Premium Em 2019 muda a liderança de quatro instituições europeias e a corrida já começou

A União Europeia prepara-se para um ano único. Todas as lideranças institucionais serão renovadas no próximo ano. A corrida aos cargos de topo já começou.

Procura-se novo presidente para a Comissão Europeia, para o Conselho Europeu, para o Parlamento Europeu e para o Banco Central Europeu. Os cargos vão ficar vagos em 2019, mas a corrida aos mesmos, com as manobras de bastidores que isso implica, já começou.

O jogo para equilibrar a distribuição de cargos institucionais será definido a partir da escolha do presidente da Comissão Europeia. As eleições europeias acontecem entre 23 e 26 de maio em toda a União Europeia.

Em julho, na primeira cimeira europeia após o escrutínio, os líderes da UE deverão propor um nome para aprovação do novo Parlamento Europeu, saído dessas eleições.

Presidente da Comissão Europeia

"Será muito difícil" o Parlamento Europeu aprovar um nome para a Comissão Europeia que não tenha sido apresentado como cabeça-de-lista, comentou uma fonte parlamentar com o DN, embora alguns países, nomeadamente a França e a Alemanha, tenham vindo a dar sinais de que pretendem reverter o processo, testado em 2014, que levou à nomeação de Jean-Claude Juncker. Ou seja, o futuro presidente da Comissão "pode não ser" um dos cabeças-de-lista das famílias políticas europeias, como pretende o Parlamento. A posição foi apresentada aos jornalistas pelo primeiro-ministro português, António Costa, na última cimeira antes do lançamento das eleições de 2019.

No Parlamento reconhece-se que "não é absolutamente obrigatório" que o futuro presidente da Comissão seja um dos cabeças-de-lista nas europeias. E nos corredores circulam discussões sobre uma solução alternativa que permita a nomeação de um nome entre os mais votados, que consiga reunir um maior consenso, nos diferentes grupos políticos do Parlamento Europeu.

Esta solução pode revelar-se a mais eficaz para desbloquear a nomeação do sucessor de Jean-Claude Juncker, tendo em conta o contexto das próximas eleições europeias, das quais se espera o Parlamento mais fragmentado de sempre, com um número de famílias políticas superior às nove que existem atualmente, com as suas diferenças ainda mais acentuadas, num ambiente em que os extremos poderão aparecer mais fortes.

Espera-se que a dicotomia entre pró-europeus e nacionalistas venha acentuar-se. Haverá uma tendência para vincar posições, que evidenciarão as clivagens entre progressistas e conservadores, dentro dos defensores do projeto europeu. Ou seja, serão evidenciadas as diferenças entre o que cada um pretende para a construção europeia. Mais Europa ou menos Europa.

O alemão Manfred Weber manifestou nesta semana a disponibilidade para ser o candidato do Partido Popular Europeu à sucessão de Jean-Claude Juncker, na presidência da Comissão Europeia. O nome só deverá ser confirmado, em definitivo, em novembro, no congresso de 7 e 8, em Helsínquia, Finlândia. Nos corredores de Bruxelas circulam também outros nomes, como a da atual comissária da Concorrência, embora fonte do próprio PPE tenha comentado com o DN que Margrethe Vestager, podendo ajudar a equilibrar os critérios de género, é um nome de "segunda ou terceira linha".

Para a mesma fonte, o atual negociador-chefe para o brexit, o francês Michel Barnier, seria agora o mais indicado para o cargo. Em 2013, o francês foi a votos dentro do partido, tendo perdido para Juncker.

Dalia Grybauskaite é outro dos nomes ponderados, mas a presidente da Lituânia não cumpre todos os critérios para ser nomeada. Apesar de ser uma militante do centro-direita, não é membro oficial do PPE. Também por isso, o nome de Manfred Weber ganha força. Mas o fator que parece pesar ainda mais a favor do alemão é ter o apoio de Angela Merkel.

Numa entrevista publicada no jornal espanhol El País, o conservador alemão, que partilha a família política com o húngaro Viktor Orbán, admitiu que "o cenário inclui [Matteo] Salvini e [Jaroslaw] Kaczynski. Devemos trabalhar juntos".

No Partido Socialista Europeu, a nomeação do chamado spitzenkandidat requer o apoio de, pelo menos, oito partidos socialistas nacionais. Neste momento, apenas o nome do atual vice-presidente da Comissão Europeia para a União Energética, Maroš Šefčovič, reúne condições. A escolha do diplomata eslovaco, formado em Moscovo, terá ainda de ser confirmada, em dezembro, em Lisboa, no congresso marcado para os dias 7 e 8.

Porém, nesta fase, não é descartada a hipótese de outros nomes entrarem na corrida. A atual chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, alertou nesta semana para os desafios dos tempos vindouros, a nível global, considerando que há "muito a fazer, até ao outono", no seu "último ano" de mandato, e que quer deixar a "casa arrumada" para o seu sucessor, já que não espera ser reconduzida no cargo, em novembro de 2019. E, por essa razão, há quem admita que a italiana não é uma carta fora do baralho, como potencial candidata, embora ela tenha dado a entender que 2019 não seria, para ela, um ano eleitoral.

Ainda falta definir posições, quanto ao alinhamento do movimento La Republique En Marche!, que conduziu à eleição de Emmanuel Macron, com o Partido Democrático do italiano Matteo Renzi, e com o Ciudadanos do espanhol Albert Rivera.

No início do verão, representantes dos três juntaram-se para concertar posições e saírem do "eixo esquerda vs. direita, a favor de algo que enfrente progressistas e populistas", tendo declarado, na altura, a intenção de concorrerem às eleições europeias, com o objetivo de "salvar a Europa".

Será uma surpresa se Guy Verhofstadt, o ex-primeiro-ministro belga que chegou a apresentar-se como candidato numa altura em que a presidência da Comissão era um cargo escolhido por nomeação, não se apresentar agora como cabeça-de-lista, pela Aliança dos Liberais e Democratas pela Europa (ALDE).

O novo partido do grego Yanis Varoufakis, o DiEM25, poderá também apresentar um líder para aquela que se apresenta como a primeira lista pan-europeia, na corrida às eleições de maio, a qual integra também o Livre de Rui Tavares. No entanto, como as listas transnacionais não são permitidas, cada partido deverá apresentar-se isoladamente, no seu país, com a meta de eleger um candidato para integrar um potencial grupo político.

O processo de seleção do chamado spitzenkandidat só deverá ser terminado em fevereiro do próximo ano.

Presidente do Parlamento Europeu

A primeira reunião plenária após as eleições europeias marcará também o fim do mandato de António Tajani como presidente do Parlamento Europeu. O italiano assumiu o cargo em janeiro de 2017, quando Martin Schulz deixou o lugar vago, para concorrer pelo SPD às eleições alemãs.

Schulz não chegou a chanceler, viu Merkel ser reeleita, acabando mesmo por se demitir de presidente dos sociais-democratas alemães.

A entrada do italiano por um período temporário gerou uma situação institucional inédita, com o Parlamento, a Comissão e o Conselho entregues a lideranças de uma única família política, o PPE, à qual também pertence o presidente do BCE, Mario Draghi. Também ele italiano.

O equilíbrio regional também foi distorcido, com três italianos em cargos de topo (Tajani no Parlamento, Mogherini na Ação Externa e Draghi no BCE). A escolha do seu sucessor terá de levar em conta estes detalhes.

A presidência do Parlamento Europeu, segundo um acordo não escrito entre os dois maiores partidos, PPE e PSE, tem sido sempre repartida. Metade do mandato é exercido por um conservador, outra metade por um socialista. Apesar disso, este sistema tem sido crescentemente criticado pelos partidos mais pequenos.

Presidente do Banco Central Europeu

A 31 de outubro, quando o luxemburguês Jean-Claude Juncker concluir o seu mandato na Comissão Europeia, Mario Draghi estará também a encerrar a sua presidência no Banco Central Europeu. Nesta altura já há movimentações para encontrar um sucessor para o italiano.

O jornal britânico Financial Times escrevia nesta semana que, com a Alemanha a apontar baterias para a presidência da Comissão Europeia, a França pode pensar na presidência do BCE. Benoit Coeuré, membro do conselho de governadores do BCE, e François Villeroy de Galhau, que lidera o Banco Central francês, são dois dos nomes possíveis.

Concentrada na liderança da Comissão, a Alemanha deixou cair o nome de Jens Weidemann, governador do Banco Central alemão (Bundesbank), para a presidência do banco que rege a zona euro e tem sede em Frankfurt.

Presidente do Conselho Europeu

O polaco Donald Tusk, reconduzido na presidência do Conselho Europeu em junho de 2017, para um segundo mandato de dois anos e meio, cessará funções a 30 de novembro. Admite-se que o seu sucessor possa ser oriundo de um dos países do sul da Europa.

Fontes consultadas pelo DN consideram prematuro que sejam avançados nomes, nesta fase, quando "falta mais de um ano, e primeiro há que definir todos os outros cargos".

Porém, o Financial Times apostou nesta semana nos nomes de Mark Rutte, primeiro-ministro holandês, Enda Kenny, ex-primeiro-ministro irlandês, Dalia Grybauskaite, presidente lituana, ou até o regresso de Helle Thorning-Schmidt, antiga primeira-ministra dinamarquesa, que em 2014 esteve disponível para ocupar o cargo. Mas, na altura, os lideres europeus nomearam o polaco natural de Gdańsk.

Criado com o Tratado de Lisboa, o cargo de presidente do Conselho Europeu só foi, até agora, ocupado por duas pessoas: o belga Herman Van Rompuy e o polaco Donald Tusk. Este foi reeleito em 2017 com a oposição (algo inédito) do seu próprio país. Isto porque o atual governo polaco é conservador e Tusk é liberal.

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Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.