Novo vírus na China é de uma família de Henipavírus que "nunca chegou ao Ocidente"

Cientistas detetaram um novo vírus de origem animal em 35 infeções em seres humanos. Tudo indica que o Langya integra a família dos vírus Hendra e Nipah, conhecidos por serem raros, mas com uma elevada taxa de letalidade. Até agora, não há registo de transmissão entre humanos. O infecciologista Jaime Nina explica ser normal o aparecimento de novos vírus todos os anos. "Uns dão poucos casos, outros dão a volta ao mundo, como o SARS-CoV-2."

Ana Mafalda Inácio
Novo vírus faz parte de uma família de vírus que é rara, mas muito agressiva, pois regista uma elevada taxa de letalidade.

Um estudo desenvolvido por cientistas da China e de Singapura, publicado no New England Journal of Medicine, uma das mais prestigiadas revistas médicas do mundo, veio revelar ter sido detetado mais um novo vírus (Langya) de origem animal naquela parte do mundo, mais precisamente nas províncias de Shandong (leste da China) e em Henan (no centro). No artigo, os cientistas referem tratar-se de um vírus da família dos henipavírus, dos quais são conhecidos o Hendra (HeV) e o Nipah (NIV), que infetou 35 humanos e que nenhum dos casos desenvolveu situações graves de doença. Os sintomas detetados nos pacientes foram febre, tosse, perda de apetite, dores de cabeça e musculares, e náuseas.

Até agora, lembram os cientistas, "a transmissão ocorreu do animal para o homem, não havendo provas de casos de transmissão de pessoa para pessoa. Embora estudos anteriores, no caso do Hendra e do Nipah, indiquem que este tipo de contágio não está descartado".

O DN ouviu o infecciologista Jaime Nina, que tranquiliza ao afirmar: "O aparecimento de novos vírus é uma situação normal. Todos os anos são detetados milhares de novos vírus, uns dão meia dúzia de casos, outros dão a volta ao mundo, como o SARS-CoV-2", mas alerta: "Há uma coisa que não nos podemos dar ao luxo de deixar de fazer, que é diminuir a investigação de vírus de origem animal que podem passar para o homem em regiões como a China, que é muito rica neste aspeto", diz, lembrando que "os vírus não precisam de passaportes, passam facilmente as fronteiras, como vimos com o SARS-CoV-2".

Jaime Nina recorda, no entanto, que "a família dos henipavírus (Hendra e Nipah), a que pertence este novo vírus Langya, nunca passou a barreira para o Ocidente. Só há conhecimento de casos importados. Os reservatórios naturais destes vírus são um tipo de morcego que só existe em regiões tropicais e do sul da Ásia. As zonas secas, como Arábias e África, têm sido uma barreira intransponível para estes morcegos, que estão acantonados no oriente, desde o Paquistão até à China e depois até à Austrália. Nunca chegaram a este lado do mundo nem a África".

De acordo com o artigo publicado no New England Journal, o novo vírus foi detetado por meio de amostras recolhidas da garganta de pacientes que tiveram contacto recente com animais, "não havendo atualmente vacinas ou tratamentos" para a sua prevenção.

O mesmo acontece com os vírus que estão na sua origem. "Não há tratamento conhecido para o Hendra ou para o Nipah. O que há é tratamento para os sintomas nos seres humanos, o qual tem tido alguns resultados. Pelo menos, a letalidade é mais baixa do que era nos primeiros casos", explica Jaime Nina.

O infecciologista do Hospital Egas Moniz e professor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade Nova de Lisboa, salienta ao DN que, "em relação ao Hendra, 1/3 dos humanos infetados acaba por morrer. No caso do Nipah, esta taxa pode chegar aos 2/3, como aconteceu num surto no Bangladesh. São vírus perigosos, associados a encefalites, e constituem também um grave problema para a veterinária: 90% dos animais infetados também morrem".

Jaime Nina salienta ainda que, "apesar de serem dois vírus da mesma família, são diferentes, embora costumem aparecer associados porque o quadro clínico de um e de outro tem muitas semelhanças". Por outro lado, "ambos têm como reservatório habitual um tipo de morcego frugívoro. O Hendra infeta habitualmente cavalos e depois os tratadores destes ou pessoas que lidam com estes animais. Foi descoberto na Austrália há cerca de 20 anos, em surtos em estábulos de cavalos de corrida, que é uma atividade económica importante para aquela parte do mundo. E quando os animais começaram a morrer, os tratadores decidiram financiar a investigação para descobrirem o que fazer para a evitar e como a tratar". O Hendra, que é um vírus raro, foi descoberto na Austrália, mas a sua distribuição vai até à Indonésia e às Filipinas.

Quanto ao Nipah, Jaime Nina refere ter sido descoberto originalmente na Malásia, mas a sua distribuição também desde a ponta norte da Austrália até à Índia e China. "É também uma infeção de morcegos frugívoros que é passada aos seres humanos através dos suínos. Os morcegos dormiam durante o dia nas pocilgas, largavam os seus dejetos, os porcos infetavam-se e transmitiam aos tratadores, seres humanos".

Mas um surto no Bangladesh veio demonstrar "haver uma transmissão mais direta, ao atingir crianças crescidas e adolescentes", conta. E isto porquê? "As crianças e os adolescentes subiam às arvores para colher um fruto de que gostavam muito e do qual os morcegos, que são o reservatório natural do Nipah, também gostam. Os animais comiam uma metade do fruto e as crianças a outra, infetando-se através da baba que os morcegos deixavam na fruta".

Segundo refere, "esta segunda versão de contágio pelo Nipah registou uma elevada taxa de letalidade na Índia, mas se esta taxa é devido ao facto de o vírus ser mais agressivo ou de as populações terem menos capacidade de lidar com o vírus, não sabemos. É ainda um ponto de interrogação para a comunidade científica". O certo é que as estatísticas da Índia e do Bangladesh revelam que 2/3 dos casos humanos infetados com o Nipah morreram.

Apesar de raro, este vírus assustou a Malásia. De tal forma que o país desenvolveu "um programa de prevenção". "Só é autorizado a criar porcos para consumo e venda quem faz um curso para saber como se há-de proteger e como evitar que os morcegos nidifiquem nas pocilgas para não contaminarem os porcos. E há também inspeções veterinárias às explorações de suínos. Nas zonas mais pobres da Índia ou do Bangladesh a prevenção que se faz é tentar evitar que as pessoas comam a tal fruta que os morcegos comem para os humanos não se contaminarem", especificou ao DN.

O infecciologista considera que "não há risco de o Hendra e o Nipah chegarem ao ocidente". Em relação ao Langya assume "não saber ainda o que poderá acontecer". A informação disponível revela que um dos vetores de transmissão é o morcego frugívoro, o hospedeiro natural do Hendra e do Nipah, os quais são "uma das principais causas emergentes do salto de doenças de animais para seres humanos", refere a própria OMS.

O estudo agora divulgado revela que foram feitos testes a 25 espécies de animais selvagens, tendo sido detetado o mesmo vírus em cabras, cães e musaranhos (ratos). O vírus Langya foi detetado recentemente, mas os laboratórios da China já estão a tentar estabelecer um método padronizado de teste de ácido nucleico para identificar o vírus, para que as infeções nos humanos possam ser detetadas o mais rápido possível e monitorizadas.

O vice-diretor do Departamento de Patologias Infecciosas do Hospital Huashan, associado à Universidade de Fudan, parceiros no estudo já veio relembrar que "o Coronavírus não será a última doença contagiosa a causar uma pandemia, pois novas doenças terão um impacto crescente".