Auriol, A Portuguesa

Auriol Dongmo a cantar o hino português e a levar a mão ao peito comoveu-me. A atleta tinha acabado de ganhar a medalha de ouro no lançamento do peso, mas mais importante do que Portugal ter uma campeã da Europa foi perceber que quem estava no pódio sentia como seus o hino que tocava e a bandeira no mastro.

Mais tarde, Auriol dedicou a vitória ao filho, o filho português desta mulher de 30 anos que nasceu nos Camarões mas que decidiu fazer de Portugal casa. Na hora de justificar a naturalização perante a Federação Internacional de Atletismo, contou a ligação a Fátima, a dedicação ao Sporting e ao treinador Paulo Reis, a vontade de educar o filho em Portugal.

A jornalista Isaura Almeida contou a história de vida de Auriol no DN no verão. Talvez o primeiro grande artigo sobre ela. Já se imaginava que a força de braços da atleta que vive em Leiria (próximo de Fátima, claro) poderia render títulos. A conversa foi em português, e foi em português que ouvi a satisfação pela medalha e as palavras de amor ao filho de 2 anos.

Recordo-me de uma revista Geo, edição francesa, que tinha as páginas centrais coladas, a exigir que o comprador as separasse. Na capa vinha o alerta de um conteúdo chocante, uma reportagem sobre rituais funerários tibetanos. As fotografias mostravam como, além dos elementos água, terra e fogo, também o ar servia na morte. Digo só que os abutres faziam parte do processo e por isso os tibetanos tinham tardado anos a autorizar que a cerimónia fosse fotografada. Aceitaram perante o argumento dado pelos antropólogos de que quem aprendera a língua tinha um grande respeito pelos tibetanos, e nunca usaria as fotografias do ritual para os denegrir.

Podia citar aqui Fernando Pessoa e a célebre "minha pátria é a língua portuguesa", mas prefiro dar o exemplo de Thomas Fischer, jornalista alemão que no ano passado se naturalizou. Veio a Portugal pela primeira vez no Verão Quente de 1975 e aqui se apaixonou, aqui teve filhos, aqui construiu uma carreira, aqui se habituou até a criticar, tão portuguesmente, os excessos da burocracia, como esses irritantes 610 dias (tinham-lhe dito seis meses a um ano) que tardou o processo de ganhar o Cartão de Cidadão.

Thomas fala português com tanto à-vontade que lhe saem fáceis os palavrões. Nada de mal, basta pensar como Paulo Futre ainda há dias, confrontado com a fama que tinha ainda em Espanha, reafirmava numa televisão ser português. Sim, falar português faz todo o sentido para quem quer ser português de papel passado, ainda que cá não tenha nascido. Gostava de ter certeza de que é um critério sempre usado, não concordo com as naturalizações de conveniência, sejam no desporto ou não .

Podia lembrar que esse Camarões onde Auriol nasceu deve o nome aos portugueses, tal como Lagos, grande metrópole dessa Nigéria de onde veio Francis Obikwelu, foi também batizada pelos nossos navegadores, mas tal pouco tem que ver com os atletas terem em Portugal construído o seu sucesso. Foi uma sucessão de acasos, e tudo pode criar a ligação à nova pátria, desde uma professora de Português até a devoção mariana.

Nos últimos seis séculos, tem sido vasta a diáspora portuguesa. Antiga é também a capacidade do país de cativar gente. Dou um exemplo: o país de Vasco da Gama e Fernão de Magalhães teve como fundador da sua Marinha Manuel Pessanha, aliás, Emanuele Pessagno. Um neto do italiano morreu em Aljubarrota. É de gente desta que fala A Portuguesa de Alfredo Keil, o filho de alemães que compôs o hino que no sábado Auriol fez tocar.

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