Hidroxicloroquina: um risco, um placebo ou uma solução possível?

Donald Trump diz tomá-la preventivamente e "prescreve-a" aos seus seguidores. Jair Bolsonaro faz eco do entusiasmo do homólogo norte-americano. Mas ainda não há motivos para ter esperança. Apesar de toda a polémica que a rodeia e da ação contraditória da Organização Mundial da Saúde, que no fim de maio interrompeu os ensaios clínicos envolvendo este fármaco e agora os retomou, a verdade é que não existem ainda dados conclusivos sobre se faz mal, se faz bem ou se não faz nada, no que respeita à covid-19.

Desde o início da pandemia de covid-19 que a cloroquina e a hidroxicloroquina têm sido apontadas, e utilizadas, em combinação ou não com o antibiótico azitromicina, como potenciais terapêuticas para a covid-19.

Em todo o mundo, estão a ser desenvolvidos ensaios clínicos com estas substâncias, indicadas na prevenção e no tratamento da malária e de doenças autoimunes como poliartrites crónicas - artrite reumatoide e artrite idiopática juvenil e lúpus eritematoso, e que chegaram a ser encaradas como fármacos de primeira linha para os casos mais graves, nomeadamente em Portugal.

Como se lia num documento do Infarmed, de 9 de março de 2020, havia na altura a convicção de que poderia ser uma solução. "Há racional e alguma evidência pré-clínica da efetividade destas moléculas sobre o SARS-CoV-191 [que entretanto mudou o nome para SARS-CoV-2] atuando em várias frentes como prevenção da entrada do vírus na célula, prevenção da sua replicação e finalmente atuando ao nível da contenção da resposta imunitária responsável pelo agravamento da doença."

Em pouco mais de meses, que parecem anos, as evidências esbateram-se. A Food and Drug Administration (FDA), entidade que regula o setor do medicamentos nos Estados Unidos, emitiu a 24 de abril um alerta contra o uso de hidroxicoloroquina ou cloroquina para o tratamento da covid-19 fora do contexto hospitalar ou do âmbito de ensaios clínicos devido ao risco de complicações cardíacas.

A este aviso não será alheio o facto de o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciar repetidamente, aos quatro ventos, que toma o medicamento preventivamente e aconselhar o seu uso, citando estudos científicos sobre a sua eficácia, garantindo que a maioria dos profissionais de saúde o tomam e, já depois deste aviso da FDA, negando a existência de um alerta federal sobre o seu uso preventivo. Argumentos deitados por terra numa recente verificação de factos realizada pelo jornal The New York Times.

Também a Agência Europeia do Medicamento (AEM) emitiu um comunicado, em 29 de maio último, alertando para os riscos do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19, pedindo aos profissionais de saúde uma monitorização rigorosa dos doentes covid que estão receber este tipo de tratamento, dados os graves efeitos secundários - nomeadamente risco acrescido de complicações cardíacas, renais e neurológicas - que deste podem resultar e alertando para o facto de não estarem provados os seus benefícios e eficácia nesta doença.

A AEM não considerava, no entanto, que existissem razões para suspender ou interromper os ensaios clínicos do fármaco para a malária com doentes covid-19, como tinha feito, a 22 de maio, a Organização Mundial da Saúde (OSM), que suspendeu o ensaio clínico Solidarity, na sequência de um estudo publicado na revista científica The Lancet, que veio a verificar-se mal fundamentado, no mínimo, fraudulento, no máximo. Mas já lá vamos.

Na linha do que tinha anunciado a FDA, um mês antes, a AEM reiterava que, enquanto os estudos prosseguem e os dados são analisados, "a cloroquina e a hidroxicloroquina apenas devem ser utilizadas, para tratamento ou profilaxia da covid-19, em ensaios clínicos ou em doentes hospitalizados sob rigorosa supervisão".

A Direção-Geral da Saúde e o Infarmed, em consonância com a OMS, suspenderam o uso de hidroxicloroquina em doentes covid em Portugal, mas no dia seguinte a OMS voltou atrás e anunciou a continuação dos ensaios clínicos com o medicamento.

Já o Infarmed e a Direção-Geral da Saúde (DGS) optaram por manter-se em consonância com a OMS e no dia 28 de maio emitiram um comunicado recomendando a suspensão do uso de hidroxicloroquina em doentes com covid-19, em Portugal.

No dia seguinte, no entanto, Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, voltou atrás e anunciou que o Solidarity, ensaio clínico global, em curso em vários países, incluindo Portugal (onde estava a ser preparado, mas ainda não tinha sido iniciado) continuaria.

Na origem desta confusão, digna de uma trama de ficção científica, está uma pequena empresa norte-americana, a Surgisphere, e a sua pretensa base de dados gigante, cujo diretor executivo, Sapan Desai, era um dos autores do estudo publicado na prestigiada The Lancet, que já se retratou do pouco rigor tornado evidente e público por uma investigação do jornal inglês The Guardian, que pode acompanhar aqui, aqui, aqui e aqui.

Ao que tudo indica, a fiável e imensa base de dados em que os estudos coassinados por Desai assentavam poderá ser falsa e a empresa Surgisphere, que tinha entre os seus quadros superiores um escritor de ficção científica e um modelo de banco de imagem, não ficaria atrás.

Um estudo canadiano com 821 adultos demonstrou que o seu efeito preventivo da hidroxicloroquina é o mesmo que um placebo.

O novo coronavírus mobilizou quase toda a comunidade científica para o estudar e encontrar soluções para o combater, desde vacinas a terapêuticas, mas, pelos vistos, também atraiu impostores que, na pressa de publicar todas as novidades - prática pouco comum em revistas cientifica como a The Lancet ou o New England Journal of Medicine, também enganado pela Surgisphere -, não são escrutinados como deveriam. O extraordinário é que influenciem decisões de organizações como a OMS.

Quanto à hidroxicloroquina, continua por determinar o papel que pode desempenhar no combate à covid-19. Não temos outro remédio senão aguardar, serenamente, pelos resultados dos ensaios clínicos que, afinal, vão continuar.

Já no que respeita à eficácia preventiva da hidroxicoloroquina, parece ser cada vez mais claro que é nula. Um estudo canadiano com 821 adultos, noticiado pelo The Guardian, demonstrou que o seu efeito é o mesmo que um placebo, mas com efeitos secundários relevantes, como náuseas e dores de estômago.

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