na vida social. Queremos que sejam parte integral da sociedade e residentes leais de Portugal, mas ao mesmo tempo queremos que se mantenham ucranianos e que mantenham tradições, língua e cultura e que sejam efetivamente representados no Alto-Comissariado para as Migrações.

Gostava de ver mais a comunidade ucraniana mais organizada, mais ativa na vida social.

As relações económicas e empresariais entre Portugal e Ucrânia, no entanto, ainda estão por explorar. O que se pode fazer para melhorar?
A agenda empresarial ocupa grande parte da minha visita a Portugal e disse três coisas hoje com os empresários portugueses e com o ministro da Economia: primeiro, as empresas portuguesas são mais do que bem-vindas na privatização de empresas ucranianas; segundo, a Ucrânia tem excelentes possibilidades em ajudar Portugal na transformação da economia para o digital. Somos uma potência no que respeita a engenharia de tecnologias de informação e temos um programa de grande sucesso chamado Estado no smartphone, onde o cidadão pode aceder aos serviços do Estado no telemóvel. Podemos partilhar esta experiência; terceiro, gostaria de ver empresas portuguesas e ucranianas criarem uma sinergia para entrarem em mercados africanos. Estas são as três prioridades, mas também há a indústria espacial, onde podemos cooperar, e a agricultura, somos um país que fornece segurança alimentar a todo o mundo ao vender cereais e óleo vegetal globalmente. O que precisamos fazer é instrumentalizar o processo, ligar empresas. Disse aos empreendedores portugueses que se precisarem fazemos uma visita guiada. Às vezes os negócios fazem-se por si, outras vezes precisam de alguém que possa ajudar no enquadramento legal e nas particularidades. Nós estamos prontos para ajudar.

É melhor ser um pobre diplomata ucraniano do que um rico homem russo da Gazprom.

Numa nota mais pessoal: tinha 10 anos quando a URSS se dissolveu. Como viveu esse período? Foi decisivo para querer estudar relações internacionais?
Nessa altura, não. Cresci numa família ucraniana mas o meu pai [Yehor] estava integrado na estrutura política da União Soviética. Em 1991, o meu pai estava a estudar em Moscovo e quando se deu a independência e a União Soviética se desintegrou o meu pai foi convidado a permanecer na Rússia e a continuar a sua carreira no campo do transporte de gás. Mas recusou a oferta e decidiu voltar para a Ucrânia, onde entrou no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Os seus anos iniciais no Ministério fizeram que eu integrasse a família diplomática e foi isso que despertou o meu interesse para a diplomacia. Portanto se ele tivesse continuado em Moscovo hoje estaria a trabalhar para a Gazprom, seríamos bilionários [risos]. Mas acho que é melhor ser um pobre diplomata ucraniano do que um rico homem russo da Gazprom.

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