Premium O pintor que criou uma Espanha sem ciganos nem toureiros

Horrorizavam-no as personagens que os artistas românticos tornaram cliché. Procurava outra autenticidade de Espanha. Joaquín Sorolla, um estranho em Portugal, dá-se a conhecer, em nome próprio, no Museu Nacional de Arte Antiga a partir desta sexta-feira.

São 118 quadros e procuram dar uma perspetiva ampla e plena dos temas que interessaram ao artista espanhol, muito popular no seu tempo - final do século XIX, início do XX. Há dois anos, uma sala inteira foi-lhe dedicada no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) à boleia da coleção Masaveu. Regressa agora a Lisboa, a solo, para uma exposição que lhe é inteiramente dedicada e que leva os visitantes a paisagens espanholas - Terra adentro, como se diz no título. Mas quem é este pintor "tão reconhecido em vida", como diz a diretora do Museu Sorolla, em Madrid, "e agora esquecido"?

Quem é Sorolla?

Órfão desde muito pequeno, Joaquín Sorolla y Bastida (1863-1923) cresceu, com a irmã, na casa de uns tios em Valência. Qualquer biografia, grande ou pequena, acentua a importância desta região na sua obra, que a exposição do MNAA não ignora. É a primeira sala depois das apresentações.

É na cidade de Valência que Sorolla começa a sua carreira, com aquele mar e aquelas praias, as do Levante, que lhe servem de cenário em muitas obras, mesmo já artista popular a viver em Madrid. Foram estas obras, aliás, que o tornaram mais conhecido como pintor, como reconhece Consuelo Luca de Tena, diretora do Museu Sorolla, em Madrid. "Qualquer um de nós gostaria de ter uma praia do Sorolla." São pinturas reconhecidas pela forma como o artista experimenta a luz. Os protagonistas são burgueses, como ele e a família, os únicos que podiam veranear nessa época. Gosta de pintar telas de grandes dimensões à beira da água e fá-lo nas horas de maior calor. Há fotos, em exposição, que o documentam.

Qualquer um de nós gostaria de ter uma praia do Sorolla

Ainda estudante, faz as suas experiências com pintura social. "Precisava dos concursos internacionais", "mas cansa-se", diz a diretora do Museu Sorolla. "Resulta-lhe forçado." Abandona-os. "Ele precisava de pintar o quotidiano."

Após as passagens por Roma (com uma bolsa) e por Paris, onde aprendeu com outros artistas, Sorolla, "que era como uma esponja", encontra o seu caminho: "O realismo, à procura de uma linha cromática moderna", diz Consuelo Luca de Tena.

É evidente a grande influência da fotografia. Nos primórdios da carreira artística, o artista trabalha no estúdio de Antonio García, um fotógrafo bem conhecido de Valência, onde fazia retoques.

"Nota-se a influência da fotografia na sua pintura", considera Carmen Pena, comissária da exposição. "Dentro do conceito clássico, as suas composições são uma aberração, mas para quem estava habituado a ver fotografia são normais", acrescenta Consuelo Luca de Tena.

Aos 25 anos casa-se com a filha do fotógrafo Antonio García, Clotilde, com quem teve três filhos. Ela é uma figura muito presente nas suas pinturas. Nos períodos em que ele viaja, correspondem-se com muita intensidade. Essas cartas explicam muito da sua pintura.

Um naturalista horrorizado com ciganos e toureiros

Os quadros em que pinta cenas à beira-mar - com mulheres elegantes, crianças e adolescentes - tornaram-se uma marca, tão populares como os retratos que fez ao longo da vida e que lhe deram fama (e sustento), mas, como mostra a exposição no Museu de Arte Antiga, Sorolla tem outro lado - o do pintor de paisagens em que as personagens são acessórias. "Fazia estas pinturas ao mesmo tempo que as outras. São menos conhecidas, mas igualmente importantes", defende a curadora da exposição, durante a visita guiada esta quarta-feira no museu. "Gostava muito de pintar trabalhos", acrescenta a diretora do Museu Sorolla. Na sala dedicada a Valência, os pescadores arranjam as velas dos seus barcos ou fazem outros trabalhos.

E, apesar das influências - realistas, impressionistas, modernistas -, "Sorolla definia-se como um naturalista", frisa Consuelo Luca de Tena. "Tem traços em comum com os impressionistas, mas sempre quis pintar a realidade."

As suas paisagens podem ir das vinhas da Andaluzia aos monumentos históricos de Toledo ou à Ponte Real de Valência. Republicano e defensor do regeneracionismo, Sorolla pertence ao grupo de intelectuais que considera que "Espanha vive momentos de decadência, porque perdeu tudo, é um país empobrecido, atrasado e os intelectuais têm muita consciência", reflete Carmen Pena. E é nesta altura, princípio do século passado, que aparece um milionário, filantropo, amante da cultura hispânica e fundador da Hispanic History Society - Archer M. Huntington, que encomenda 14 painéis a Joaquín Sorolla em 1911.

Archer M. Huntington encomenda 14 painéis sobre a Ibéria a Joaquín Sorolla em 1911

Na última das salas do MNAA, um conjunto de estudos - de grande dimensão - que preparavam os quadros da Hispanic History Society, em Nova Iorque. Neste trabalho capta uma lado etnográfico de Espanha que estava já, no início do século XX, em vias de extinção. Ele quer pintar o natural, o mais típico e genuíno de cada região", diz Carmen Pena.

Numa das cartas que envia à mulher conta as dificuldades em encontrar alguém com uma peça de vestuário típica do valenciano. Em outra, regozija-se por ter encontrado uma mulher com uma peineta. Procura uma autenticidade que não via nos pintores românticos.

"O cliché dos ciganos e dos toureiros dos pintores românticos horrorizava-o", explica Consuelo Luca de Tena. Associava-os àqueles que procuravam Espanha pelo turismo e "Sorolla não forma parte disso", continua. "Ele não forma parte dessa imagem cliché", refere. Embora se encontrem nele retratos dos camponeses castelhanos ou gente de Segóvia. Alguns destes estudos de dimensões quase reais podem ser vistos em Lisboa. Os originais estão no lugar para o qual foram pensados: a biblioteca da Hispanic History Society.

O projeto deveria durar cinco anos, mas só terminou em 1918-1919. O repto inicial era pintar as glórias do império espanhol, algo que o pintor espanhol "recusou liminarmente", segundo Consuelo Luca de Tena. "Propôs-se pintar visões de Espanha", continua. "A natureza, o mundo doméstico dos pátios de Granada e jardins, que nada tinham que ver com a imagem turística."

José Alberto Seabra de Carvalho, diretor adjunto do MNAA, chama-lhe uma "pintura progressista que procura salvar os tipos humanos e os costumes da Espanha antiga" que começam a desaparecer com fábricas e caminhos-de-ferro.

Sem contactos com Portugal

Não se lhe conhecem contactos com artistas portugueses e "nunca veio a Portugal", diz Seabra de Carvalho. O único contacto acontece a partir da encomenda de Huntington, que lhe pede que pinte também as regiões de Portugal. Açores, Madeira e outras chegam a estar previstas, mas são os anos da I República, Sorolla não cruza a fronteira.

Há, no entanto, uma referência: quando pinta em Ayamonte, inclui quatro personagens portuguesas - "uma delas trajada à minhota", diz Seabra.

Por que cabe no Museu Nacional de Arte Antiga

Poderia pensar-se que Sorolla, que pintou sobretudo no final do século XIX e as primeiras duas décadas do século XX e é contemporâneo dos portugueses Columbano Bordallo Pinheiro ou José Malhoa, que estão no Museu do Chiado, seria um pintor demasiado jovem para as paredes do Museu de Arte Antiga, algo que José Alberto Seabra contesta. "O nosso tempo tem de avançar mais. Como aconteceu no Prado, Sorolla tem lugar aqui. Não é incongruente nem incompatível", defende.

De novo no mapa na arte

Sorolla era um pintor reconhecido "enquanto foi vivo", diz Consuelo Luca de Tena, explicando os primórdios da carreira artística do pintor. "Depois a sua pintura, como a dos pintores da sua época, passou de moda", nota. É a época em que começam a destacar-se as vanguardas parisienses.

No Museu Sorolla, antiga casa do artista, em Madrid, Consuelo Luca de Tena, diretora desde 2010, diz que estão a tentar reverter esse esquecimento. Não tanto em Espanha, mas fora. "Ele era muito popular nos EUA", conta. Fizeram-se recentemente exposições de obras de coleções americanas em Dallas e em San Diego.

Também já voltou a Paris, onde em 1906 havia feito uma exposição que foi um êxito na época, esteve em Munique e há de apresentar-se na National Gallery de Londres e na National Gallery da Irlanda. E, até 31 de março, em Lisboa.

Terra adentro, em Lisboa

A exposição pode ser vista no Museu Nacional de Arte Antiga até 31 de março, de terça a domingo, das 10.00 às 18.00 (exceto no dia de Natal e a 1 de janeiro). As entradas para Terra adentro custam 6 euros, 10 se incluir a visita ao museu. Entrada gratuita para crianças até aos 12 anos, colaboradores da Lusitânia Seguros, clientes BPI. Desconto de 50% para jovens dos 13 aos 18 anos e maiores de 65 anos. A partir de 12 de dezembro estão previstas visitas orientadas à quarta-feira, sábado e domingo, às 15.30 (3 euros por pessoa).

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.