Climas de guerra

Numa recente reportagem com Helena Freitas, catedrática de Biodiversidade e Ecologia na Universidade de Coimbra, a atual diretora do Parque de Serralves, comentando o impacto das sanções a Moscovo por causa da guerra na Ucrânia, nomeadamente na substituição do gás russo por outros combustíveis fósseis mais poluentes, afirmava que "sobretudo o uso do carvão, é um risco e tudo dependerá do que vai acontecer nos próximos meses neste embate. As renováveis não conseguem, de momento, dar resposta. Mas podemos conseguir uma maior parcimónia na forma como usamos os recursos e ter investimento tecnológico maior. Há condições para isso, mas não é fácil, é preciso sintonia. De qualquer forma, penso que no final deste ano as emissões de carbono deverão ter aumentado. Só espero que esse retrocesso seja temporário".

Ou seja, trocar o gás por carvão é um claro retrocesso, as energias renováveis não chegam ainda para ser a solução, um consumo mais ponderado pode ser um caminho, só que depende de muitas boas vontades, a evolução tecnológica é sempre uma possibilidade se houver investimento. Portanto, a par da guerra, que é um desastre por si só, há um dano colateral gravíssimo: o aumento provável das emissões de carbono no planeta.

Tendo em conta o tom conflituoso das escassas conversas entre Washington e Moscovo desde 24 de fevereiro, e também sinais desanimadores para a cooperação entre potências, como o anúncio russo de saída da Estação Espacial Internacional, é difícil acreditar que combater as alterações climáticas esteja, neste momento, no topo das preocupações partilhadas entre os Estados Unidos (segundo maior poluidor) e a Rússia (quarto maior).

E o próprio Supremo Tribunal americano não veio propriamente ajudar quando anunciou, já neste verão, considerar abusivo o papel da Agência de Proteção Ambiental na limitação das emissões de gases com efeito de estufa, alegando que tal compete ao Congresso. E como as divisões entre democratas e republicanos são enormes, e estes últimos preferem defender os lucros da indústria petrolífera acima de tudo, não é provável que surja a legislação necessária. O presidente Joe Biden, que repôs o envolvimento americano com o Acordo de Paris depois de Donald Trump, seu antecessor, ter anunciado a retirada dos compromissos assumidos, fica assim com capacidade de ação muito limitada para combater o aquecimento global, uma causa que era querida também a Barack Obama, de quem foi vice-presidente.

Neste cenário cada vez mais assustador, e tendo como pano de fundo as recentes vagas de calor capazes de bater recordes até em latitudes bem a norte, surgiu há dias mais uma notícia preocupante: a decisão chinesa de retaliar pela visita de Nancy Pelosi a Taiwan, considerando que a política americana incentivava o independentismo da ilha tida como província rebelde, com o fim da cooperação com os Estados Unidos no combate às alterações climáticas. Como a China é o maior poluidor e, junto com os Estados Unidos, o peso é de 40% das emissões, é evidente a situação desanimadora, que passa um pouco despercebida ao mundo porque alguns estão mais preocupados com a subida da inflação e outros com a falta de trigo para fazer pão, tudo prioridades mais imediatas, temos de admitir.

Se a guerra na Ucrânia tiver algum desenvolvimento no sentido da paz nos próximos meses e no extremo-oriente, Taiwan deixar de servir de pretexto para choques, talvez a Cimeira do Clima que as Nações Unidas têm agendada para novembro em Sharm el-Sheik, no Egito, ainda permita o regresso do bom senso. O planeta precisa dele.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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