Hormona dos ossos pode ajudar doentes cardíacos

Investigadora portuguesa em Oxford é a principal autora de uma descoberta que abre portas a novos tratamentos da fibrilação auricular.

Depois de ter trabalhado em Portugal em investigação na área do cancro e depois em malária, Lúcia Moreira, 28 anos, rumou em 2017 ao Reino Unido para ali iniciar um projeto num campo completamente diferente: a medicina cardiovascular. Agora, passados três anos, o resultado está à vista, com uma importante descoberta: a de que a hormona dos ossos, a calcitonina, que ajuda a regular a massa óssea, também pode ser produzida em células do coração, o que abre a porta a novos tratamentos para pessoas com problemas cardíacos.

A descoberta e o estudo foram publicados nesta quarta-feira (4 de novembro) na revista Nature, e Lúcia Moreira, juntamente com o investigador Abhijit Takawale, da Universidade de Montreal, no Canadá, é a autora do trabalho. O projeto foi liderado por Svetlana Reilly, da Universidade de Oxford, e por Stanley Nattel, do Montréal Heart Institute, no Canadá.

"É o meu primeiro artigo científico, e logo na Nature, não podia estar mais feliz", diz satisfeita a jovem investigadora, que neste ano ganhou também uma bolsa de doutoramento financiada pela British Heart Foundation. O doutoramento já começou em abril com o objetivo, justamente, de prosseguir neste caminho de investigação.

Depois de ter feito a dissertação de mestrado em cancro, e de ter depois trabalhado durante um ano no grupo de malária do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS), na Universidade de Minho, em Braga, Lúcia Moreira passou por um período "complicado", como ela própria diz.

"Não estava a conseguir encontrar nada em ciência em Portugal. Então, surgiu esta oportunidade de trabalhar como assistente de investigação na Universidade de Oxford. Candidatei-me e fiquei", conta ao DN.

Desde o primeiro momento, Lúcia Moreira começou logo a trabalhar no projeto que agora permitiu desvendar mais uma novidade sobre a hormona dos ossos e o papel que o coração também desempenha, afinal, na sua produção, para prevenir problemas cardíacos.

"Pensava-se até agora que a calcitonina, que ajuda a regular a massa óssea e a produção do colagénio, era sobretudo produzida pela tiroide, mas nós descobrimos que um tipo de células musculares cardíacas são, não apenas capazes de produzir esta hormona, como conseguem produzir cerca de 16 vezes mais calcitonina do que a tiroide", explica a investigadora.

A par disso, o trabalho mostrou pela primeira vez também que os chamados fibroblastos das aurículas, um tipo de células cardíacas que são responsáveis pela produção de colagénio, também têm recetores de calcitonina - esta hormona contribui para a regulação da produção de colagénio, evitando que ele se acumule nas aurículas, causando tecido cicatricial, ou cicatrizes.

Sabe-se que os níveis de calcitonina diminuem com a idade, sendo este o principal fator de risco para o surgimento de uma arritmia conhecida por fibrilação auricular, que é o problema cardíaco mais comum, com riscos significativos para o doente. A descoberta agora feita mostra como as duas coisas estão associadas, abrindo caminho a novos tratamentos para esta condição cardíaca.

Na prática, os investigadores descobriram que a calcitonina tem um papel vital na redução das chamadas cicatrizes nas aurículas, que dificultam a passagem dos impulsos elétricos e que podem desencadear então a fibrilação auricular.

Para chegar a esta conclusão, os investigadores de Oxford, em colaboração com uma equipa da universidade canadiana de Montreal, estudaram células de biopsias de aurículas retiradas de pacientes que tinham sido submetidos a cirurgias cardíacas, e descobriram que essas células libertavam calcitonina.

No entanto, nos doentes com fibrilação auricular, essas células produziam seis vezes menos calcitonina. Era preciso perceber porquê.

A resposta veio com a descoberta de que essas células auriculares responsáveis pela produção de colagénio (um dos principais componentes do tecido cicatricial) tinham recetores de calcitonina. E quando os investigadores trataram essas células com calcitonina elas produziram 46% menos de colagénio. Tinham acertado em cheio.

Entretanto, experiências que a equipa fez em ratinhos mostraram que aqueles que não produziam calcitonina tinham 2,5 vezes mais cicatrizes nas aurículas do que os que apresentavam níveis normais daquela hormona. Os primeiros desenvolveram também fibrilação auricular em idades mais jovens e tiveram episódios mais longos daquela arritmia cardíaca.

Em contrapartida, as cicatrizes auriculares e consequente arritmia cardíaca não surgiram em ratos cujas células cardíacas produziam mais calcitonina.

"Isto é importante porque pode ajudar a desenvolver novos tratamentos para doentes com fibrilação auricular", diz Lúcia Moreira, sublinhando que "a partir daqui vamos ser capazes de restabelecer os níveis normais desta hormona, embora ainda haja muito trabalho pela frente até lá chegar".

Ela própria está já a trabalhar no que se segue, graças à bolsa de doutoramento que ganhou no início deste ano. "É uma bolsa para três anos e já comecei a trabalhar em abril."

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