"Na China é impressionante: 50 universidades ensinam português a 5000 alunos"

Entrevista a Luís Faro Ramos, presidente do Instituto Camões, a propósito do primeiro Dia Mundial da Língua Portuguesa, que se assinala neste dia 5 de maio.

Celebra-se neste dia 5 de maio, pela primeira vez, o Dia Mundial da Língua Portuguesa. As previsões apontam para 400 milhões de falantes em 2050 e 500 milhões em 2100. E hoje, quantos no mundo falam a nossa língua?
Há vários critérios usados para definir o número de falantes de uma língua, uns mais rigorosos e outros menos. Uns referem mais de 250 milhões, outros mais de 260 milhões, outros ainda mais de 280 milhões. Se o critério-base for a soma das populações dos países da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa], então temos mais de 280 milhões. Esse número está a crescer a grande velocidade, sobretudo em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Tomando como base as línguas faladas como língua materna, o português é a quarta língua mais falada no mundo, a seguir ao mandarim, ao inglês e ao espanhol. Seguramente, o português é falado por todo o mundo por mais de 260 milhões de pessoas, em todos os continentes.

Também se costuma dizer que o português é o idioma mais falado no hemisfério sul, graças ao Brasil. Mas as referidas previsões baseiam-se sobretudo no crescimento dos falantes em África, certo?
As previsões apontam para uma alteração da geografia predominante da língua portuguesa, que deverá começar a manifestar-se na segunda metade deste século. Mantendo-se no hemisfério sul, passará da América Latina para África, estimando-se que Angola e Moçambique venham a multiplicar por seis e por cinco as respetivas populações. Numa linha temporal relativamente curta à escala da presença humana na Terra, três continentes deverão ter-se sucedido no comando demográfico da língua portuguesa - a Europa com Portugal, a América Latina com o Brasil e África com Angola e Moçambique. Esta evolução é muito relevante para a presença da língua portuguesa entre as línguas estratégicas de futuro em que a colocam vários estudos.

Com tanta diversidade de gente a falar a língua, esta tem condições para se manter uma só? Haverá cada vez mais especificidades nacionais ou, pelo contrário, a globalização, a partilha de contactos, fará que seja comum mas muito mais rica e diversa?
A língua portuguesa, como há bem pouco tempo referiu a investigadora Margarida Calafate Ribeiro, é uma língua de uma mestiçagem absoluta e é isso que lhe dá a grande riqueza. Nas palavras de Eduardo Lourenço, a mesma pele, queimada aqui e ali por sóis diferentes. É um bem global, de múltiplas valias, que ao ser património de angolanos, brasileiros, cabo-verdianos, guineenses, moçambicanos, portugueses, são-tomenses e timorenses, não perde a identidade central ao mesmo tempo que abre espaço às diversidades e às especificidades de cada uma dessas origens. Sendo aberta e inclusiva, creio que há condições para que a língua portuguesa se mantenha e cresça como língua plural, desde que sejam enfrentados com sucesso alguns desafios, em especial o da formação de professores, sobretudo nos países de língua portuguesa.

Além dos falantes dos países de língua oficial portuguesa, quem mais fala este idioma? Sei que na China são impressionantes os números e que também há casos surpreendentes, como o do Senegal.
Referindo-me ao universo de estudantes que aprendem Português através das redes do [Instituto] Camões, ele ultrapassa as 200 mil pessoas. Este número é, contudo, substancialmente mais elevado quando olhamos para as dinâmicas próprias do crescimento da língua portuguesa em alguns países. O caso da China é efetivamente impressionante - 50 universidades ensinam português como língua estrangeira a cerca de 5000 alunos. Temos outros casos em que o ensino da língua portuguesa tem tido um crescimento digno de nota. Destacaria o Senegal, onde o Português é ensinado como disciplina de opção plenamente integrada no sistema de ensino oficial do país a cerca de 44 mil alunos, o que representa um crescimento de cerca de 150% em relação a dez anos atrás. Mas também os EUA, com mais de 20 mil alunos do ensino básico ao superior, um crescimento de 100% nos últimos dez anos. Ou a Venezuela, que em 2019 disponibilizou o ensino da nossa língua como disciplina de opção no básico e no secundário e já tem cerca de 4000 alunos inscritos. Ou, finalmente, a Espanha, onde o Camões tem assinados memorandos de entendimento com todas as regiões autonómicas de fronteira que permitiram a integração curricular da língua portuguesa no ensino básico e no secundário e onde cerca de 55 mil alunos aprendem Português.

Nas nossas comunidades mundo fora, estamos a conseguir que as crianças aprendam a língua dos pais e dos avós?
Falamos aí do ensino do português como língua de herança, no básico e no secundário. Trata-se de uma obrigação constitucional do Estado português. O Camões atua a dois níveis: na rede oficial, com 317 professores em 13 países, e na rede apoiada, com 623 professores em quatro países. No seu conjunto, estas duas redes beneficiam neste ano letivo um universo de cerca de 70 mil estudantes, nas diversas modalidades de ensino. Os números têm-se mantido relativamente constantes nos últimos anos, mas creio que estamos longe de atingir o potencial. Há um esforço permanente de sensibilização junto das nossas comunidades, que constituem uma rede poderosíssima de divulgação da língua portuguesa, para que não deixem de aprender a língua que lhes permite comunicar entre gerações e que tem muito mais-valias além dessa, que já é suficientemente valiosa.

De que meios dispõe o Instituto Camões para a promoção da língua portuguesa? Atua em quantos países?
O Camões atua na área da promoção da língua portuguesa no estrangeiro de um modo flexível e adaptado às diversas circunstâncias e à procura existente. Atualmente ensina-se português em 76 países através do Camões, temos 309 protocolos com instituições de ensino, 82 centros de língua portuguesa, 17 centros culturais, 51 cátedras e 51 leitorados. Estamos presentes em todos os continentes, tentamos acorrer com oferta diversificada à procura crescente pelo ensino da nossa língua tanto a nível do básico e do secundário como do superior. Estamos a negociar novas cátedras na América Latina, na Europa e em África. Já se ensina Português como língua estrangeira no currículo público do secundário em 34 países. Gostava de salientar a colaboração notável de que as nossas redes beneficiam por parte das redes diplomática e consular de Portugal. E gostava de salientar, também, a importância estratégica do Instituto Português do Oriente, que não só desenvolve uma ação muito relevante no ensino do português em Macau como estende a sua área de atuação à região da Ásia-Pacífico, a países como o Vietname ou a Austrália.

Existe ação conjugada de Portugal com outras nações lusófonas para o ensino da língua noutros países?
Alguma, mas até agora aquém do potencial. Temos os casos concretos de cooperação com o Brasil na Escola das Nações Unidas em Nova Iorque, num projeto-piloto lançado na presença do secretário-geral da ONU e que já vai no segundo ano, e com Cabo Verde que enviou um docente para ensinar português na sede da CEDEAO na Nigéria. Por outro lado, temos um instrumento relevantíssimo de promoção da nossa língua comum na CPLP, que é o Instituto Internacional da Língua Portuguesa, sedeado na Cidade da Praia e para o qual Portugal tem contribuído ativamente, mais recentemente através do financiamento de um programa de investigação com bolsas de cientista convidado na área do Português como língua não materna, de que estão atualmente a beneficiar jovens investigadores do Brasil e de Cabo Verde.

Como prepararam os países lusófonos a celebração deste dia mundial? Há algum evento conjunto que queira destacar?
Antes de termos entrado todos em modo de distanciamento forçado, os planos eram muitos: em Lisboa, na Cidade da Praia, na UNESCO em Paris (a UNESCO é que instituiu o Dia Mundial da Língua Portuguesa), em Nova Iorque, nas capitais de todos os países de língua portuguesa. As atuais circunstâncias ditam que as comemorações sejam de natureza diferente. Ainda assim, o Camões está a organizar, em parceria com a CPLP, a UNESCO, a ONU News [serviço noticioso das Nações Unidas] e a RTP, um evento virtual que irá para o ar no dia 5 de maio. Quero acreditar que, como o Dia Mundial da Língua Portuguesa não deixará de se comemorar no futuro, em 2021 já poderemos fazer a festa noutras condições.

Acredita que um dia o português pode ser uma das línguas oficiais das Nações Unidas? Que organizações internacionais a têm como língua oficial ou de trabalho?
Acredito. A ambição é essa, partilhada por toda a CPLP. O realismo, que sempre deve temperar a ambição, leva-nos a não descurar nenhum esforço que se possa fazer para atingira essa meta. A designação do Dia Mundial da Língua Portuguesa é um passo simbólico da maior relevância nesse caminho. Como o é o número das organizações internacionais que têm o português como língua oficial ou de trabalho, de que destaco a União Africana, a União Europeia, a UNESCO, a Organização Mundial da Saúde ou a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, Ciência e Cultura.

Mandarim em termos absolutos, inglês em termos de expansão global, são idiomas gigantes. Tem ideia do ranking atual das línguas e em que posição está o português?
O português é uma língua global e pluricêntrica, com índices de crescimento que o posicionam e posicionarão, seguramente, como uma das grandes línguas globais do mundo. Não queremos competir com outras línguas, sejam elas mais ou menos faladas do que a nossa. Além das duas que refere, o espanhol está também consistentemente no pódio das línguas mais faladas. Mas comparamo-nos com todos, a quem não ficamos a dever nada. Há estudos, um deles que está prestes a ser divulgado, da autoria de uma das nossas autoridades na matéria, o professor Luís Reto (um dos autores do Novo Atlas da Língua Portuguesa), sobre esses rankings, que nos mostra que a organização de rankings é um exercício complexo e de difícil concretização. O português está consistentemente entre as dez primeiras, seja qual for o âmbito em que são analisadas, e se falamos nas previsões para futuro, designadamente económicas e demográficas, o português fica ainda em melhor posição.

Faz sentido tentar atribuir um valor económico à língua?
Faz todo o sentido. Tal como faz sentido atribuir à língua valor de ciência, de cultura, de conhecimento, de comunicação, de criação. A língua portuguesa possui esses valores todos, que a fazem mais rica. Estima-se que a língua portuguesa represente 3,6% da riqueza total do globo. E está provado que o ambiente de negócios fica grandemente facilitado pela circunstância de as partes falarem a mesma língua.

Tendo em conta a sua experiência de viajante, também de diplomata que foi embaixador em vários países, existe uma situação que o tenha surpreendido muito por ter surgido alguém a falar português?
Duas experiências que quero partilhar. Em 2011, era eu diretor-geral de Defesa Nacional e estava de visita a Timor-Leste, assisti a uma missa de domingo em Díli, na igreja de Motael, em português. Dentro da igreja, não havia um único espaço por ocupar. E fora, ao ar livre, muitas centenas de timorenses ouviam a missa à sombra das árvores frondosas através de inúmeros altifalantes. Aí percebi a força de uma língua, a nossa, como fator insubstituível de identidade nacional. Já em 2015, era eu embaixador na Tunísia, emocionei-me com uma jovem tunisina que fez questão de aprender português e que, mais tarde, nos confessou que com isso queria afastar-se do radicalismo religioso para que a sua vida, social e familiar, cedo ou tarde a ia impelir.

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