Como se não houvesse amanhã

Por tudo isto, a ação da Greta e de pessoas como a Greta é de um mérito incalculável. A mensagem de que temos de prescindir de algum do nosso conforto para garantir um futuro para os nossos filhos é, muito provavelmente, a única que pode derrubar o nosso egoísmo. E é bom ouvir os nossos filhos, são eles que estão a ser os agentes da imprescindível mudança.

Não é que programas televisivos, primeiras páginas e crónicas de tudo o que é colunista sejam aferidores suficientes da importância de um acontecimento, uma situação ou uma personagem, sabemos isso demasiado bem. Mas não me parece que existam dúvidas de que o aquecimento global, as alterações climáticas e a catástrofe ambiental são o maior desafio que a humanidade enfrenta. Desafio, aliás, que ameaça a sua própria existência.

Se alguém consegue que o assunto se mantenha ainda mais presente na ordem do dia, se com a sua ação consegue mobilizar mais gente para o problema de que já todos devíamos estar mais do que cientes, se consegue desassossegar-nos, não há como não aplaudir.

Tudo isto, claro, vem a propósito da vinda de Greta Thunberg a Portugal e de tudo o que ela tem feito por todos nós.
É importante repetir o que já não deveria ser necessário dizer: a Greta está do lado da ciência. O que ela apregoa, o que a faz correr, o que ela berra da melhor ou da pior maneira são factos, verdades incómodas, como dizia Al Gore, que precisam de ser incessantemente ditas e reditas.

Apetece não perder tempo com o bando de trolls que a criticam, a tentam ridicularizar, lhe chamam alarmista, mas é inevitável porque, de facto, fazem mossa. A suprema cretinice é a de mandarem a rapariga para a escola. Escola e conhecimento são coisas que esta gente claramente despreza e que lhes permite defender posições ao arrepio da ciência. Temos assim de um lado uns patetas com idade para terem juízo e sobretudo para conhecerem os factos e, do outro, uma miúda que defende posições suportadas pela comunidade científica em peso.

Tirando os tontos e os que ganham dinheiro a fazer piadas à custa de coisas que não têm piada nenhuma, há uma reprodução, também nestas questões, do que é hoje o triste debate político. As trincheiras, a incapacidade de ouvir, uma ideologização fanática, uma coisa à la guerra fria em que nos pretendem convencer de que isto é só uma coisa de melancias, ou seja, um bando de comunas que faz parte da conspiração comunista internacional (muito forte e ativa, como é do conhecimento geral) e que quer atacar o capitalismo utilizando as questões ambientais.

Este tipo de discurso divulgado por pessoas que não desconhecem a gravidade dos problemas ambientais é verdadeiramente criminoso, sobretudo porque politiza uma questão de uma forma perigosa: tentam vender às pessoas de direita que este tipo de questões é uma bandeira de esquerda. Seria um insulto à inteligência mostrar que algo que põe em causa o futuro da humanidade não tem cor política.

Claro que também existe um aproveitamento de alguma esquerda para quem tudo é pretexto para a luta ideológica. Esses põem a tónica na questão da finitude dos recursos e de como o Estado tem de regular o acesso. Segundo eles, só a esquerda garante isso. Esqueçamos, pela enésima vez, a inutilidade dos conceitos de esquerda e de direita também neste caso. No entanto, interessava perguntar onde diabo estes furiosos esquerdistas descobriram que a direita não acredita que o Estado deve ter uma função reguladora?

Há uma tese estranhamente utilizada contra a atividade da Greta e o seu extraordinário trabalho que defende que só a tecnologia nos permitirá ultrapassar as questões ambientais que enfrentamos, logo a ação dos ativistas como ela deve ser desvalorizada.

Em primeiro lugar, a contraposição é incompreensível já que a chamada de atenção que a rapariga tem protagonizado vai também no sentido de um maior investimento na procura de soluções científicas que ajudem a debelar o problema. E, sim, é fundamental que a tecnologia nos traga ajuda.

No entanto, e em segundo lugar, não podemos olhar para a tecnologia como a panaceia que nos permite olhar com despreocupação para o problema. Uma coisa do género "malta, façam tudo como sempre, poluam com fartura, não mudem de hábitos, olhem que a Índia e a China vão continuar a poluir, portanto ainda se põem a viver melhor do que nós e não se preocupem que vai aparecer uma maquineta qualquer que resolve o problema e ainda nos vamos rir disto tudo".

Claro que há um problema político de dificílima solução. Se é verdade que é muito improvável a descoberta de uma solução tecnológica que resolva em tempo útil a catástrofe já em curso, também é verdade que um travão violento na economia que o abandono de meios altamente poluentes acarretará, por muito que nos custe, levará a mais empobrecimento que conduzirá também a movimentos sociais que tornarão as questões ambientais, por fundamentais que sejam, secundárias: a fome e a miséria presentes nunca permitiram olhares sobre preocupações futuras.

O apoio aos países e às populações mais pobres seria assim imprescindível, mas tem de ser dito que se esse esforço não tem acontecido nos mais vários aspetos, levando, por exemplo, a que as crises migratórias causadas por problemas económicos sistematicamente se agravem. Nada nos faz crer que agora aconteçam. Mais, o esforço dos países mais desenvolvidos (e convém lembrar que continuam a ser estes os mais poluidores e os maiores contribuintes para o aquecimento global) trará consequências económicas e sociais para dentro de portas.

Por tudo isto, a ação da Greta e de pessoas como a Greta é de um mérito incalculável. A mensagem de que temos de prescindir de algum do nosso conforto para garantir um futuro para os nossos filhos é, muito provavelmente, a única que pode derrubar o nosso egoísmo. E é bom ouvir os nossos filhos, são eles que estão a ser os agentes da imprescindível mudança.

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