Quando o obituarista publica depois do seu próprio obituário

É um segredo mal guardado que os grandes jornais mundo fora têm obituários preparados sobre figuras de grande peso, sobretudo do próprio país, que por doença conhecida ou idade muito avançada aconselham a que as redações não sejam apanhadas de surpresa. Por vezes, o texto original exige discreta atualização sobre atualização, porque a personalidade em causa faz questão de continuar a somar currículo, desmentindo eventuais rumores sobre o estado de saúde ou ignorando preconceitos sobre a idade. E acontece, raramente admitamos, que o tema do obituário sobreviva ao próprio obituarista.

Reflito agora sobre este tema a propósito da morte de Bob Dole, que tinha 98 anos. Li na imprensa anglo-saxónica vários obituários do antigo senador americano, todos relembrando as origens modestas no Kansas, o ferimento quase mortal na Segunda Guerra Mundial, a fracassada candidatura como vice-presidente de Gerald Ford em 1976, a também fracassada candidatura presidencial em 1996 contra Bill Clinton. Mas o do The Guardian, impecável tanto no conteúdo como no estilo, foi o que mais me marcou, pois no fim vinha a nota, sempre surpreendente, de que o autor, Harold Jackson, morreu em junho deste ano (na realidade foi a 30 de maio, mas o obituário respetivo foi publicado a 9 de junho, daí a incorreção).

Quando digo sempre surpreendente é porque, de facto, não me recordo de assim tantos casos, mesmo que tenha bem presente na memória que tal aconteceu quando estava a ler no Financial Times o obituário de Arthur C. Clarke, desaparecido em 2008, e julgo que a nota final além de informar da morte do jornalista acrescentava o nome do camarada de redação que tinha atualizado a informação sobre o autor de ficção científica. Clarke tinha 90 anos.

Jornalista veterano - que foi repórter no Biafra, no Vietname, no Médio Oriente, na Guerra Indo-Paquistanesa de 1971 e por aí fora - Harold Jackson tinha 88 anos quando morreu, mas a reforma uns tempos antes para ele não significou deixar de escrever e assim ficara com a tarefa de ir preparando obituários sobre políticos, sobretudo dos Estados Unidos, onde foi correspondente do The Guardian durante uma década. E é quase incrível: depois do seu próprio obituário ter sido publicado, já assinou três: Donald Rumsfeld, Colin Powell e agora Bob Dole, todos figuras de destaque da América, por acaso todos do campo republicano. Rumsfeld tinha 88 anos, Powell 84.

A questão da idade, nomeadamente de Dole, explica de certa forma ter sobrevivido ao obituarista. Mas serve também para se perceber que a perceção de há alguns anos, de que a longevidade era uma desvantagem na política, mudou e muito. Estou a falar sobretudo dos Estados Unidos, até porque em Portugal, e falo apenas dos presidentes eleitos depois do 25 de Abril, tirando o jovem Ramalho Eanes (41 anos no início do primeiro mandato, 51 na hora de finalizar o segundo), Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva saíram do Palácio de Belém já bem sexagenários ou até septuagenários. E Marcelo Rebelo de Sousa sairá com quase 80.

Quando Dole procurou evitar a reeleição de Clinton, tudo lhe correu mal. Mas a idade também não ajudou. Houve um debate televisivo durante a campanha em que o jovem presidente (teria 49 anos, quase 50) arrasou com o rival republicano (então já com 73 anos) dizendo que a América precisava de fazer a ponte com o futuro, não com o passado. Sim, 73 anos em 1996 pareciam velhice pura e simples, só com a reeleição de Ronald Reagan com a mesma idade a servir de precedente em dois séculos de história. E Reagan era, diriam então a maior parte dos americanos, incomparável e irrepetível.

O debate sobre a idade dos presidenciáveis ainda foi relançado em 2016 quando Donald Trump esperava para ver se o rival era Hillary Clinton ou Bernie Sanders, e os três tinham nascido na década de 1940. Mas quando em 2020 Joe Biden, de 78 anos, derrotou Donald Trump, de 74 anos, falou-se mais da diferença de personalidade do que nas certidões de nascimento. Creio até que Harold Jackson, se chegou a pensar em preparar algum texto sobre Joe Biden quando este em 2017 saiu da Casa Branca depois de oito anos como vice de Barack Obama, talvez tenha achado depois que iam ser preciso demasiadas atualizações, pois a reforma não seria logo. Mas alguém haverá, no jornal, de assumir a tarefa. Por tradição, obituarista é uma das mais nobres categorias da profissão.

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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