Urgência em Penafiel é foco de contágio. Há doentes suspeitos de covid junto dos outros

Foi a primeira região do país a sentir a pressão da covid-19, em março e agora. Mas se antes o Centro Hospitalar Tâmega e Sousa tinha como desculpa "a novidade da pandemia", agora os profissionais dizem que "já não tem, era previsível". No Hospital Padre Américo, há médicos "exaustos" e a viver o que consideram ser "desumano", para eles e para os doentes. A ministra foi ontem à unidade, profissionais pedem "intervenção".

Os relatos chegaram à comunicação social pela boca dos profissionais de saúde. No Hospital Padre Américo, em Penafiel, um dos concelhos com maior incidência de infetados com covid-19 por cem mil habitantes, "vivia-se o caos", "o inferno" e "a desgraça". As imagens divulgadas em vídeo davam conta de doentes amontoados em macas nos corredores da urgência e de "caos".

A ministra da Saúde, Marta Temido, visitou ontem a unidade, manifestou-se preocupada com o letalidade em relação à covid, mas não avançou com soluções para à unidade cujos profissionais dizem ser "sistematicamente esquecida". Aliás, entre eles há mesmo uma máxima: "Somos o Amadora-Sintra do Norte, mas ninguém fala de Penafiel." Ao DN, dois especialistas de medicina interna contam o que estão a viver e dão a cara por considerarem que transmitem o que "é o espírito dos outros colegas e da própria unidade".

Ana João Sá e André Paupério estão naquele hospital há 14 e 15 anos, sempre o conheceram a viver no limite, ano após ano, quer com picos de gripe ou de calor, com défice de profissionais e sem que ninguém, nomeadamente a tutela, "olhasse para nós a sério, de forma a reforçar as equipas e na adaptação do espaço", argumenta André Paupério. Agora, dizem que basta, é preciso que alguém faça alguma coisa. Ana João Sá espera, sinceramente, que "a tutela intervenha na resolução dos problemas, porque nós sozinhos já não conseguimos."

Ao DN ambos assumem estar exaustos, e que este é o sinal mais notório em todos os colegas, desmotivados, e até que o que estão a viver "é desumano, para nós e para os doentes". Cada dia é uma surpresa, quer estejam a trabalhar na enfermaria ou na urgência. Os doentes amontoam-se e não há tempo no horário para os vermos a todos, na enfermaria já nem contabilizamos as horas a mais. Sabem que chegam a ter mais de 20 doentes por dia. "Na última segunda-feira, estava eu e outra colega com 26 doentes em enfermaria e mais de 15 na urgência", conta Ana João Sá. "Hoje, logo se verá. Cada dia é uma surpresa", comenta.

Empresa de recrutamento tentou contratar médicos para o Hospital Padre Américo a 18 euros à hora, hospital paga a 35 euros.

Nesta semana, o conselho de administração pediu apoio à Administração Regional do Norte no recrutamento de profissionais, mas quando "já estamos a trabalhar para ontem", dizem. "Estamos a recrutar em cima da hora e muita gente já não está disponível ou não aceita", referem. Ainda por cima, uma das empresas de recrutamento "andou a oferecer pagamento de 18 euros à hora aos médicos, ninguém aceitou", mas o hospital "está a oferecer 35 euros à hora".

O DN sabe que foram os próprios médicos que deram uma lista de nomes de colegas de outros sítios - medicina geral, medicina legal e de outras especialidades - para que os diretores de serviço os possam contactar para os recrutar. "Neste momento, sei que há uma lista de nomes para contactar, mas não sei se a administração já autorizou que tal fosse feito."

"Temos uma área de influência com mais de 520 mil pessoas, de 12 concelhos e quatro distritos, para os recursos humanos e espaço físico que temos".

Os doentes amontoados do Hospital Padre Américo começaram nesta semana a ser transferidos para outras unidades, inclusivamente para algumas privadas, depois de a ARS ter chegado a acordo com algumas. "O ambiente começa a ficar mais aliviado", mas é preciso olhar de forma estrutural para "a área de influência que temos, mais de 520 mil pessoas, de 12 concelhos e quatro distritos, para os recursos humanos e espaço físico que temos", sublinha André Paupério. O problema afeta sobretudo a urgência, onde já se vivia no limite em alturas de pico de gripe noutras situações, e que agora foi agravado pela covid-19. "Se não fosse a covid, ninguém falava de nós", sublinham os médicos.

E é a urgência que parece ser o maior foco de contágio da doença, que tem atingido também muitos profissionais, desde médicos, enfermeiros, assistentes operacionais. "As equipas começaram a ficar reduzidas assim que o número de casos começou a aumentar, muitos colegas ficaram infetados, outros tiveram de ficar em casa com os filhos ou os pais infetados, e outros tiveram de ir para isolamento", explica o médico.

"Posso dizer que há uns dias, dos cerca de 30 assistentes do serviço de medicina, estamos a trabalhar 13, os outros estava em casa." Ana João Sá não sabe ao certo o número de profissionais infetados na sua área, mas "há duas semanas estavam em casa 25". E tem sido assim nos últimos tempos, "uns saem infetados outros regressam", e as equipas continuam desfalcadas.

Na urgência, há doentes não covid a ficar dois e três dias em macas junto de quem é suspeito de ter a infeção e ainda sem resultado do teste. "Não há espaço, e este é o principal problema. Se houver um doente positivo numa maca, mesmo que mais afastado e com máscara, e é impossível estarem sempre de máscara, porque, pelo menos, para comer têm de a tirar, os outros estão sujeitos a um risco enorme de contágio. Chegam a estar assim dois e três dias por não haver vagas na enfermaria", diz a médica internista Ana João Sá, há 14 anos no Hospital Padre Américo, para onde foi fazer a especialidade e acabou por ficar. No entanto, salienta, "quando chegam à enfermaria estão mais confortáveis, têm a sua cama e alguma privacidade, na urgência é impossível".

Média de internamentos diários na urgência é de 20 a 30 doentes, mas já houve dias que internaram 50.

E é pela porta da urgência que os doentes continuam a entrar. Segundo esta médica, a média diária de internamento na urgência tem sido da ordem dos 20 a 30 doentes, embora "tenha havido dias que chegámos aos 50", reforça André Paupério.

Até esta semana, "era muito difícil conseguir transferir um doente daquele hospital para outras unidades, o que, diz o médico, "até percebo, porque haveria um outro hospital de ficar com a lotação esgotada com doentes de um hospital que não se preparou para esta fase da pandemia?", porque "foi o que aconteceu", afirmam.

O Hospital Padre Américo tem um plano de contingência, mas para Ana João Sá "é um plano que está assente na resposta em camas e não em recursos humanos", e é isso que está também a faltar.

Serviço com 32 médicos e 164 camas

Ambos os médicos reforçam que o défice de pessoal não é um problema de agora, mas que a pandemia agravou, sobretudo porque a doença atingiu em força a força seis dos 12 concelhos que o hospital serve.

Segundo explicam, o serviço de Medicina Interna tem 104 em Penafiel e 60 em Amarante, e 32 médicos assistentes, dois estão em funções de direção, três foram para a hospitalização domiciliária, e há sempre quatro que estão de urgência todos os dias, "ora isto já é insuficiente para a realidade normal, com a pandemia ainda pior", sublinha André Paupério.

índice de propagação de maior risco no país

Na área do Hospital Padre Américo, os casos começaram a aumentar em setembro. Paços de Ferreira registou nesse mês um aumento de 408 novos, e até hoje tem sido o concelho com o índice de propagação da doença mais elevado.

Dados da Direção-Geral da Saúde indicam este concelho atingiu em outubro um RT (índice de propagação da doença) de 99,6 por cem mil habitantes. O mesmo aconteceu com Lousada (RT 55,4), Felgueiras (RT 27,3), Penafiel (RT 25,2, Paredes (RT 27,9) e Porto ((RT 26,0).

A situação chegou a tal ponto que as autoridades de saúde colocaram estes concelhos em contingência antes de todo o país e os autarcas pediam o recolher obrigatório ou o estado de emergência.

A rápida evolução da doença e o facto de continuarmos com a porta da urgência aberta e sem capacidade fez que "perdêssemos o controlo, nós, profissionais, a administração e os doentes", afirma o médico.

Mais uma vez: "O hospital não se preparou. Na primeira fase ainda se poderia desculpar com o facto de a pandemia ser uma novidade, agora já não há desculpa, era previsível, quem está no terreno sabe que uma segunda vaga é mais forte do que a primeira", sublinha ainda.


Na primeira fase ainda houve preparação

A médica internista explica que na primeira fase da pandemia ainda houve alguma preparação, "foram definidos circuitos distintos para covid e não covid, reforçados os cuidados em medicina intensiva e feita a divisão de profissionais na área da medicina interna em três grupos, havendo um que estava para a enfermaria não covid, outro para a ala covid e ainda outro para a urgência. Agora, tal já não foi possível fazer". Aliás, no serviço de Medicina Interna "não há sequer médicos para assegurar a escala da urgência".

A médica explica: "Somos realocados semanalmente ou quase diariamente, vamos para onde fazemos falta. Em 15 dias, já estive em três locais de trabalho diferentes, na enfermaria não covid, na ala covid e na urgência". Quando perguntamos se este não é um fator de risco e de propagação da doença no hospital, diz que não. "Não há recursos humanos nem espaço, mas há material para nos protegermos. O problema está nas urgências", reforça.

Conselho de Administração pediu ajuda esta semana à Administração Regional de Saúde do Norte para recrutar profissionais.

Urgências onde cada turno parece multiplicar-se em horas de trabalho. O bastonário da Ordem dos Médicos alertou para o que se está a passar em Penafiel, considerando que não é concurso lançado em setembro para a contratação de 18 profissionais, só três para medicina interna, que vai resolver o problema.

A Ordem dos Enfermeiros denunciou as condições em que os profissionais estão a trabalhar. E o conselho de administração do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS) acabou por pedir ajuda à ARS Norte no recrutamento de profissionais, mas na unidade, as equipas, sobretudo de médicos, ainda não foram reforçadas. Um e outro esperam que o recrutamento de colegas seja rápido, porque "não temos tempo para ver tantos doentes".

O Hospital Padre Américo foi inaugurado em outubro de 2001, para servir uma população de 300 mil utentes. Mas em janeiro de 2002 já era notícia por ter macas amontoadas no serviço de urgência. Em setembro de 2007, passou a centro hospitalar com o hospital de Amarante, e a ter de responder a 520 mil habitantes, de 12 concelhos e quatro distritos. "Desde que aqui entrei, o hospital viveu sempre com défice de recursos, nunca houve qualquer mudança", explica André Paupério.

O DN contactou o conselho de administração do CHTS para obter resposta a um conjunto de perguntas enviadas por e-mail, mas até ao fecho desta edição não obtivemos qualquer resposta.

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