Premium De Agnès Varda à produção soviética. Grandes clássicos reaparecem em DVD

Oferta do mercado em DVD está em destaque neste verão cinematográfico.

Se o leitor é um espectador descrente nas ofertas do verão cinematográfico, o DVD continua a ser uma alternativa a ter em conta. Seriamente em conta, vale a pena dizer. Isto porque, se é verdade que há vozes pessimistas, considerando que as plataformas de streaming estão a tornar o DVD obsoleto (?), não é menos verdade que a oferta do mercado está longe de ser banal.

Neste verão cinematográfico, o panorama dos clássicos é mesmo fascinante. E tanto mais quanto nos pode ajudar a contrariar a visão mais pueril, segundo a qual o domínio dos clássicos se esgota nas comédias mais ou menos aceleradas dos tempos do mudo... Vale a pena, para já, revisitar algumas memórias em tom francês e soviético.

Agnès Varda

A cineasta francesa (nascida na Bélgica) celebrou recentemente, a 30 de maio, a bonita idade de 90 anos. Poucos meses antes, tinha conseguido uma nomeação para o Óscar de melhor documentário com Olhares Lugares, filme que realizou com o fotógrafo e artista visual que assina com a sigla JR.

Olhares Lugares é, precisamente, um dos seis títulos de Varda lançados em DVD com chancela da Midas Filmes. Mais dois podem ser incluídos nessa zona ambígua que leva Varda a ziguezaguear na fronteira documentário/ficção: Os Respigadores e a Respigadora (2000), deambulação singularmente poética sobre a transformação dos conceitos de trabalho no mundo contemporâneo, e As Praias de Agnès (2008), por certo a sua experiência mais assumidamente autobiográfica.

Os três outros títulos constituem momentos emblemáticos na evolução da cineasta: La Pointe Courte (1954), uma preciosidade pré-Nova Vaga que antecipa muito da sua paixão romanesca, Duas Horas na Vida de Uma Mulher (1962), um dos títulos mais famosos de Varda, centrado no misto de frieza e angústia com que uma mulher (Corinne Marchand) aguarda os resultados de uns exames médicos, e Sem Eira nem Beira (1985), retrato íntimo de uma jovem vagabunda, sem dúvida uma das interpretações mais admiráveis de Sandrine Bonnaire.

Dos anos 60 à Perestroika

Eis um título ambicioso para uma caixa com "apenas" seis filmes... O que, entenda-se, não diminui a sua importância. Bem pelo contrário: esta edição da Leopardo Filmes pode servir como uma bela porta de entrada no imenso continente da produção soviética dos anos citados, direta ou indiretamente remetendo-nos para a história da URSS nesse mesmo período.

O primeiro destaque vai necessariamente para Chuva de Julho (1966), uma verdadeira raridade. Assinado pelo veterano Marlen Khutsiev, constitui um célebre exemplo de um melodrama "social" subtilmente atento às transformações de usos e costumes. Outro veterano representado é Mikhail Romm, autor de Lenine em Outubro (1937), neste caso através de Nove Dias de Um Ano (1962): apesar de alguns cortes impostos pela censura, o seu relato das experiências de dois jovens cientistas da física nuclear persiste como um notável sintoma de uma época cujo apelo universal não se esbateu.

Larisa Shepitko, a notável realizadora que viveu apenas 41 anos (faleceu em 1979), está representada através de três filmes fundamentais:Asas (1966), sobre uma mulher que foi piloto durante a Segunda Guerra Mundial, Tu e Eu (1971), drama centrado na crise existencial de um prestigiado neurocirurgião, e Ascensão (1977), prodigiosa crónica intimista sobre um grupo de soldados que tenta escapar a um pelotão nazi.

Shepitko faleceu num acidente durante a preparação de Adeus a Matiora, retrato épico dos habitantes de uma aldeia compelidos a abandonar a sua terra por causa da construção de uma barragem. O projeto viria a ser concretizado em 1983 pelo seu marido, o cineasta Elem Klimov, e é, seguramente, um dos filmes maiores da década de 80 - é também o sexto título desta edição.

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