O homem do tanque

Bastava a David Aleksandrovich Dushman ter sido um dos soldados soviéticos que libertaram há 76 anos o campo de concentração de Auschwitz para garantir um lugar na história, tal o horror a que ajudou a pôr fim. Poucos meses depois, a Segunda Guerra Mundial terminava e com ela também o III Reich.

Naquele campo nazi instalado na Polónia ocupada, mais de um milhão de homens, mulheres e crianças foram assassinados, e quem já, como eu, visitou o local (falo tanto de Auschwitz I como de Auschwitz II-Birkenau) não consegue de deixar de sentir no momento uma profunda tristeza e indignação quando vê até sapatinhos de bebé entre os haveres que sobraram das vítimas. Estas, na sua grande maioria, eram judeus, mas também ali foram gaseados e incinerados, entre outros, ciganos, resistentes polacos e prisioneiros soviéticos.

Dushman tinha 21 anos quando fez o seu tanque derrubar a vedação eletrificada que separava da liberdade os corpos esqueléticos que o observavam. Até àquele 27 de janeiro de 1945, o jovem militar nunca tinha ouvido falar de Auschwitz. Só depois, pouco a pouco, foi começando a entender o horror que os campos nazis representavam. Para ele, que era judeu, o impacto deve ter sido duplamente duro.

Tinha agora 98 anos aquele que os obituários publicados mundo fora designaram ontem como "o último libertador de Auschwitz". E morreu em Munique, onde vivia há uns anos, o que não deixa de ser muito simbólico do ressuscitar da comunidade judaica na Baviera e não só, testemunho de quanto os alemães pós-1945 quiseram deixar bem claro que a década hitleriana era uma mancha na história nacional (em dezembro último, celebrou-se meio século do chanceler Willy Brandt de joelhos no Memorial do Gueto de Varsóvia). Dushman, que se distinguiu depois da guerra como treinador de esgrima da seleção olímpica da URSS, tinha entre os grandes amigos o atual presidente do Comité Olímpico Internacional, o também esgrimista Thomas Bach, que agora o homenageou, relembrando que aquele que conheceu há meio século nunca quis fazê-lo sentir-se mal por ser alemão.

Tremendo também é perceber como a vida deste antigo soldado do Exército Vermelho se confunde de certo modo com a história europeia do século XX. Afinal nasceu em 1923 em Dantzig, a atual Gdansk, então uma cidade livre disputada por alemães e polacos e rastilho onde começou a Segunda Guerra Mundial, em 1939. Dushman era filho de um militar que acabou no Gulag por ordens de Estaline, cujo antissemitismo também moldou a sua forma de governar a Rússia comunista. E como treinador de esgrima assistiu, na mesma Munique onde agora morreu, ao sequestro em 1972 dos atletas olímpicos israelitas por um comando palestiniano, ato terrorista que causou a morte a
11 membros da comitiva do Estado Judaico e a um polícia alemão.

O antigo soldado disse há um ano numa entrevista que deram comida aos prisioneiros que restavam em Auschwitz e depois prosseguiram. Berlim era o objetivo. Derrotar Hitler fundamental. Na altura, americanos, britânicos e franceses avançavam vindos do oeste, os soviéticos de leste. Escreveu a BBC ontem que dos 12 mil elementos que integravam a divisão de Dushman só 69 sobreviveram à guerra.

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