"A irmã para o desenvolvimento europeu neste século será a África"

Entrevista a Enzo Amendola, ministro italiano dos Assuntos Europeus, que esteve em Portugal para participar no fim de semana em Beja num encontro promovido pelo primeiro-ministro António Costa com os chamados "amigos da coesão". Estiveram presentes 17 países da União Europeia, representados por chefes de governo e ministros.

Fevereiro começou de uma forma especial para a União Europeia, depois do trauma do Brexit, e as pessoas falam de uma nova era com o eixo França-Alemanha relançado. Deixe-me perguntar-lhe que tipo de papel vê para Itália, um dos grandes países dos agora 27, um dos membros fundadores da União Europeia, nesta nova Europa sem o Reino Unido?
Itália desfruta, antes de tudo, tal como Portugal, de uma longa amizade e de uma boa relação com o Reino Unido. Por isso, se olhar para os números do comércio, se olhar para os números de joint-ventures entre os países, Itália e Portugal são provavelmente os países europeus que trabalham mais para fortalecer a amizade com o Reino Unido. E trabalhámos no último mês para ter um Brexit ordeiro. Portanto, não penso que seja um bom início de fevereiro para Itália e Portugal. Nós teremos de trabalhar no futuro para manter o Reino Unido próximo da União Europeia. E provavelmente Portugal e Itália são os melhores advogados para este trabalho. Claro que se olhar para a saída de um país pode considerar-se que a União Europeia teve um percalço, uma depressão, por causa desta realidade. O que temos de fazer, e o que temos de pedir à Comissão Europeia é que use a palavra correta. Quando falamos acerca de ambição para uma nova dimensão europeia, nesta globalização turbulenta, ambição quer dizer aquilo que temos de fazer. Às vezes a Europa produz mais narrativas do que as que conseguimos consumir. Nós devíamos usar a palavra corretamente. Depois do Brexit a União Europeia devia relançar a sua dimensão, como Portugal e Itália querem. E quando falamos acerca de nova ambição queremos dizer crescimento, mais direitos sociais para as pessoas, capacidade em termos de desenvolvimento digital, capacidade em termos de economia sustentável, quer dizer que temos de a realizar. De outra forma, o Brexit pode não ser apenas dias tristes mas também a abertura de um período de mais adiamento em termos de ação.

Mas quando está a falar acerca de Portugal e Itália como dois países muito preocupados com este Brexit, empenhados em manter boas relações com o Reino Unido, sublinho que em Portugal a opinião pública é fortemente pró-europeia, todos os grandes partidos são fortemente pró-europeus, exceto o Partido Comunista que tem uma posição mais crítica. Já em Itália é mais complicado do que isto, certo?
Em Itália, em 2016, quando se realizou o referendo do Brexit, houve alguns partidos políticos, particularmente na direita, que estiveram a celebrar aquele dia. Houve também um período em que algumas pessoas pediam para sair do euro. Hoje, também olhando para a realidade do que foi o Brexit nos últimos três anos, e olhando também para a realidade da globalização, que é muito turbulenta pois a competição não é apenas entre os 27 países mas com gigantes que estão à nossa volta, não há ninguém em Itália que esteja a celebrar o Brexit. Ninguém que esteja a sair à rua com uma T-shirt a dizer "Não ao Euro". Portanto, a opinião pública mudou. Há dez anos tínhamos uma política de austeridade na Europa que causou muitos problemas e claro que isto criou uma desafeição entre a opinião pública e o sonho europeu. Agora a realidade está a ficar muito clara. Conflitos comerciais, competição digital que está a mudar o nosso mercado laboral, que está a mudar a nossa industria, conflitos na região mediterrânica, começando pela Líbia, tudo isto está a dar-nos a sensação de que sem as alianças europeias o problema seria ainda maior.

Um dos grandes problemas de países como Itália, Grécia e Espanha é a proximidade do norte de África e todas estas vagas de migrações. Este é um grande desafio para a Itália? Sente solidariedade suficiente dos outros países europeus?
Houve um período, claro, em que não a sentíamos. Hoje a realidade está a mudar, Portugal foi sempre um dos países que teve mais solidariedade, sempre com o primeiro-ministro António Costa pronto em termos de solidariedade. O que pedimos à Comissão Europeia é que mude as regras. Nós tivemos durante muitos anos, especialmente com alguns países da Europa de Leste, uma luta sobre o que quer dizer solidariedade. Agora existe com esta nova Comissão uma possibilidade, e em Bruxelas já começámos a negociar, para ter um sistema europeu que funcione ao longo da fronteira em termos de segurança e solidariedade. Portanto, a nossa abordagem pragmática é que não há mais tempo para debate ideológico. A União Europeia, especialmente depois do Brexit, tem de avançar com as novas ferramentas. E essas ferramentas são ter regulação europeia em termos de segurança, em termos de solidariedade, querem dizer políticas de readmissão, as pessoas que não têm direito de acordo com as novas regras de asilo não podem estar na Europa. Pode haver alguma emergência, mas bem medida, como o corredor humanitário a desenvolver. Por isso o que sentimos em relação à nova Comissão é que vamos sentar-nos, vamos organizar um sistema europeu real em termos de controlo de fronteiras, segurança e solidariedade. Isto não quer dizer que fechemos a porta a África, eu penso que a irmã para o desenvolvimento europeu neste século será a África. E estou muito feliz por Portugal, quando assumir a presidência no próximo ano, se focar muito na cooperação União Europeia-África. Existe uma enorme possibilidade de cooperação entre os dois continentes. Vamos olhar só para o primeiro ponto, energia. A Europa está a lançar o Green Deal Europeu, isto não é somente uma ferramenta para aumentar o nosso sistema industrial, o sistema de energia, pode ser para África uma revolução. Por isso há muitos campos de ação em que podemos trabalhar juntos. E o principal parceiro, entre os gigantes que estão à volta da União Europeia, certamente será África.

África é também uma prioridade para Itália em termos de diplomacia, especialmente quando olhamos para a Líbia, mas neste momento vemos que há potências várias apoiando lados diferentes no conflito na Líbia, e mesmo entre os países europeus o apoio está dividido. Itália ainda apoia fortemente o governo reconhecido pela ONU em Trípoli?
Sim, absolutamente, mas este era o programa. Nos últimos dois anos, a Itália e outros países europeus deixaram a situação da Líbia crescer para uma má condição. O conflito em termos de lutas militares começou em abril passado, e a reunião para tentar resolver, em Berlim, só chegou há umas semanas. Isto foi um erro pois menos envolvimento da União Europeia deixou a porta aberta para a Turquia, para a Rússia, para outros atores regionais, entrarem na Líbia e aumentar o conflito. De Berlim em diante estou otimista que a União Europeia recupere uma unidade. Uma unidade que é necessária, pois nós vimos também na tragédia que foi a Síria, nós vemos em vários conflitos no Mediterrâneo, que não é possível ter um resultado político sem envolvimento europeu. Sabemos pela história, não do último século, mas dos últimos anos, sabemos que se a Europa não estiver unida, outros territórios, outros atores, especialmente no Mediterrâneo e na África, tomarão a liderança. Mas esta liderança algumas vezes não está relacionada com os procedimentos da ONU, está relacionada com conflitos, com atores políticos que estão a impulsionar o conflito. Portanto a Europa enfrenta um teste de maturidade em termos de diplomacia, em termos de envolvimento geopolítico. Os países membros têm de estar unidos para realizar o mesmo objetivo. Quer dizer, eu estou otimista que em Itália, França, Alemanha, Espanha, em Portugal existe o interesse hoje em dia para intervir de novo, diferente do passado, mais unidos, na região mediterrânica.

Qual é o principal objetivo desta visita a Portugal?
Estamos a apoiar a proposta de António Costa para o novo orçamento, este fevereiro será um mês decisivo para o Quadro Plurianual Financeiro 2021-2027 porque o projeto de orçamento vai estar a ser discutido na cimeira europeia de dia 20, por isso foi correta a ideia do primeiro-ministro de marcar uma reunião entre todos os países que estão a apoiar um orçamento europeu que deve ser muito mais ambicioso. Há dois pilares importantes: agricultura e coesão. Esses não são políticas tradicionais, são a base da unidade da União Europeia. E nós vimos na última proposta, especialmente no último mês, que houve um enorme corte em termos de fundos de coesão. Esta reunião com muitos dos primeiros-ministros dos países representados é uma maneira de dizer à União Europeia que o próximo orçamento claro que deve falar do Green Deal, deve falar acerca do digital, deve falar acerca de investigação, mas a base da nossa união é também políticas de coesão e agricultura que se olhar, não duma maneira fria mas na nova tendência, elas são a base também para realizar o Green Deal que eu penso que é a prioridade número um na agenda da Comissão e de todos os 27 países. Esta reunião é um sinal de unidade, do países que querem que a União se desenvolva mas também que seja inclusiva socialmente e que seja unida.

Itália algumas vezes é comparada com Portugal por causa do problema crónico do débil crescimento económico, da quase estagnação nas décadas recentes. Mas do ponto de vista português, olhamos para Itália como uma potência, uma potência industrial, com muitas áreas desenvolvidas. Ainda é possível classificar Itália como uma grande potência económica?
Nós temos de olhar agora numa escala diferente, claro, porque a primeira competição é entre a União Europeia, a que eu chamo de Gigante Gentil, com outros gigantes à nossa volta. Claro que eles consideram a nossa unidade, a nossa aliança, a nossa União, como um todo. Portanto, o primeiro ponto é que temos de trabalhar juntos para encontrar o nosso lugar nesta nova era de globalização que não é baseada em multilateralismo, mas é baseada algumas vezes em grandes choques. O que Portugal fez nos últimos anos para que recuperasse da crise económica, para nós foi considerado um modelo. Porque recupera-se em termos da economia, mas não só. Conseguiram inclusão social e também estabilidade em termos da economia. Algumas vezes esses são elementos que em discussões europeias são divididos, alguns deles dizem "Não. Estabilidade, números, orçamento correto e depois o resto." O modelo de Portugal, especialmente para o meu partido, o Partido Democrático, que até agosto estava na oposição, é uma maneira também para mostrar aos nacionalistas, às forças de direita que sempre apelam a cortar, à confrontação, algumas vezes confrontação dura com a União Europeia, que se consegue ter crescimento sustentável, até relançando investimento, sem ter de prometer às pessoas algo que nunca chega. Entre os dois modelos, as nossas duas economias que são muito baseadas em exportações, qualidade em termos de produção, para exportações. Há uma similaridade que estamos a trazer juntos em termos de empreendedorismo, PME, tecnologia alimentar, em termos de produção de máquina agrícolas, em termos de comércio, digital de qualidade e os dois países têm ainda este perfil de olhar para a África não de uma maneira medrosa, mas para confirmar a nossa dimensão económica que teremos no horizonte no próximo século.

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